Depois da ressecção completa de um câncer de pulmão não pequenas células (NSCLC) estágio IB-III, a sensação do paciente muitas vezes é: “tirei o tumor, acabou”. A nossa preocupação é outra: “será que ficou doença microscópica não detectável?”. A cirurgia remove o que vemos e tocamos. O problema é o que já circulou, o que ficou em linfonodos não amostrados, na micrometástase à distância silenciosa.
Por muitos anos, a quimioterapia adjuvante foi a principal tentativa de tentar resolver esse problema. O benefício existe, mas parece ter chegado em um teto: melhora em sobrevida, sim, porém modesta, e nem todo mundo tolera. Além disso, na vida real, uma parcela importante dos pacientes nem chega a receber quimioterapia depois da cirurgia por complicações, perda de performance, infecções ou simplesmente pela dificuldade de retomar a vida após uma lobectomia/pneumectomia.
Com a imunoterapia mudando o jogo no estágio IV e também no cenário perioperatório, a pergunta natural virou: vale a pena usar inibidores de checkpoint na adjuvância depois de ressecção completa, especialmente em tumores sem EGFR/ALK positivos? E, se vale, para quem exatamente? A literatura já trouxe resultados fortes (como IMpower010 e KEYNOTE-091), mas nem sempre eles apontaram na mesma direção quando olhamos PD-L1, histologia, EGFR, e até tabagismo.
Uma meta-análise recente tentou organizar esse cenário: juntou ensaios grandes e estudos adicionais, buscou sinais consistentes e também ponderou onde a evidência ainda é incerta, principalmente na sobrevida global e em subgrupos com muita variabilidade.

Metodologia
O trabalho é uma revisão sistemática com meta-análise, seguindo PRISMA e registrada no PROSPERO (CRD42024547752). Eles buscaram estudos no PubMed, Embase, Web of Science e Cochrane até 12 de fevereiro de 2025. O foco foi bem definido: pacientes com NSCLC ressecado completamente (estágios I-III), tratados com imunoterapia adjuvante (ICIs) após cirurgia, com resultados de DFS e/ou OS e dados de segurança (eventos adversos relacionados ao tratamento, eventos graves e descontinuação).
Um detalhe que pesa: eles não ficaram só nos “grandes nomes” de fase 3. Entraram 12 artigos provenientes de 8 ensaios, totalizando 4048 pacientes, incluindo RCTs (como IMpower010, KEYNOTE-091 e BR.31) e também estudos fase 2 de braço único e uma coorte retrospectiva multicêntrica. Isso aumenta o tamanho da amostra, mas também mistura níveis diferentes de robustez. Eles tentaram controlar isso com ferramentas de risco de viés (Cochrane para RCT, ROBINS-I para não randomizados).
Do ponto de vista estatístico, usaram modelo de efeitos aleatórios (REML) com ajuste de Knap-Hartung, avaliaram heterogeneidade com I² e fizeram análises de sensibilidade tirando um estudo por vez. Para segurança, como muitos estudos são não comparativos nesse aspecto, eles calcularam incidências combinadas com IC 95%. Tudo isso é metodologia padrão e adequada para o tipo de pergunta.
População envolvida
No conjunto, são 4048 pacientes com NSCLC completamente ressecados, estágios IB-III (muitos ensaios focam em IB com tumor ≥4 cm até IIIA). O ponto crucial é que a meta-análise tenta olhar para um grupo que, na prática, a gente trata de forma diferente: pacientes sem drivers clássicos que já têm terapia adjuvante altamente eficaz (osimertinibe para EGFR mutado, alectinibe para ALK). Por isso, o artigo destaca que em vários estudos EGFR-positivo foi excluído, mas em IMpower010 e KEYNOTE-091 ainda havia uma proporção de EGFR-positivo ou status desconhecido (no IMpower010, por exemplo, 11,6% EGFR-positivo e parte desconhecida; no KEYNOTE-091, 6,2% EGFR-positivo e muitos com status não definido).
Os imunoterápicos incluídos foram diversos (atezolizumabe, pembrolizumabe, nivolumabe, durvalumabe e outros PD-1/PD-L1 usados principalmente na Ásia, como camrelizumabe e toripalimabe). E isso é um detalhe importante: embora o mecanismo seja similar, cada ensaio tinha nuances (duração do tratamento, população, uso de quimioterapia adjuvante concomitante ou prévia, critérios de PD-L1). O follow-up médio variou de 21,6 a 71 meses, ou seja, há estudos bem maduros e outros ainda em fase intermediária.
Resultados
Eficácia global: DFS melhora, OS ainda não
O achado central é direto: imunoterapia adjuvante melhorou DFS em NSCLC IB-III ressecado completamente, com HR 0,82 (IC 95% 0,72-0,93; p=0,01), e o mais curioso: heterogeneidade praticamente zero (I² = 0%). Isso sugere que, apesar de diferenças entre estudos, o efeito em DFS é consistente quando você olha o conjunto.
Por outro lado, não houve benefício significativo em OS, HR 0,90 (IC 95% 0,67-1,21; p=0,34). Aqui vale uma leitura bem prática: OS em doença ressecada demora para amadurecer. Além disso, quando o paciente recidiva, ele pode receber imunoterapia no estágio avançado, e isso dilui diferença entre braços. O artigo comenta também que nenhum dos estudos tinha OS como desfecho primário, o que reduz poder para detectar diferença.
Subgrupos: onde parece fazer mais sentido
Aqui o artigo fica mais interessante, porque os sinais não seguem exatamente o que tendemos a pensar normalmente.
