O tratamento do câncer de colo uterino localizado é majoritariamente cirúrgico. Pacientes com critérios de alto risco são indicados para tratamento adjuvante com quimiorradioterapia (QRT), sendo estes: Margens cirúrgicas comprometidas; Invasão parametrial, Linfonodo pélvico comprometido. O estudo GOG-0263/KGOG 1008, recentemente publicado na revista europeia Annals of Oncology, buscou avaliar se há benefício em ampliar esta opção terapêutica aos pacientes de risco intermediário, população tradicionalmente selecionada para realização de radioterapia adjuvante exclusiva.
DESENHO METODOLÓGICO
O estudo GOG-0263/KGOG 1008 foi um ensaio clínico randomizado e aberto de fase 3. Foram selecionados pacientes acima de 18 anos diagnosticados com neoplasia de colo uterino estágio FIGO 1b a 2a, submetidos a histerectomia radical com linfadenectomia pélvica e de risco intermediário, pelos critérios de Sedlis. A população foi randomizada para radioterapia associada a cisplatina semanal com planejamento de 6 ciclos ou radioterapia adjuvante exclusiva. O tratamento deveria iniciar 3 a 8 semanas após a cirurgia e os endpoints primários foram sobrevida livre de progressão e sobrevida global.
POPULAÇÃO ENVOLVIDA
316 pacientes foram randomizados entre 2010 e 2022, com uma mediana de 46 anos de idade ao diagnóstico. A maioria era estadio 1b1 (56%) e de histologia escamosa (73%). Cerca de 36% da população realizou radioterapia na modalidade IMRT, proporcional entre os dois grupos. Pacientes com critérios de alto risco foram excluídos previamente à randomização.
RESULTADOS
Com um seguimento mediano de 76 meses, não houve ganho com significância estatística de sobrevida livre de progressão no braço quimiorradioterapia, embora tenha havido superioridade numérica no estudo. A estimativa das taxas de recorrência em 3 anos foi de 11,5% no grupo QRT e 16,6% no grupo radioterapia exclusiva (HR 0,698 IC 95% 0,40 – 1,19; p 0,09), sem diferença do uso de QRT na recorrência a distância. Não houve incremento em sobrevida global. As taxas de eventos adversos grau 3 ou 4 foram de 42,9% e 15,3% nos grupos QRT e RT exclusiva, respectivamente. 99,4% dos pacientes do braço RT exclusiva e 84% dos pacientes do braço QRT concluíram o planejamento terapêutico completo.
PARA REFLETIR
– Reformulação dos critérios de Sedlis: Os critérios para definição de risco intermediário após a cirurgia são os mesmos há cerca de 20 anos, utilizando taxa de invasão de estroma, linfovascular e tamanho tumoral. A superioridade numérica de benefício no grupo QRT pode sugerir que há uma população que potencialmente se beneficie de terapia sistêmica, especialmente considerando que foi a população que menos concluiu o tratamento. À luz das novas tecnologias atuais, como os biomarcadores, podemos considerar pertinente a reavaliação em estudos futuros de novos critérios de risco.
– IMRT: Além de obtermos o dado de endpoint primário de forma prospectiva, circunstância escassa do tema colo uterino x adjuvância, GOG-0263/KGOG 1008 de forma interessante demonstra resultados superiores de sobrevida no grupo radioterapia isolada quando comparado ao estudo Sedlis, definidor dos critérios de risco nos anos 2000. Uma justificativa seria superioridade das tecnologias atuais, como IMRT, melhor estadiamento radiológico e, desta forma, melhor seleção para tratamento adjuvante.
O QUE CONSIDERAR PARA A PRÁTICA CLÍNICA
GOG-0263/KGOG 1008 reforça o protocolo atual e sugere a ausência de benefício de realização de QRT adjuvante na neoplasia de colo uterino que, hoje, consideramos risco intermediário. A taxa de eventos adversos no grupo QRT mostra-se mais um dado que enfraquece a utilização de tratamento sistêmico nesta população. Além disso, a IMRT demonstra resultados positivos em eficácia e segurança, tratando-se de uma modalidade de tratamento local adequada.
Autoria

Thiago Branco
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com residência médica em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro titular da Sociedade Clínica de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Torácica (GBOT). Além da atuação na Afya, também é pesquisador em Oncologia Torácica, Oncologista na empresa Américas Oncologia e no serviço público.
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