Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), realizada em junho de 2026, em Lille, França, foi discutido um ponto altamente prático: qual o melhor teste confirmatório na abordagem sem biópsia da doença celíaca.
Os critérios atuais da ESPGHAN exigem anticorpos antitransglutaminase (TGA) maiores ou iguais a 10 vezes o limite superior da normalidade, confirmados por anticorpos antiendomísio (EMA) em uma segunda amostra. Apesar de altamente específico, o EMA apresenta limitações relevantes: é operador-dependente, menos disponível e mais trabalhoso, o que dificulta sua aplicação em muitos cenários.
A alternativa proposta foi substituir o EMA por uma segunda dosagem de TGA, mantendo a lógica de confirmação sorológica, mas com um teste mais padronizado, automatizado e amplamente disponível.
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O que o estudo multicêntrico avaliou
O estudo multicêntrico europeu incluiu 828 crianças com TGA inicial ≥ 10 vezes o limite superior da normalidade.
Os resultados mostraram forte concordância entre TGA inicial, segunda dosagem de TGA e EMA. Resultados discordantes foram raros, ocorrendo em cerca de 4% dos casos. A maioria dos pacientes preencheu critérios para diagnóstico sem biópsia independentemente do uso do EMA.
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Estratégias diagnósticas simuladas na prática
Quando diferentes estratégias diagnósticas foram simuladas, alguns pontos se destacaram. O uso do EMA, conforme o modelo atual, manteve alta acurácia, com praticamente ausência de falsos positivos.
A repetição do TGA com valores baixos como ponto de corte, como > 1 vez o limite, aumentou a sensibilidade, mas trouxe risco mínimo de falso positivo, de cerca de 0,1%.
Quando o critério mais rígido foi utilizado, com TGA ≥ 10 vezes repetido, nenhum falso positivo foi identificado, mas houve redução no número de pacientes elegíveis para diagnóstico sem biópsia, aumentando a necessidade de endoscopia.
Ou seja, há um equilíbrio claro entre simplificação e abrangência.
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Cenários em que a cautela permanece necessária
A análise dos casos discordantes mostrou que o risco de erro se concentra em cenários específicos: pacientes com queda significativa do TGA na segunda amostra ou com EMA negativo. Nesses casos, a probabilidade de incerteza diagnóstica aumenta. Entre todos os pacientes, apenas quatro não foram considerados celíacos com base na sorologia, e todos apresentavam EMA negativo e TGA mais baixo na segunda coleta.
Um dado importante foi a existência de um paciente inicialmente classificado como não celíaco que evoluiu posteriormente para diagnóstico confirmado, sugerindo doença em evolução.
Como interpretar os achados apresentados
O padrão é bastante consistente. Quando o TGA permanece alto de forma persistente, especialmente acima de 10 vezes o limite, a concordância diagnóstica é muito alta, independentemente do EMA.
Por outro lado, quedas de título ou resultados negativos no EMA representam a zona de incerteza, em que o algoritmo precisa ser mais cauteloso.
Possível impacto para a prática no Brasil
Esse estudo não elimina o EMA, mas muda seu papel. Na prática, abre espaço para simplificação em pacientes com perfil clássico, TGA alto e persistente e quadro clínico compatível. Por outro lado, reforça a necessidade de cautela em casos limítrofes, em que o EMA ainda pode ser útil como ferramenta de segurança.
No contexto brasileiro, essa discussão é particularmente relevante.
A limitação de acesso ao EMA pode dificultar a aplicação do modelo clássico. A possibilidade de confirmar o diagnóstico com duas dosagens de TGA pode tornar o algoritmo mais aplicável na prática real. No entanto, isso exige atenção à qualidade dos testes utilizados e interpretação cuidadosa dos resultados.
Mensagem prática
A repetição do TGA mostra excelente concordância com o EMA e pode simplificar o diagnóstico da doença celíaca em muitos casos. O EMA continua útil, especialmente nos cenários de incerteza, mas deixa de ser necessariamente obrigatório em todas as situações. O verdadeiro desafio passa a ser reconhecer quando simplificar e quando manter o rigor do algoritmo completo.
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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