EGFR: o benefício de DFS aparece em EGFR-negativo (HR 0,75) e em status desconhecido (HR 0,78), mas não é significativo em EGFR-positivo (HR 0,68, IC muito amplo e heterogeneidade alta). A leitura clínica é compatível com o que vemos na doença metastática: EGFR mutado tende a responder menos a imunoterapia e hoje tem caminhos melhores (osimertinibe) no adjuvante.
PD-L1: aqui vem a parte que exige maturidade na interpretação. O benefício significativo apareceu em PD-L1 1-49% (HR 0,75). Já em PD-L1 <1% não houve benefício (HR 0,87, cruza 1). E, surpreendentemente, em PD-L1 ≥50% também não foi significativo (HR 0,61, mas IC amplo e heterogeneidade enorme, I² ~80%). Ou seja: numericamente parece ótimo, mas estatisticamente fica instável. Isso tem cara de briga de estudos: IMpower010 sugeriu benefício forte no PD-L1 alto; KEYNOTE-091 não mostrou esse mesmo padrão, e o controle foi melhor do que o esperado em alguns estratos. Quando você junta dois estudos com resultados que não se alinham, o efeito aparece como heterogeneidade alta. A meta-análise, corretamente, conclui que é preciso cautela para dizer algo definitivo no PD-L1 ≥50%.
Histologia: benefício em não-escamoso (HR 0,72) e ausência de benefício claro em escamoso (HR 0,93). Esse achado é plausível: adenocarcinoma costuma ter perfis moleculares e microambientes diferentes, mais compatíveis com estratégias modernas (e também mais chance de drivers, o que complica). Mas como são poucos estudos na estratificação por histologia, isso é mais um sinal do que uma sentença final.
Tabagismo: talvez o achado mais contraintuitivo. O benefício de DFS apareceu em nunca fumantes (HR 0,68), e não foi significativo em ex-fumantes ou fumantes atuais, com heterogeneidade alta nesses grupos. Isso vai contra o senso comum de que “mais TMB, melhor resposta”. O próprio artigo discute hipóteses (diferenças de microambiente, enriquecimento de vias de reparo de DNA em quem nunca fumou, variação por droga e por estratégia), mas também alerta que são poucos estudos e muita heterogeneidade, então não dá para transformar isso em regra clínica. A mensagem prática é: não use tabagismo isoladamente como critério para oferecer ou negar imunoterapia adjuvante.
Segurança
Quando você fala em adjuvância, o paciente está potencialmente curado. Então tolerabilidade pesa ainda mais do que no metastático.
A meta-análise mostra incidências combinadas importantes:
- TRAEs (qualquer grau): 70%
- Eventos graves (grau 3-5): 12%
- Descontinuação por toxicidade: 17%
Nos eventos imuno-mediados mais comuns (>5%), aparecem hipotireoidismo (19,2%), rash (18,4%), pneumonite (10,2%) e hipertireoidismo (8,7%). Entre os graves, pneumonite e hepatite aparecem na casa de ~1%. Isso parece pequeno, mas na prática pneumonite grau 3 em um paciente “curado” tem um peso enorme: internação, corticoide prolongado, risco de sequelas e perda de qualidade de vida.
Mensagem Prática
A evidência conjunta sustenta que imunoterapia adjuvante melhora DFS em NSCLC IB-III completamente ressecado, especialmente em pacientes EGFR-negativos e, possivelmente, em subgrupos como não-escamoso e PD-L1 1-49%.
Sobrevida global ainda precisa de dados mais maduros. Não é que não funcione; é que o acompanhamento, o cruzamento de tratamentos na recidiva e o desenho dos ensaios tornam mais difícil enxergar OS neste momento.
PD-L1 ≥50% não pode ser interpretado como “certeza” a partir desta meta-análise, porque a heterogeneidade é alta. Na prática, isso significa que você deve se apoiar mais no ensaio específico que guia sua decisão (e em diretrizes locais) do que apenas no número combinado.
Toxicidade em adjuvância é assunto sério. Se você vai indicar, precisa de um plano de acompanhamento: checar sintomas respiratórios precocemente (pneumonite), função tireoidiana seriada, orientação escrita de sinais de alerta e um serviço que consiga intervir rápido. O custo de uma toxicidade grave na adjuvância é maior.
No consultório, a forma mais honesta de traduzir este artigo para o paciente é: há boa chance de reduzir risco de recidiva, mas ainda não é possível garantir ganho em tempo de vida; e existe risco real de efeitos imunes que podem exigir corticoide e suspensão do tratamento. Esse equilíbrio é o centro da decisão compartilhada.
Autoria

Gabriel Madeira Werberich
Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Residência de Clínica Médica pela UERJ/Hospital Universitário Pedro Ernesto(HUPE)/Policlínica Piquet Carneiro(PPC). Residência Medica em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fellowship (R4) de Oncologia Clínica no Hospital Sírio Libanês (2016). Concluiu a residência médica de Radiologia e Diagnóstico por Imagem no HUCFF-UFRJ e R4 de Radiologia do Centro de Imagem do Copa Dor, com ênfase em Ressonância Magnética de Medicina Interna, e mestrado em Medicina na UFRJ concluído em 2023. Tem experiência na área de Clínica Médica, Oncologia Clínica e Diagnóstico por Imagem em Tórax, Medicina Interna e Radiologia Oncologica. Pos-Graduação em curso de Inteligencia Artificial aplicada a Saúde.
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