A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica da pele, frequentemente acompanhada por prurido intenso, distúrbios do sono e impacto significativo na qualidade de vida. Diante desse quadro, os anti-histamínicos orais são frequentemente utilizados como tratamento complementar, especialmente na tentativa de reduzir o prurido e melhorar o sono.
Apesar do uso disseminado, a participação da histamina no prurido da dermatite atópica é apenas uma parte de uma fisiopatologia complexa. Assim, permanece a dúvida sobre quanto os anti-histamínicos realmente contribuem para o controle da doença, particularmente quando associados ao tratamento habitual.
Nesse contexto, o estudo de Chu et al., publicado em julho de 2026 no BMJ, teve como objetivo avaliar sistematicamente os benefícios e os riscos dos anti-histamínicos orais utilizados como terapia adicional no tratamento da dermatite atópica.
Saiba mais: Revisão sobre dermatite atópica

Como foi avaliado o uso de anti-histamínicos na dermatite atópica?
Trata-se de uma revisão sistemática com metanálise e metanálise em rede de ensaios clínicos randomizados. Para isso, foram realizadas buscas na Medline, Embase e CENTRAL, além de bases de dados do Food and Drug Administration (FDA) e da European Medicines Agency, desde o início das bases até 5 de maio de 2025.
Foram incluídos estudos publicados em qualquer idioma que avaliaram anti-histamínicos H1 orais de primeira ou segunda geração, bloqueadores H2, estabilizadores de mastócitos ou combinações dessas intervenções como tratamento adicional. Os principais desfechos foram gravidade da dermatite, intensidade do prurido, distúrbios do sono, qualidade de vida e eventos adversos. Instrumentos validados, como o escore objetivo de dermatite atópica (SCORAD) e o Índice de Qualidade de Vida em Dermatologia (DLQI), foram utilizados. Ao todo, 47 ensaios reuniram 6.230 crianças e adultos, predominantemente com dermatite atópica moderada a grave.
Entre os estudos incluídos, a proporção mediana de participantes do sexo feminino foi de 52%. Dos 47 ensaios analisados, 27 (57%) incluíram crianças.
Saiba mais: Afecções dermatológicas na infância: Dermatite atópica
Efeito sobre gravidade e prurido foi pequeno
A adição de anti-histamínicos H1, tanto de primeira quanto de segunda geração, produziu pequena redução na gravidade da dermatite, com diferença média de −1,87 pontos (IC 95%: −3,47 a −0,27).
Também houve redução do prurido com os anti-histamínicos H1 de segunda geração (diferença média de −0,89; IC 95%: −1,41 a −0,37; certeza moderada) e com os anti-histamínicos H1 de primeira geração (diferença média de −0,28; IC 95%: −0,98 a 0,42; certeza moderada) em comparação ao placebo.
Apesar de estatisticamente detectáveis, esses efeitos ficaram muito abaixo das diferenças consideradas clinicamente importantes. Ou seja, a redução observada provavelmente não representa uma melhora perceptível para o paciente. Ademais, o aumento das doses desses fármacos não parece levar à melhora na intensidade do prurido; contudo, as evidências não são robustas.
Sono e eventos adversos também foram avaliados
Além disso, para distúrbios do sono e exacerbação da dermatite, as evidências foram de baixa certeza e não demonstraram benefício consistente.
No que concerne aos efeitos adversos, os anti-histamínicos H1 de primeira geração provavelmente aumentam o risco de comprometimento cognitivo, como sonolência, e podem favorecer a interrupção do tratamento em função disso. Entre os de segunda geração, os efeitos sobre a cognição variam conforme o medicamento: a loratadina não parece aumentar esse risco, enquanto a levocetirizina e a cetirizina podem apresentar pequeno aumento.
De modo geral, os anti-histamínicos não parecem elevar a ocorrência de eventos adversos graves, mas seu benefício clínico para a dermatite atópica permanece limitado.
Dessa forma, embora os anti-histamínicos sejam eficazes em condições como urticária e rinoconjuntivite alérgica, as evidências atuais não sustentam seu uso rotineiro para controlar a dermatite atópica. Seu uso pode ser considerado principalmente quando há doenças alérgicas associadas que respondem ao medicamento, mas, em geral, os achados favorecem evitar o uso desnecessário e priorizar tratamentos com maior eficácia e segurança.
O que os resultados representam na prática?
Os resultados desta revisão questionam o uso rotineiro de anti-histamínicos orais como estratégia para controlar a dermatite atópica ou seu prurido. Embora exista uma redução estatisticamente significativa dos sintomas, a magnitude do efeito é pequena e não parece ser clinicamente relevante.
Na prática, o estudo reforça que o controle da dermatite deve estar direcionado principalmente à inflamação cutânea e às estratégias comprovadamente eficazes para o controle da doença. Anti-histamínicos podem continuar tendo indicação quando houver uma condição associada que justifique seu uso, mas não parecem oferecer benefício suficiente para serem utilizados rotineiramente com o objetivo de tratar a dermatite atópica.
Saiba mais: Guideline AAD 2026 – Dermatite atópica em menores de 18 anos
Autoria

Amanda Neves
Editora médica na Afya. Formada em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com residência médica em Pediatria pela mesma instituição (2026).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.