Quase todo oncologista já viveu a mesma frustração, quando o tumor tem TP53 mutado, a biologia é agressiva, o prognóstico costuma ser pior; e, apesar disso, por décadas o TP53 ficou fora do alvo terapêutico. A gente reconhecia o “guardião do genoma” no papel, mas não conseguia transformar esse conhecimento em remédio, pelo menos não de forma específica e repetível.
O cenário mudou quando passou a fazer sentido falar em “mutação tratável” dentro do TP53. Algumas mutações criam defeitos estruturais com encaixes aproveitáveis por pequenas moléculas e é justamente aí que entra a mutação Y220C, uma alteração que gera uma cavidade específica na proteína p53, acessível a ligação por fármaco, e que aparece em cerca de 1% dos tumores sólidos.
Nesse sentido, o estudo PYNNACLE, conduzido em múltiplos centros nos Estados Unidos e publicado em 26 de fevereiro de 2026 no New England Journal of Medicine, teve por objetivo avaliar o rezatapopt, um reativador seletivo de p53 para tumores com TP53 Y220C, definindo dose máxima tolerada e a dose recomendada para fase 2, além de descrever segurança, farmacocinética e sinais iniciais de eficácia em pacientes fortemente pré-tratados.
O que torna esse trabalho relevante é a combinação de ambição e pragmatismo. Ambição, porque mira um alvo historicamente “indomável” e pragmatismo porque não vende milagre. Ele mostra onde o medicamento parece funcionar, onde não funciona, como é a toxicidade real, e qual dose faz mais sentido para seguir adiante.

Metodologia
O PYNNACLE é um estudo fase 1-2, de braço único, multicêntrico. Aqui foi reportada a fase 1, com duas etapas clássicas. Primeiro, escalonamento de dose para definir a dose máxima tolerada; depois, otimização de dose, seguindo princípios do Project Optimus, para escolher uma dose que equilibra exposição, tolerabilidade e atividade antitumoral. O rezatapopt foi administrado por via oral, em ciclos contínuos de 21 dias, com possibilidade de escalada individual após dois ciclos se o perfil de eventos permitisse.
Os pacientes eram adultos, com tumor sólido localmente avançado ou metastático, portador de TP53 Y220C, ECOG 0-1, e com progressão após pelo menos uma linha sistêmica prévia. As mutações precisavam ser identificadas por teste de sequenciamento com critérios analíticos definidos, ou confirmadas por sequenciamento central quando necessário. Entre as exclusões relevantes estavam tumores primários de sistema nervoso central, metástases cerebrais instáveis, doença cardíaca significativa recente, cirurgia maior muito próxima da inclusão, e terapia prévia dentro de 21 dias.
Os desfechos primários foram segurança e dose, eventos limitantes de dose, eventos adversos e eventos graves. Como desfechos secundários, o estudo avaliou eficácia preliminar, com resposta objetiva, tempo até resposta, duração de resposta, PFS e OS, além de farmacocinética. Resposta foi aferida por investigador e por revisão central independente, usando RECIST 1.1, com adaptações específicas para próstata resistente à castração quando aplicável. Por ser fase 1 de braço único, este artigo não trabalha com odds ratio; ele descreve taxas de resposta, curvas de Kaplan–Meier e intervalos de confiança, o que é o esperado para este desenho.
População envolvida
Foram 77 pacientes tratados, distribuídos em oito níveis de dose, indo de 150 mg até 2500 mg uma vez ao dia, além de 1500 mg duas vezes ao dia. Era uma população fortemente pré-tratada, com mediana de três linhas anteriores, variando de 1 a 9. Os tumores mais comuns foram ovário, pâncreas, mama e cólon. Um dado interessante é que 29% tinham uma variante de KRAS concomitante ao TP53 Y220C..
