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Oncologia4 março 2026

Tratamento adjuvante do câncer colorretal: o que mudou e quais são os desafios?

Diretrizes recentes reforçam CAPOX por 3 meses em muitos casos de câncer colorretal. Entenda evidências e desafios da adjuvância.

A adjuvância no câncer colorretal é uma das decisões mais comuns na oncologia do dia a dia. O paciente opera, tira o tumor, faz uma boa recuperação e, na consulta seguinte, vem a pergunta inevitável: “Eu preciso mesmo de quimioterapia? E, se precisar, por quanto tempo? Com oxaliplatina ou sem?”. Essa conversa não é simples porque envolve dois riscos que tendem para lados opostos. De um lado, o risco de recidiva, que pode significar doença incurável lá na frente. Do outro, o risco de toxicidade, em especial a neuropatia por oxaliplatina, que não é só um efeito colateral incômodo, podendo virar sequela por anos, atrapalhando trabalho, dirigir, abotoar uma camisa, pegar um copo gelado.

Esse editorial é interessante porque mostra como o Japão, um país com bons resultados cirúrgicos e histórico forte de uso de fluoropirimidinas orais (UFT/LV, S-1, capecitabina), passou por uma mudança de paradigma, saindo de uma adjuvância muito baseada em monoterapia oral e caminhou para aceitar oxaliplatina como padrão, mas com um ajuste fino que faz muito sentido clínico: duração curta (3 meses) como regra, e 6 meses só para alto risco. O dado para essa virada foi a consolidação dos dados do ACHIEVE, braço japonês da colaboração IDEA, que trouxe segurança de eficácia com menos neurotoxicidade.

Para quem atende fora do Japão, a utilidade é dupla. Primeiro, ajuda a entender por que “3 meses de CAPOX” virou uma recomendação forte em várias diretrizes. Segundo, reforça uma ideia que melhora a prática, de que não existe uma adjuvância única; o melhor tratamento é aquele que equilibra risco de recidiva e risco de sequela no perfil daquele paciente.

Metodologia:

O texto é um editorial (não é estudo original nem meta-análise) publicado na revista Cancers em 2025. Ele organiza e interpreta evidências já conhecidas, com foco em como elas foram incorporadas no contexto japonês. O fio condutor é mostrar (1) por que a oxaliplatina demorou a ser aceita no Japão, (2) quais dados internacionais sustentam seu benefício em adjuvância, (3) como a discussão de duração 3 vs 6 meses evoluiu na colaboração IDEA, e (4) como o estudo japonês ACHIEVE ajudou a fechar a conta localmente.

Apesar de ser editorial, ele traz números bem objetivos dos ensaios que fundamentaram a mudança, principalmente MOSAIC, NSABP C-07, NO16968 (XELOXA), IDEA e ACHIEVE. E discute as limitações relevantes que todo médico precisa ter na cabeça quando prescreve oxaliplatinam que são a neurotoxicidade cumulativa e persistente, com relato de neuropatia grau 1-3 persistindo em mais de 15% mesmo 4 anos após o fim do tratamento.

População envolvida:

            Como é editorial, não há uma única população, mas o texto se ancora em três grupos clínicos bem definidos:

  • Câncer de cólon estágio III: o grupo onde a oxaliplatina mostrou benefício mais consistente.
  • Estágio II de alto risco: um grupo menor, controverso, onde a adjuvância pode ser considerada em casos selecionados.

O contexto japonês, em que fluoropirimidina oral teve papel histórico forte e resultados cirúrgicos são descritos como bons, o que alimentou por anos a dúvida: “vale a pena adicionar oxaliplatina aqui?”

O editorial também faz a divisão que hoje é quase obrigatória em estágio III: baixo risco (T1-3 N1) versus alto risco (T4 e/ou N2), porque isso muda o ganho absoluto e muda a balança do risco e benefício do uso da oxaliplatina.

Resultados:

a) Por que oxaliplatina entrou (ou deveria entrar) no estágio III

O texto revisita os ensaios clássicos. No MOSAIC, adicionar oxaliplatina ao 5-FU/LV (FOLFOX) melhorou DFS em 5 anos: 73,3% vs 67,4% (HR 0,80). Quando separa por estágio, o ganho é claro no estágio III: DFS 5 anos 66,4% vs 58,9% (HR 0,78). Para estágio II globalmente, não houve diferença significativa, mas em “alto risco” houve tendência favorável (DFS 82,3% vs 74,6%; HR 0,72). Em OS, o benefício aparece principalmente em estágio III (6 anos OS 72,9% vs 68,7%, HR 0,80).

