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Pediatria4 agosto 2026

Diabetes tipo 1 e cognição em crianças e adolescentes

Revisão sistemática avalia habilidades de cognição e diferenças de QI em crianças e adolescentes com diabetes tipo 1
Por Roberta Castro

O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é uma doença crônica que pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes. Isso acontece particularmente durante períodos críticos de maturação cerebral, por meio de episódios recorrentes de hiperglicemia, hipoglicemia e cetoacidose diabética (CAD). As evidências sobre a magnitude do comprometimento cognitivo associado ao DM1 ainda são inconsistentes.

Uma revisão de escopo com metanálise publicada no BMJ Open Diabetes Research & Care sintetizou os métodos de avaliação cognitiva utilizados no DM1 pediátrico. Além disso, o estudo avaliou as evidências atuais sobre a relação entre o DM1 e os desfechos cognitivos em crianças e adolescentes.

Saiba mais: Avanços no diagnóstico, acompanhamento e tratamento de diabetes tipo 1

Diabetes tipo 1 e cognição em crianças e adolescentes

Como a revisão avaliou as habilidades cognitivas

Com base nas diretrizes PRISMA-ScR (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews), pesquisadores do Canadá realizaram uma busca sistemática em cinco bases de dados: Cochrane Library, Embase (Ovid), Medline (Ovid), PsycINFO (EBSCO) e Web of Science Core Collection.

Os critérios de inclusão foram:

  • artigos que incluíam crianças e adolescentes de 0 a 19 anos diagnosticados com DM1;
  • artigos que avaliavam habilidades cognitivas de pacientes pediátricos com DM1;
  • artigos que descreviam pesquisas com qualquer delineamento de estudo original, como ensaios clínicos controlados randomizados ou não randomizados, coortes retrospectivas e prospectivas, estudos de caso-controle e estudos transversais.

Os critérios de exclusão foram:

  • artigos de revisão ou editoriais;
  • artigos que relataram apenas prematuros nascidos com menos de 34 semanas de gestação, participantes com baixo peso ao nascer (<2.000 g), deficiência intelectual ou dificuldades de aprendizagem, histórico de tratamento psiquiátrico em regime de internação ou eventos neurológicos não relacionados ao diabetes;
  • artigos que apresentavam uma coorte com prevalência de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) explicitamente superior à taxa de prevalência nos Estados Unidos (>11%).

Em um mapa de evidências, foram sintetizadas as características dos estudos, as avaliações das habilidades cognitivas, os desfechos e as comparações com pares sem DM1, quando disponíveis. Para avaliar as diferenças nas pontuações do teste de quociente de inteligência (QI) de escala completa de Wechsler entre os grupos com e sem DM1, foi utilizada uma metanálise de efeitos aleatórios.

Leia também: A criança com DM1: o que muda no tratamento segundo as diretrizes?

Quais domínios cognitivos foram analisados

Foram incluídos 129 estudos, dos quais 16 compuseram a metanálise.

Cinco categorias cognitivas principais foram identificadas. As comparações com pares sem DM1, quando disponíveis, apresentaram resultados mistos:

  • desempenho acadêmico: n=37; 7 de 22 estudos identificaram pior desempenho no grupo com DM1;
  • função executiva: n=101; 31 de 48 estudos identificaram pior desempenho no grupo com DM1;
  • inteligência: n=73; 22 de 37 estudos identificaram pior desempenho no grupo com DM1;
  • linguagem: n=30; 7 de 20 estudos identificaram pior desempenho no grupo com DM1;
  • memória e aprendizagem: n=84; 31 de 48 estudos identificaram pior desempenho no grupo com DM1.

Nos estudos de grande porte (n ≥ 1.000), não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos quanto à linguagem (0 de 3 estudos com pior desempenho no grupo com DM1) e ao desempenho acadêmico (0 de 6 estudos com pior desempenho no grupo com DM1).

Diferença de QI foi pequena, mas estatisticamente significativa

A metanálise de 16 estudos incluiu 1.594 participantes. Nessa análise, crianças com DM1 apresentaram pontuações de QI ligeiramente inferiores às de seus pares sem DM1: diferença média de −3,49 pontos; intervalo de confiança de 95% (IC 95%): −6,16 a −0,82; p=0,010. O DM1 parece estar associado a resultados cognitivos ligeiramente inferiores em algumas áreas.

O que os achados permitem concluir

O estudo concluiu que as implicações práticas dos resultados permanecem incertas, embora existam evidências que sugerem pontuações mais baixas em habilidades cognitivas em pacientes pediátricos com DM1, quando comparados a seus pares sem a doença. Portanto, mais pesquisas são necessárias para compreender as implicações cognitivas do DM1 e, com isso, desenvolver estratégias direcionadas e possivelmente individualizadas que auxiliem os pacientes afetados.

Mensagem prática

O estudo chama atenção para a possibilidade de considerar a avaliação cognitiva no acompanhamento longitudinal de crianças e adolescentes com diabetes mellitus tipo 1 (DM1), principalmente daqueles com controle glicêmico insatisfatório ou episódios recorrentes de CAD e hipoglicemia grave.

Entenda: Cetoacidose diabética e os cuidados com o paciente diabético

Autoria

Foto de Roberta Castro

Roberta Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

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Referências bibliográficas

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