O delirium é uma alteração aguda e flutuante da função cerebral. Infelizmente, está associado a complicações, como aumento do tempo de ventilação mecânica (VM) e de internação, aumento da morbidade e possíveis sequelas cognitivas em longo prazo. O delirium pediátrico (DP) permanece subdiagnosticado, apesar de sua alta incidência em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP).
A Enfermagem tem um papel fundamental na detecção precoce, prevenção e manejo do delirium, o que ocorre por meio do uso rotineiro de ferramentas validadas, da otimização do ambiente, do envolvimento da família e da assistência interdisciplinar.
Um artigo publicado no Journal of Nursing Management teve como objetivo avaliar como o DP se relaciona com os desfechos clínicos em pacientes de UTIP e mapear as estratégias de assistência de enfermagem correspondentes. O estudo encontra-se resumido a seguir.
Como a revisão avaliou delirium e desfechos em pacientes críticos
Pesquisadores da China conduziram uma revisão sistemática e meta-análise seguindo as diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) 2020. Foi realizada uma busca abrangente de artigos publicados até 18 de janeiro de 2024 nas bases de dados Cochrane Library, PubMed, Embase e CINAHL (Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature), seguindo a estrutura PECOS (população, exposição, comparação, desfechos e desenho do estudo). A inclusão foi restrita a estudos de coorte prospectivos e retrospectivos que incluíssem um grupo de comparação sem delirium.
A coleta de dados foi feita por meio de um formulário padronizado, e a qualidade dos estudos foi avaliada por meio da Escala de Newcastle-Ottawa.
Saiba mais: CBMI 2024 – Delirium em UTIP
Associação com ventilação mecânica, permanência na UTIP e mortalidade
Foram incluídos 14 estudos publicados nos últimos seis anos, abrangendo um total de 5.974 pacientes. A maioria foi realizada nos Estados Unidos. Um estudo incluiu participantes com até 21 anos, e 13 englobaram crianças e adolescentes com idade igual ou inferior a 18 anos. O tamanho das amostras variou de 43 a 1.547 pacientes por estudo. Em 13 estudos, o DP foi identificado por meio da escala Cornell Assessment of Pediatric Delirium (CAPD).
O DP aumentou significativamente:
- O risco de VM: odds ratio (OR) = 5,68; intervalo de confiança (IC) de 95%: 4,20–7,69; p < 0,01;
- O tempo de permanência na UTIP: diferença de médias padronizada (SMD) = 0,61; IC 95%: 0,53–0,70; p < 0,01;
- A mortalidade: OR = 5,09; IC 95%: 1,81–14,32; p < 0,01.
Devido à limitação de dados, não foi possível realizar uma metanálise sobre a qualidade de vida após a alta. Além disso, nem o gráfico de funil nem o teste de Egger revelaram viés de publicação significativo.
Saiba mais: Delirium em UTI Neonatal
O que os achados sugerem para a assistência de enfermagem
O estudo mostrou que o DP na UTIP está associado a piores desfechos clínicos, como maior mortalidade, permanência prolongada na UTIP, maior duração da VM e pior qualidade de vida após a alta. No entanto, ainda são necessárias mais pesquisas para confirmar algumas dessas associações.
Os resultados encontrados reforçam a importância do reconhecimento precoce e da assistência estruturada da Enfermagem, incluindo o rastreio de rotina, a otimização do ambiente, intervenções centradas na família e a colaboração interdisciplinar. Portanto, a integração de protocolos de DP aos fluxos de trabalho da Enfermagem pode melhorar a identificação oportuna, favorecer a recuperação e promover melhores desfechos em curto e longo prazo de pacientes pediátricos críticos.
Este artigo é bastante interessante e reforça que o DP não é apenas uma complicação neurológica ou um comportamento do paciente, mas uma emergência que envolve toda a equipe e traz consequências significativas para crianças em estado crítico. Sua prevenção, reconhecimento e manejo dependem da responsabilidade compartilhada entre médicos, enfermeiros, terapeutas, familiares e toda a equipe da UTIP. Inclusive, a campanha do Dia Mundial de Conscientização do Delirium de 2023 foi chamada de “Delirium is Everybody’s Business”.
Ao mesmo tempo, o estudo ressalta o papel central da Enfermagem, que frequentemente é a primeira equipe a identificar alterações sutis no comportamento, no sono, na atenção e na interação. Todo o manejo para prevenção e tratamento não se resume a tarefas secundárias, mas constitui componentes essenciais de uma assistência pediátrica intensiva de alta qualidade.
Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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