O editorial também cita o NSABP C-07 (FLOX vs 5-FU/LV) com aumento absoluto de DFS em 5 anos de 5,2% (69,4% vs 64,2%). E o NO16968/XELOXA, onde CAPOX trouxe aumento de DFS em 5 anos de 6,3% e diferença que se sustentou em seguimento mais longo. A mensagem aqui é bem prática, concluindo que em estágio III oxaliplatina soma benefício real.

b) O grande debate: 3 meses vs 6 meses (IDEA e ACHIEVE)

O coração do editorial é a discussão de duração. A colaboração IDEA, juntando 6 estudos fase III em 12 países, comparou 3 vs 6 meses de CAPOX ou FOLFOX em estágio III. No resultado global, 3 meses não provou não-inferioridade formal para DFS em 3 anos (HR 1,07), mas quando você estratifica, aparece o ponto-chave: no baixo risco (T1-3 N1), 3 meses foi não-inferior (HR 1,01; DFS 3 anos 83,1% vs 83,3%).

E o protocolo importa: para CAPOX, 3 meses foi não-inferior a 6 meses (HR 0,95), enquanto para FOLFOX a história foi menos favorável na análise por subgrupos.

Em OS em 5 anos, a diferença absoluta entre 3 e 6 meses foi mínima (82,4% vs 82,8%; diferença 0,4%).

Aí entra o dado japonês do ACHIEVE, que teve predominância de CAPOX (75%) e uma fração de mFOLFOX6 (25%). Ele mostrou que não houve diferença significativa em DFS 5 anos (HR 0,95; 75,2% no grupo 3 meses vs 74,2% no 6 meses) nem em OS 5 anos (HR 0,91; 87,0% vs 86,4%). O que mudou mesmo foi toxicidade: neuropatia grau ≥2 caiu muito com 3 meses (FOLFOX 12,6% vs 36%; CAPOX 14% vs 36,2%). E vários outros eventos (diarreia, neutropenia, trombocitopenia, náusea, mucosite e síndrome mão-pé) também foram menos frequentes com 3 meses.

O editorial usa esses números para justificar o consenso japonês atual, onde se ussa 3 meses de CAPOX (ou FOLFOX) como padrão; até 6 meses para alto risco, e fluoropirimidina isolada como opção aceitável para pacientes de risco muito baixo, idosos ou com comorbidades.

c) E o estágio II de alto risco?

O texto lembra que o estágio II tem sobrevida global boa (cita 88,2% em 5 anos), mas ainda assim cerca de 15% recidiva. A evidência de adjuvância é mais fraca. Ele lista fatores de alto risco alinhados a diretrizes (poucos linfonodos examinados, T4, má diferenciação, mucinoso/células em anel de sinete, perfuração, invasão vascular/linfática/perineural, margem positiva, CEA alto, tumor budding). E comenta o estudo japonês (JFMC46-1201) sugerindo ganho em DFS com UFT/LV no alto risco, mas sem diferença na OS, embora a quimio apareça como fator independente em análise multivariada. Em resumo: no estágio II, a decisão continua sendo caso a caso.

  • Para estágio III, a oxaliplatina faz diferença, especialmente no grupo de maior risco. O benefício não é gigantesco, mas é consistente e se mantém no longo prazo.
  • A duração importa porque neuropatia importa. Se você já viu paciente que “nunca mais voltou ao normal” por causa de formigamento e dor em mãos/pés, entende por que 3 meses ganhou força para ser incorporado na prática clínica. Obtem-se quase mesma eficácia, e bem menos sequela, principalmente com CAPOX.
  • Use a lógica do risco (T/N) para decidir intensidade. Baixo risco (T1-3 N1): 3 meses, em geral, é o ponto de equilíbrio. Alto risco (T4 e/ou N2): ainda faz sentido discutir 6 meses, dependendo da tolerância, idade, neuropatia prévia e prioridade do paciente.
  • Fluoropirimidina isolada ainda tem lugar, principalmente em idosos, pacientes frágeis, comorbidades, ou quando o custo de neuropatia é alto demais para aquela pessoa. Isso não é “tratar mal”, é tratar com bom senso.
  • No estágio II, fuja do automático. Alto risco é uma lista concreta de fatores patológicos e cirúrgicos. Se o caso não tem esses fatores, a melhor conduta muitas vezes é vigilância bem feita.

Um recado que o editorial cita e vale a pena guardar: o próximo passo para refinar adjuvância deve vir do ctDNA pós-operatório. Na prática, isso significa caminhar para tratar mais intensamente quem tem doença residual molecular e poupar quem tem risco realmente baixo.

Autoria

Foto de Gabriel Madeira Werberich

Gabriel Madeira Werberich

Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Residência de Clínica Médica pela UERJ/Hospital Universitário Pedro Ernesto(HUPE)/Policlínica Piquet Carneiro(PPC). Residência Medica em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fellowship (R4) de Oncologia Clínica no Hospital Sírio Libanês (2016). Concluiu a residência médica de Radiologia e Diagnóstico por Imagem no HUCFF-UFRJ e R4 de Radiologia do Centro de Imagem do Copa Dor, com ênfase em Ressonância Magnética de Medicina Interna, e mestrado em Medicina na UFRJ concluído em 2023. Tem experiência na área de Clínica Médica, Oncologia Clínica e Diagnóstico por Imagem em Tórax, Medicina Interna e Radiologia Oncologica. Pos-Graduação em curso de Inteligencia Artificial aplicada a Saúde.

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