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Pediatria30 agosto 2026

Cateter nasal de alto fluxo na bronquiolite: deve ser a primeira escolha? 

Metanálise compara CNAF, oxigênio de baixo fluxo e CPAP em lactentes com bronquiolite, com foco em falha terapêutica e ventilação mecânica. 
Por Jôbert Neves

A bronquiolite continua sendo uma das principais causas de hospitalização e admissão em unidades de terapia intensiva pediátrica nos primeiros anos de vida. Apesar da ampla utilização do cateter nasal de alto fluxo (CNAF), ainda existe dúvida sobre seu real impacto em desfechos clínicos relevantes, especialmente quando comparado à oxigenoterapia convencional de baixo fluxo (CNBF) e ao CPAP. 

Nesse contexto, uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 reuniu a melhor evidência disponível para responder a essa pergunta. Os autores incluíram 18 estudos randomizados envolvendo 4.094 lactentes com bronquiolite com idade ≤ 24 meses. Foram analisadas comparações entre CNAF e oxigenoterapia convencional de baixo fluxo, além de estudos que compararam CNAF e CPAP. 

Os principais desfechos avaliados foram necessidade de ventilação mecânica e falha terapêutica, além de desfechos secundários, como permanência em UTI, duração da oxigenoterapia e tempo de internação. Veja os resultados abaixo. 

Saiba mais: CNAF em crianças internadas com bronquiolite  

CNAF reduz falha terapêutica em comparação ao baixo fluxo 

O principal resultado da metanálise foi a redução significativa da falha terapêutica com o uso de CNAF quando comparado ao oxigênio convencional. 

Entre mais de 3.100 pacientes, o CNAF foi associado a uma redução de aproximadamente 56% no risco de falha terapêutica em relação ao CNBF (RR 0,44; IC95% 0,23–0,87). 

No entanto, os autores ressaltam que a interpretação desse resultado exige cautela. Em muitos estudos, pacientes que falharam com CNBF eram resgatados com sucesso por meio do próprio CNAF, sugerindo que parte do benefício pode refletir uma estratégia de escalonamento mais eficiente do suporte respiratório. 

Ventilação mecânica não foi reduzida com CNAF 

Apesar da redução da falha terapêutica, o CNAF não diminuiu a necessidade de ventilação mecânica. 

Na comparação com CNBF, não houve diferença significativa na taxa de intubação ou ventilação invasiva (RR 0,69; IC95% 0,33–1,44). O mesmo ocorreu quando comparado ao CPAP (RR 0,90; IC95% 0,65–1,24). 

Esse achado é importante porque sugere que o principal benefício do CNAF pode estar em evitar escalonamentos intermediários do suporte, mas sem impacto comprovado nos casos mais graves. 

Permanência em UTI e duração da oxigenoterapia 

Outro achado relevante foi a redução da permanência em UTI pediátrica nos pacientes tratados com CNAF em comparação ao oxigênio convencional. 

Além disso, houve redução da duração total da oxigenoterapia, sugerindo recuperação respiratória mais rápida nesse grupo. Por outro lado, não houve diferença consistente na duração total da internação hospitalar. 

CNAF ou CPAP: houve diferença entre as estratégias? 

Quando o CNAF foi comparado diretamente ao CPAP, os resultados foram bastante semelhantes. Não houve diferenças significativas em ventilação mecânica, falha terapêutica, tempo de internação ou permanência em UTI. 

Esse achado difere de metanálises anteriores que favoreciam o CPAP e sugere que, para muitos pacientes, o CNAF pode oferecer eficácia semelhante, com potencial vantagem relacionada ao conforto e à facilidade de uso. 

Saiba mais: VNI versus CNAF em pacientes pediátricos com insuficiência respiratória aguda  

Perfil de segurança das estratégias respiratórias 

As três modalidades apresentaram perfil de segurança favorável. Eventos adversos graves foram raros. Lesões nasais foram observadas com maior frequência nos grupos de CPAP, enquanto pneumotórax e outros eventos foram incomuns em todos os grupos. A mortalidade hospitalar foi extremamente baixa, com apenas três óbitos entre mais de quatro mil pacientes incluídos na análise. 

O que os resultados indicam para a prática? 

A principal mensagem da metanálise é que o CNAF parece ser superior à oxigenoterapia convencional para pacientes que necessitam de escalonamento do suporte respiratório, reduzindo a falha terapêutica e encurtando o tempo de permanência na UTI. Entretanto, não há evidência de benefício sobre desfechos mais robustos, como necessidade de ventilação mecânica ou mortalidade. Além disso, os resultados sugerem eficácia semelhante entre CNAF e CPAP. 

Aplicabilidade dos achados no Brasil 

Para serviços que dispõem de CNAF, os dados reforçam seu papel como estratégia inicial de suporte respiratório em lactentes com bronquiolite moderada a grave, especialmente quando há falha ou progressão da necessidade de oxigênio sob baixo fluxo. 

Por outro lado, os resultados não sustentam a substituição completa do CPAP em pacientes mais graves, nem justificam esperar redução de intubação apenas com a introdução precoce do CNAF. 

Saiba mais: CBUEP 2024: Bronquiolite viral aguda — além dos guidelines 

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

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