O retorno ao esporte após cirurgia do ombro é um dos desfechos mais relevantes para atletas competitivos, mas sua interpretação depende de como o “retorno” é definido. Uma revisão sistemática publicada em 2026 na revista científica “Arthroscopy“ avaliou justamente essa questão e mostrou que a literatura ainda utiliza definições pouco específicas e critérios de liberação heterogêneos.
Para atletas de alto rendimento, recuperar a função do ombro pode determinar a continuidade da carreira esportiva. Nesse contexto, tratar o retorno ao esporte apenas como um desfecho binário, — voltou ou não voltou, — pode ocultar diferenças importantes entre retornar aos treinos, disputar uma partida ou recuperar o nível competitivo anterior.
Definições de RTP seguem pouco padronizadas
A revisão mostrou que apenas 27,7% dos estudos utilizaram definições consideradas completas de retorno ao esporte. Para os autores, uma definição completa precisava incluir dois elementos: referência ao nível competitivo pré-lesão e um limiar objetivo de participação, como disputar ao menos uma partida oficial no mesmo nível.
A maioria dos trabalhos apresentou definições parciais, correspondendo a 51,5% da amostra, enquanto 20,8% utilizaram definições mínimas. Além disso, somente 15,4% dos estudos explicitaram o que consideravam um RTP bem-sucedido. A expressão mais frequente foi “retorno ao esporte no nível pré-lesão”, utilizada em 46 estudos, mas sem necessariamente estabelecer um parâmetro objetivo de participação.
Essa falta de precisão dificulta a comparação dos resultados. Segundo a discussão dos autores, o nível pré-lesão pode representar tanto o desempenho anterior quanto a categoria de competição, conceitos que não são necessariamente equivalentes.
Como a revisão avaliou atletas competitivos?
A revisão sistemática seguiu as recomendações PRISMA e pesquisou MEDLINE, Embase e Cochrane Library em janeiro de 2025. Foram elegíveis estudos publicados a partir de 2000 que avaliaram desfechos após cirurgia do ombro, incluíram atletas competitivos e reportaram dados de retorno ao esporte.
Após a triagem, foram incluídos 130 estudos, com 6.983 pacientes. Os autores classificaram as definições como completas, parciais ou mínimas e também avaliaram os critérios utilizados para liberar o atleta. A qualidade metodológica foi analisada pelo escore de Coleman modificado, enquanto instrumentos específicos foram empregados para avaliação do risco de viés.
A evidência disponível apresentou limitações importantes: 74,6% dos estudos eram nível IV. A qualidade metodológica média foi de 54,6 pontos, com 44,6% dos trabalhos classificados como razoáveis e 41,5% como ruins.
Tempo predomina nos critérios de liberação esportiva
Os critérios de liberação esportiva foram descritos em 98 estudos. O tempo após a cirurgia foi o parâmetro mais utilizado, aparecendo em 67 trabalhos, seguido por força, amplitude de movimento e dor. Em 34 estudos, equivalentes a 26,2% da amostra, o tempo foi o único critério informado.
A qualidade média dos critérios de liberação foi de 1,8 em uma escala de zero a quatro. O sistema empregado considerava o tempo previsto para o retorno, critérios condicionais, métodos para avaliá-los e detalhes do protocolo de reabilitação.
Os autores ressaltam que a decisão de retorno envolve múltiplos fatores e que parâmetros adicionais, como força, amplitude de movimento e resistência, associados à descrição de seus métodos de avaliação, fornecem critérios mais específicos do que o tempo isoladamente.
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Quando o estudo é de esporte único, a descrição é mais completa
A padronização foi maior nos estudos dedicados a esporte único. Neles, 39,5% das definições foram completas, em comparação com 10,9% nos estudos que reuniam vários esportes. Na regressão ordinal, trabalhos de uma única modalidade apresentaram cerca de três vezes mais chance de fornecer uma definição mais completa.
Também houve diferenças entre categorias de procedimentos. Estudos sobre instabilidade ou estabilização do ombro apresentaram a menor proporção de definições completas, com 15,1%, enquanto nos trabalhos sobre manguito rotador essa proporção chegou a 50%.
Outro ponto foi a análise por sexo. Entre os estudos com participantes homens e mulheres, apenas 2,9% apresentaram separadamente os dados de retorno ao esporte.
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Padronizar o retorno à competição favorece comparações
A principal implicação da revisão é que as taxas de retorno à competição após cirurgia do ombro precisam ser interpretadas de acordo com a definição utilizada em cada estudo. Resultados baseados apenas no retorno ao nível pré-lesão podem representar desfechos diferentes entre populações e modalidades.
Os autores propõem que pesquisas futuras informem um limiar objetivo de participação, o esporte praticado e o nível competitivo específico. Como exemplo, o retorno pode considerar a participação em pelo menos uma partida no mesmo esporte e nível competitivo. O artigo também recupera o continuum do Consenso de Bern, que diferencia retorno à participação, retorno ao esporte e retorno ao desempenho.
A revisão, contudo, é limitada pela qualidade dos estudos incluídos, pela heterogeneidade das definições e pela necessidade de inferir o significado de RTP em trabalhos que não apresentavam uma definição explícita. Os próprios critérios de “atleta competitivo” também não eram uniformes.
Na prática, o estudo não estabelece um protocolo único de liberação após cirurgia do ombro. Seu impacto clínico está em mostrar que o médico deve verificar como o retorno ao esporte foi definido antes de utilizar determinada taxa para orientar expectativas ou comparar resultados. A padronização das definições e dos critérios de liberação pode tornar a evidência mais comparável e útil para a tomada de decisão junto aos atletas competitivos.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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