A radiografia de bacia é parte central da avaliação do impacto femoroacetabular (IFA) e da displasia acetabular, condições em que a morfologia óssea e a orientação da pelve influenciam a interpretação das imagens e o planejamento do tratamento. As radiografias anteroposteriores podem ser realizadas com o paciente em decúbito dorsal, sem carga, ou em ortostatismo, sob carga fisiológica.
Essa diferença de posicionamento pode modificar a orientação pélvica e, consequentemente, alguns parâmetros usados na avaliação do quadril. Uma revisão sistemática com metanálise, publicada em 2026 na Arthroscopy, investigou se as medidas obtidas nas duas posições podem ser consideradas equivalentes em pacientes com IFA ou displasia acetabular.
A revisão sistemática compara posições radiográficas
O estudo foi conduzido de acordo com as recomendações PRISMA e teve protocolo registrado no PROSPERO. A busca foi realizada nas bases PubMed, Cochrane Central Register of Controlled Trials e Scopus, incluindo trabalhos que compararam diretamente parâmetros radiográficos obtidos em posição supina e em ortostatismo em pacientes com IFA ou displasia acetabular.
Foram incluídos 12 estudos, com 824 quadris de 675 pacientes. Os trabalhos apresentavam níveis de evidência de II a IV e incluíam diferentes desenhos de coorte e estudos diagnósticos. Para a avaliação metodológica, os autores utilizaram o instrumento MINORS. A revisão foi classificada como nível de evidência IV. As metanálises empregaram modelo de efeitos aleatórios e foram realizadas separadamente para IFA e displasia acetabular, sem combinar as duas condições em uma única estimativa.
Os principais parâmetros avaliados foram inclinação pélvica, ângulo de Tönnis e ângulo lateral centro-borda (LCEA). Outros parâmetros, como ângulo de Sharp, largura do espaço articular, índice FEAR e translação da cabeça femoral, tiveram dados insuficientes para análise quantitativa robusta.
A inclinação pélvica muda entre as posições?
Sim. Todos os estudos que avaliaram inclinação pélvica identificaram diferenças significativas entre as radiografias supinas e em ortostatismo. Na metanálise de cinco estudos, com 318 quadris, a medida de inclinação pélvica foi maior na posição supina.
No grupo com IFA, a diferença média ponderada foi de +1,38 cm, com intervalo de confiança de 95% de 0,92 a 1,84. Entre os pacientes com displasia acetabular, a diferença foi de +1,98 cm, com intervalo de confiança de 95% de 0,37 a 3,59. A heterogeneidade foi baixa no grupo IFA, mas elevada na displasia acetabular, com I² de 96%.
Esses resultados mostram que a mudança de posição influencia a orientação pélvica medida na radiografia, aspecto que deve ser considerado ao interpretar exames utilizados na avaliação para preservação do quadril.
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Compare o ângulo de Tönnis e o LCEA
O ângulo de Tönnis também variou de forma significativa. A metanálise de seis estudos, envolvendo 440 quadris, mostrou valores menores na posição supina. A diferença média ponderada foi de −1,14° no IFA e de −1,93° na displasia acetabular. A heterogeneidade foi baixa nos dois grupos.
Já o ângulo lateral centro-borda LCEA apresentou comportamento diferente. Embora alguns estudos individuais tenham identificado variações entre as posições, a análise agrupada de oito estudos, com 548 quadris, não demonstrou diferença estatisticamente significativa. No IFA, a diferença média ponderada foi de +0,97° e, na displasia acetabular, de +1,03°.
Os autores ressaltam, porém, que a ausência de diferença significativa no LCEA não significa que o posicionamento do paciente seja irrelevante. A consistência da posição continua importante para a interpretação e para a comparação de exames seriados.
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Quando a posição muda, o planejamento cirúrgico exige cautela
Os achados indicam que radiografias supinas e em ortostatismo não devem ser consideradas intercambiáveis. Para o diagnóstico e o planejamento cirúrgico, recomenda-se documentar a posição do paciente durante a aquisição da imagem e comparar medidas seriadas apenas quando os exames tiverem sido obtidos na mesma posição.
Esse cuidado é particularmente relevante porque a maioria dos procedimentos de preservação do quadril é realizada com o paciente em posição supina. Assim, diferenças entre medidas pré-operatórias obtidas em ortostatismo e aquelas observadas com o paciente supino devem ser antecipadas na interpretação. Os autores também apontam que imagens com carga podem ser mais apropriadas para parâmetros iniciais, por refletirem a inclinação pélvica funcional e a cobertura acetabular dependente da carga.
A revisão apresenta limitações. A maioria dos estudos incluídos tinha nível de evidência III, os critérios diagnósticos variavam entre os trabalhos e havia diferenças nos protocolos radiográficos. Na displasia acetabular, os limiares de LCEA utilizados para definição diagnóstica também variaram. Houve ainda heterogeneidade importante em algumas análises e dados insuficientes para vários parâmetros menos frequentemente relatados.
Na prática, a principal mensagem é que a radiografia de bacia deve ser interpretada considerando a posição em que foi realizada. Padronizar a aquisição, registrar se o exame foi obtido com ou sem carga e manter a mesma posição em avaliações seriadas ajuda a evitar comparações entre medidas que, segundo a metanálise, não são necessariamente intercambiáveis.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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