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Oncologia4 setembro 2026

O que mudou sobre o tratamento sistêmico da recorrência do câncer de ovário?

ASCO 2026 atualiza o tratamento da recorrência do câncer de ovário, com novidades para doença sensível e resistente à platina.
Por Thiago Branco

A recidiva dos tumores epiteliais de ovário segue sendo um cenário de grande desafio. A ASCO recentemente lançou seu último guideline sobre o assunto, intitulado Systemic Treatment of Ovarian Cancer Recurrence: ASCO Living Guideline, Version 2026.1.0 O intuito é trazer as atualizações dos últimos 2 anos com maior nível de evidência, fortalecer evidências já consolidadas e sanar dúvidas relacionadas ao benefício de determinadas condutas, outrora incertos. 

Para realizar a publicação, um time de especialistas se baseou inicialmente em 819 estudos. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, permaneceram 147 publicações, incluindo ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas, das quais 36 forneceram evidência direta para as recomendações.  

Tratamento da recorrência do câncer de ovário

Human uterus with ovarian cancer tumors illustrating gynecologic oncology reproductive health and female cancer awareness

Vamos aos principais destaques:

Doença platino-sensível: a combinação com platina continua sendo a espinha dorsal

A principal mensagem para pacientes com recorrência sensível à platina é clara: quando possível, deve-se utilizar uma combinação contendo platina. 

As opções recomendadas incluem: doxorrubicina lipossomal peguilada + carboplatina; paclitaxel + carboplatina; gemcitabina + carboplatina 

A escolha deve considerar fatores como toxicidades prévias, performance status, neuropatia residual, preferência da paciente e características clínicas individuais. Há uma discreta tendência ao esquema com doxorrubicina lipossomal relacionada ao perfil de eventos adversos. 

A adição de bevacizumabe segue como estratégia recomendada, apesar do principal benefício demonstrado ser em Sobrevida Livre de Progressão (SLP) em detrimento de Sobrevida Global (SG). Quanto aos inibidores de PARP, não há recomendação a favor ou contra. Porém, a diretriz reitera que o uso no cenário de primeira linha e tendência de menor benefício em linhas subsequentes tornaram a utilização cada vez mais seletiva no contexto de recorrência.  

Manutenção na doença platino-sensível

Para pacientes que receberam um esquema contendo bevacizumabe e apresentaram resposta, a diretriz recomenda a manutenção com bevacizumabe, indicação esta já consolidada. 

Cirurgia de citorredução secundária:  Cada vez menos indicada

A ASCO conclui que não há evidência suficiente para recomendar universalmente a favor da citorredução secundária na recorrência sensível à platina. Entretanto, a cirurgia pode ser discutida quando existe uma probabilidade significativa de se alcançar ressecção macroscópica completa, especialmente na doença focal, limitada e com bom intervalo livre de neoplasia 

HIPEC na recorrência: Ainda sem resposta definitiva

A diretriz conclui que não existem evidências suficientes para recomendar a favor ou contra HIPEC na recorrência sensível à platina. Essa posição reflete a heterogeneidade dos estudos disponíveis sobre esse tema e a dificuldade de transformar resultados positivos das populações dos estudos, geralmente altamente selecionadas, em uma recomendação generalizável. 

Recorrência resistente à platina: O cenário está se tornando mais individualizado

Na doença resistente ou refratária à platina, a diretriz traz novidades. O uso de Mirvetuximabe Soravtansina surge como opção para pacientes com doença de alto grau e expressão positiva validada de FRα, situação também já aprovada no Brasil. A combinação de  Relacorilant + Nab-paclitaxel também é apontada como possibilidade, independente de marcador. Na indisponibilidade das medicações, a diretriz mantém as recomendações prévias com o uso de quimioterapia, em monoterapia ou associada a Bevacizumabe.

Detalhes quanto ao seguimento

O documento reforça que o monitoramento rotineiro do CA-125 com o objetivo de iniciar tratamento precocemente apenas com base em elevação bioquímica pode piorar aspectos relacionados ao bem-estar e à qualidade de vida sem demonstrar benefício em sobrevida global.  

Assim, a estratégia de acompanhamento deve ser individualizada, ressaltando a existência de lacunas importantes, especialmente quanto a frequência ideal de consultas e o papel futuro de ferramentas como ctDNA. 

O que levar para a prática clínica 

A introdução de novos agentes no cenário platino-resistente, há anos sem atualizações, é importante e ganha destaque na atualização. O aumento do uso de biomarcadores no câncer de ovário reforça a tendência global em oncologia de individualização de tratamentos e o espaço de alternativas cirúrgicas continua pontual e dedicado a casos selecionados. 

Autoria

Foto de Thiago Branco

Thiago Branco

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com residência médica em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro titular da Sociedade Clínica de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Torácica (GBOT). Além da atuação na Afya, também é pesquisador em Oncologia Torácica, Oncologista na empresa Américas Oncologia e no serviço público.

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