A síndrome de Li-Fraumeni (LFS) é uma das síndromes de predisposição hereditária ao câncer mais penetrantes conhecidas atualmente, associada a variantes germinativas patogênicas do gene TP53. Caracteriza-se por risco extremamente elevado de múltiplas neoplasias ao longo da vida, frequentemente com início precoce e padrão tumoral amplo, incluindo sarcomas de partes moles e ósseos, câncer de mama de início precoce, tumores do sistema nervoso central e carcinoma adrenocortical. Nos últimos anos, avanços no entendimento da penetrância tumoral e no desenvolvimento de estratégias de vigilância modificaram de forma significativa a abordagem clínica desses pacientes.
Estudos epidemiológicos recentes reforçam que o risco cumulativo de câncer em portadores de TP53 patogênico se aproxima de 100% em mulheres e ultrapassa 70% em homens ao longo da vida. Fortuno et al. demonstraram que, apesar desse risco elevado, existe ainda heterogeneidade substancial na idade de início e no espectro tumoral, mesmo entre indivíduos portadores da mesma variante. Esses dados reforçam que essa síndrome não deve ser tratada como uma entidade homogênea, mas sim como um espectro clínico que exige avaliação individualizada de risco.
A estratificação refinada do risco por tipo tumoral e faixa etária tem implicações diretas na prática clínica. O reconhecimento de períodos de maior vulnerabilidade para determinados cânceres permite planejar protocolos de vigilância mais eficientes e personalizados, reduzindo a morbidade associada a exames excessivos e aumentando a probabilidade de detecção precoce de tumores clinicamente relevantes. Nesse contexto, estratégias de rastreamento sensíveis e não baseadas em radiação ionizante tornam-se fundamentais.
Vigilância oncológica intensiva e a ressonância magnética de corpo inteiro
A vigilância oncológica intensiva na LFS ganhou novo patamar com a incorporação da ressonância magnética de corpo inteiro (whole-body MRI – WB-MRI). Sodde et al. avaliaram prospectivamente o desempenho da WB-MRI em adultos com LFS como ferramenta de detecção precoce de câncer. O estudo demonstrou que a WB-MRI é capaz de identificar neoplasias em estágios iniciais, muitas vezes assintomáticas, com alto valor preditivo negativo, permitindo excluir doença ativa com elevado grau de confiança.
Ao cruzar os dados de risco apresentados por Fortuno et al. com os achados de vigilância de Sodde et al., observa-se clara complementaridade entre estratificação epidemiológica e estratégia diagnóstica. A elevada penetrância tumoral descrita justifica programas de vigilância sistemática ao longo de toda a vida, enquanto a heterogeneidade fenotípica reforça a necessidade de interpretação individualizada dos achados da WB-MRI, evitando intervenções desnecessárias frente a achados incidentais.
Benefícios da detecção precoce
A identificação precoce de neoplasias permite intervenções menos agressivas, com impacto positivo na sobrevida e na qualidade de vida desses pacientes. Entretanto, a taxa de achados indeterminados ressalta a importância de que esses programas sejam conduzidos em centros especializados, com expertise em oncogenética e radiologia oncológica.
A principal contribuição do estudo de Sodde et al. reside na demonstração de que a WB-MRI é capaz de identificar uma parcela significativa de neoplasias em estágios iniciais, frequentemente assintomáticas, com potencial impacto na modificação da história natural da doença.
Entre os cânceres detectados por meio da WB-MRI, a maioria encontrava-se em estágios I ou II, reforçando a hipótese de que a vigilância por imagem pode permitir intervenções precoces e, potencialmente, com intenção curativa. Além disso, o alto valor preditivo negativo observado sugere que um exame negativo confere razoável segurança clínica quanto à ausência de doença ativa naquele momento, o que tem relevância prática no seguimento desses pacientes de altíssimo risco.
Desafios na prática médica
Entretanto, a análise crítica dos dados evidencia limitações importantes. A sensibilidade global da WB-MRI, quando utilizada como ferramenta isolada, foi modesta, o que indica que uma proporção relevante de neoplasias não é detectada por esse método. Esse achado é particularmente relevante no contexto da LFS, em que o risco cumulativo de câncer é extremamente elevado e distribuído ao longo de todo o espectro etário. Assim, a utilização da WB-MRI como estratégia única de vigilância pode gerar uma falsa sensação de segurança, caso não esteja integrada a protocolos complementares de rastreamento direcionado e avaliação clínica frequente.
Outro aspecto crítico diz respeito à elevada taxa de achados incidentais benignos, que resultaram em investigações adicionais em parcela considerável dos exames realizados. Embora a maioria desses achados não tenha se traduzido em diagnóstico de câncer, eles implicam custos adicionais, maior utilização de recursos diagnósticos, risco de procedimentos invasivos e impacto psicológico significativo para os pacientes.
Esse efeito de “cascata diagnóstica” deve ser cuidadosamente considerado, sobretudo em programas de vigilância de longo prazo, nos quais a repetição anual do exame pode amplificar esses efeitos cumulativamente.
Mensagem final
Dessa forma, a análise integrada do risco-benefício sugere que a WB-MRI anual representa uma ferramenta valiosa dentro do manejo da síndrome de Li-Fraumeni, mas não deve ser encarada como solução isolada ou definitiva.
Seu uso é mais apropriado quando inserido em um programa estruturado de vigilância multimodal, associado a protocolos claros para manejo de achados incidentais e a uma comunicação transparente com o paciente sobre suas limitações.
O reconhecimento dessas nuances é fundamental para maximizar os benefícios da detecção precoce, minimizando os riscos de sobre-diagnóstico, intervenções desnecessárias e falsa sensação de segurança em uma população caracterizada por risco oncológico extremo.
Nesse contexto, a integração entre dados epidemiológicos refinados de risco tumoral e estratégias modernas de vigilância por imagem redefine o manejo da síndrome de Li-Fraumeni. A personalização do acompanhamento, baseada na compreensão da heterogeneidade clínica e no uso racional da WB-MRI, representa atualmente a melhor estratégia para reduzir mortalidade e morbidade associadas a essa síndrome de altíssimo risco.
Autoria

Lethícia Prado
Médica formada pela Universidade Federal do Ceará ⦁Residência em Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado - RJ ⦁ Residência em Oncologia Clínica pelo INCA.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.