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Pediatria29 julho 2026

Ácido ursodesoxicólico reduz a hiperbilirrubinemia neonatal prolongada?

Ensaio randomizado avaliou AUDC por cinco dias em recém-nascidos com hiperbilirrubinemia indireta prolongada.
Por Roberta Castro

A hiperbilirrubinemia indireta prolongada (HBIP) em recém-nascidos (RN) é geralmente benigna e frequentemente associada à icterícia do leite materno. No entanto, é importante descartar causas patológicas, como incompatibilidade sanguínea, deficiência de G6PD, hipotireoidismo congênito, infecção do trato urinário (ITU), distúrbios metabólicos e outras condições. 

Até o momento, não existe um tratamento farmacológico padrão. O ácido ursodesoxicólico (AUDC) tem sido investigado como uma alternativa potencial para acelerar a redução da bilirrubina, devido aos seus efeitos no fluxo biliar e na proteção dos hepatócitos. Todavia, as evidências sobre seu uso nessa condição ainda são limitadas e exigem mais investigações. Dessa forma, um estudo realizado no Irã teve como objetivo investigar o impacto do AUDC na HBIP em RN prematuros e a termo. 

Saiba mais: Icterícia neonatal e risco de kernicterus: como prevenir? 

ácido ursodesoxicólico na hiperbilirrubinemia neonatal

Como o ensaio clínico foi conduzido 

O grupo de pesquisa conduziu um ensaio clínico randomizado (ECR) com lactentes com icterícia neonatal induzida pelo leite materno e HBIP, em Rasht, Irã, no período de julho de 2023 a julho de 2024. 

Foram incluídos todos os RN prematuros com mais de 21 dias de vida e os RN a termo com mais de 14 dias, apresentando bilirrubina sérica total (BST) ≥ 10 mg/dL e bilirrubina direta (BD) < 1 mg/dL. 

Os critérios de exclusão foram: BD ≥ 1 mg/dL; evidência clínica de hipotireoidismo ou alterações nos níveis de hormônio estimulante da tireoide (TSH) e tiroxina livre (T4); evidência clínica de infecção; ITU confirmada laboratorialmente; cefalohematoma ou organomegalia; presença de substâncias redutoras na urinálise, sugestiva de galactosemia; exames de função hepática alterados; uso de fenobarbital ou de qualquer agente químico ou fitoterápico para redução da bilirrubina; suspeita de obstrução intestinal; estado crítico do RN (febre, diminuição dos reflexos neonatais, hipo ou hipertermia e sinais vitais instáveis); fototerapia domiciliar durante o estudo; níveis elevados de BST com indicação de fototerapia; e recusa dos pais em participar. 

Os participantes foram recrutados por meio de amostragem consecutiva e alocados aleatoriamente nos grupos controle (GC) ou de intervenção (GI): 

  • GI: recebeu AUDC 10 mg/kg/dia durante cinco dias; 
  • GC: não recebeu intervenção e foi apenas observado. 
  • Os níveis de bilirrubina e a tipagem sanguínea pelos sistemas ABO e Rh foram avaliados nos dias 1 e 5. 

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Redução da bilirrubina foi semelhante entre os grupos 

Foram incluídos 58 pacientes, 29 em cada grupo. Ambos os grupos apresentaram redução significativa nos níveis de bilirrubina ao longo de cinco dias (p < 0,001): 

  • GC: de 12,26 ± 1,65 para 10,09 ± 2,74 mg/dL; 
  • GI: de 11,96 ± 1,48 para 9,07 ± 3,45 mg/dL. 

A redução média da bilirrubina não apresentou diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p = 0,323): 

  • GC: 2,17 ± 2,50 mg/dL; 
  • GI: 2,89 ± 3,00 mg/dL. 

No quinto dia, os níveis de bilirrubina também não diferiram significativamente entre os grupos (p = 0,216): 

  • GC: 10,09 ± 2,74 mg/dL; 
  • GI: 9,07 ± 3,45 mg/dL. 

A incompatibilidade ABO associou-se a níveis mais baixos de bilirrubina no quinto dia no GI (7,26 ± 2,33 vs. 9,76 ± 3,61 mg/dL; p = 0,041). Já a incompatibilidade Rh correlacionou-se com maior redução da bilirrubina ao longo de cinco dias (4,98 ± 1,54 vs. 2,45 ± 3,07 mg/dL; p = 0,025). 

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O que os achados indicam para a prática 

O estudo mostrou que, em comparação com o grupo controle, um ciclo de cinco dias de AUDC não teve efeito significativo na BST de lactentes com HBIP. Os pesquisadores recomendam estudos adicionais, com amostras maiores ou maior duração do tratamento, para avaliar com mais precisão o efeito do fármaco em diferentes doses. 

Na prática, o estudo sugere que o AUDC por cinco dias não reduziu significativamente a BST em comparação à conduta expectante e, portanto, não deve ser incorporado de rotina ao manejo da HBIP. Dessa forma, é importante manter as condutas atuais de exclusão de causas patológicas e acompanhamento da evolução, evitando o uso de medicamentos no bebê apenas para tratar a ansiedade dos pais. 

Além disso, a amostra pequena é uma limitação importante, inclusive para conclusões sobre a segurança do AUDC. O estudo é relevante, mas seus resultados ainda são insuficientes para mudar a prática clínica. 

Autoria

Foto de Roberta Castro

Roberta Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

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