A lesão do LCA é uma das mais frequentes no esporte e frequentemente vem acompanhada de lesões meniscais e condrais que comprometem o prognóstico de longo prazo. O momento ideal para a reconstrução, precocemente, nas primeiras semanas, ou após um período de reabilitação, sempre foi tema de debate. Enquanto a cirurgia precoce visa restaurar a estabilidade e evitar danos secundários, a abordagem tardia permitiria a redução do edema, a recuperação da amplitude de movimento e o fortalecimento muscular antes do procedimento. Mas qual estratégia oferece melhores resultados?
Uma revisão sistemática disponibilizada em 2026 no Journal of ISAKOS comparou a reconstrução realizada em menos de três meses após a lesão com aquela feita após esse período. O objetivo foi avaliar a associação do timing cirúrgico com lesões meniscais e condrais, desfechos relatados pelos pacientes, frouxidão do joelho, cirurgia de revisão, retorno ao esporte e osteoartrite.
Revisão sistemática define o corte para cirurgia precoce
A revisão seguiu a declaração PRISMA 2020 e teve protocolo registrado no PROSPERO. A busca foi realizada em PubMed, EMBASE, Web of Science, CINAHL e Cochrane Library, incluindo estudos clínicos publicados em inglês a partir de 2000 com pacientes de 16 anos ou mais.
Foram identificados 2.851 registros, dos quais 11 estudos, com mais de 9.500 pacientes, atenderam aos critérios de inclusão. A cirurgia precoce foi definida como reconstrução em menos de três meses da lesão, enquanto a reconstrução tardia ocorreu depois desse intervalo. O corte foi escolhido previamente como um ponto clinicamente relevante de reavaliação após um período de reabilitação, embora os autores reconheçam que não existe um limite universalmente aceito.
Devido à heterogeneidade entre desenhos de estudo, definições do momento cirúrgico, medidas de desfecho e formas de relato, os dados foram sintetizados de maneira narrativa, sem metanálise.
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A lesão meniscal difere com o timing cirúrgico?
A principal diferença observada ocorreu nas lesões meniscais. Entre os pacientes submetidos à reconstrução precoce, 49,5% apresentavam lesão meniscal, em comparação com 59,6% no grupo tardio. O menisco medial concentrou 63,0% das lesões no grupo precoce e 73,9% no tardio.
Os autores consideram biomecanicamente plausível essa associação porque os meniscos atuam como estabilizadores secundários do joelho. Na ausência de um LCA íntegro, episódios repetidos de instabilidade podem aumentar a carga sobre essas estruturas, sobretudo sobre o menisco medial, que apresenta menor mobilidade em razão de suas fixações capsulares.
Ainda assim, a revisão não demonstra que o atraso cirúrgico tenha causado as lesões adicionais. Algumas lesões poderiam já estar presentes no momento da ruptura do LCA e terem sido identificadas apenas durante a reconstrução.
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Autores comparam lesões condrais entre os grupos
As lesões condrais foram registradas em 18,6% dos pacientes do grupo precoce e em 20,4% do grupo tardio, sem uma diferença clara entre as estratégias. Os autores ponderam que alterações condrais podem evoluir gradualmente e que o corte de três meses talvez seja curto para revelar diferenças clinicamente relevantes.
A própria revisão cita evidência prévia segundo a qual o risco de lesão da cartilagem aumentaria aproximadamente 1% a cada mês de atraso. Esse dado, porém, não modifica a interpretação principal da análise atual, na qual as frequências de lesões condrais permaneceram próximas entre os grupos.
Escores funcionais mostram resultados inconsistentes
Os escores funcionais relatados pelos pacientes foram pouco e heterogeneamente documentados. KOOS, IKDC, Tegner e Lysholm apresentaram resultados variáveis, sem padrão consistente de vantagem para reconstrução precoce ou tardia. Os instrumentos utilizados e os momentos de avaliação também diferiram entre os estudos.
Além disso, nenhum estudo incluído forneceu dados sobre retorno ao esporte, osteoartrite ou frouxidão medida pelo artrômetro KT-1000. A cirurgia de revisão foi relatada de maneira esparsa e inconsistente, o que impediu uma comparação significativa entre os grupos.
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Se a evidência é observacional, a decisão deve ser individualizada
Embora os estudos tenham recebido avaliações geralmente favoráveis pela escala Newcastle-Ottawa, a evidência observacional apresenta limitações importantes. Não foram incluídos ensaios clínicos randomizados, e parte dos estudos não ajustou adequadamente fatores de confusão. Também houve diferenças de idade entre grupos, perdas de seguimento e heterogeneidade na identificação de lesões meniscais e condrais. O registro no PROSPERO ocorreu após a busca bibliográfica, embora os critérios, desfechos e métodos já estivessem definidos antes da triagem e extração dos dados.
A indicação da cirurgia também pode ter influenciado o momento da reconstrução. Pacientes com sintomas mecânicos ou lesões meniscais deslocadas podem ter sido operados mais cedo, o que introduz risco de viés de seleção e confusão por indicação. Por isso, os autores destacam que os resultados representam associações e não comprovam efeito causal do timing cirúrgico.
Na prática, a reconstrução do LCA em menos de três meses esteve associada a menor prevalência de lesão meniscal, mas isso não significa que todos os pacientes devam ser operados nesse intervalo. O momento da cirurgia deve considerar sintomas, instabilidade, lesões associadas, evolução com a reabilitação e disponibilidade de recursos. Em pacientes com sintomas mecânicos, instabilidade recorrente ou suspeita de lesão intra-articular associada, os autores apontam a importância de avaliação especializada mais precoce.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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