Resultados
1) Dose, e tolerabilidade
No escalonamento, não houve eventos limitantes de dose com as doses uma vez ao dia, mesmo chegando a 2500 mg. Os eventos limitantes apareceram em 1500 mg duas vezes ao dia, com 2 de 10 pacientes tendo toxicidade limitante, um com elevação de transaminases grau 3 e outro com dano renal agudo grau 3. Com isso, a dose máxima tolerada foi de 1500 mg duas vezes ao dia.
A escolha da dose recomendada para fase 2 não foi simplesmente a maior dose abaixo da máxima tolerada. A equipe fez otimização e considerou segurança, atividade e farmacocinética. A dose selecionada foi 2000 mg uma vez ao dia com alimento. Por quê isso importa na prática? Porque os eventos gastrointestinais foram o grande incômodo, e o estudo mostrou que com alimento houve aumento de exposição e melhora de tolerabilidade, com menos náusea e vômito.
2) Perfil de eventos adversos
Quase todos os pacientes tiveram algum evento adverso durante o tratamento. Os mais frequentes foram náusea, vômito, aumento de creatinina, fadiga e anemia. Anemia foi o evento grau 3 ou maior mais comum, ocorrendo em 16% no período de tratamento.
Eventos relacionados ao tratamento ocorreram em 87% dos pacientes. Em geral, eram grau 1-2, mas houve eventos grau 3-4 em parte dos pacientes, sem eventos grau 5 relacionados ao tratamento. Dois pacientes, 3%, descontinuaram por evento adverso relacionado ao tratamento, um por creatinina elevada e outro por trombocitopenia imune grau 4.
O dado que ajuda a visualizar vida real é a necessidade de ajustes. Houve evento adverso levando a modificação de dose em 65% dos pacientes; mesmo na dose recomendada para fase 2, 67% precisaram de interrupção, e uma parte também precisou de redução. Isso não significa que o remédio seja inviável; significa que ele exige plano de suporte, e que a equipe precisa estar pronta para manejar efeitos, principalmente gastrointestinais e hematológicos.
3) Eficácia preliminar
Entre 71 pacientes com doença mensurável e pelo menos uma avaliação pós-baseline, a taxa de resposta objetiva foi 20% pela avaliação do investigador, e também 20% por revisão central independente. Houve respostas confirmadas em múltiplos tipos tumorais. O tempo mediano até a resposta foi rápido, 1,4 mês, e a maioria das respostas apareceu já na primeira reavaliação. A duração mediana de resposta foi 7,0 meses. PFS mediana foi 4,3 meses e OS mediana 11,4 meses.
Todos os 14 respondedores tinham TP53 Y220C com KRAS selvagem. No subgrupo KRAS wild-type, tratado em dose considerada eficaz, a taxa de resposta foi 30%. Por outro lado, nenhum paciente com KRAS variante concomitante teve resposta confirmada, embora muitos tenham estabilizado. Isso sugere um eixo biológico que pode virar critério de seleção no futuro, e também aponta uma hipótese simples, onde tumores com driver forte como KRAS, reativar p53 sozinho talvez não seja suficiente, pelo menos como monoterapia.
4) Farmacocinética e ctDNA
O estudo mostrou que, em estado de equilíbrio, 2000 mg com alimento aumentou a concentração máxima média em cerca de 30% e a exposição global em cerca de 40% quando comparado à mesma dose sem alimento. A meia-vida mediana em estado de equilíbrio foi de 20,5 horas, algo compatível com dose diária.
Um dos dados mais interessantes foi o ctDNA. Entre 41 pacientes com dados de DNA tumoral circulante, 95% tiveram redução da frequência alélica do TP53 Y220C nas semanas 3 a 6, sugerindo efeito no alvo. Quase 80% tiveram queda de pelo menos 50%, e 39% tiveram queda de pelo menos 95%. Todos os pacientes que responderam tiveram redução do ctDNA, e mais da metade teve quedas muito acentuadas. Isso não prova benefício clínico por si só, mas reforça a plausibilidade biológica.
Discussão e Limitações
Este estudo coloca, pela primeira vez de forma convincente, um reativador seletivo de p53 em território clínico com respostas objetivas em tumores sólidos, abrindo uma porta que por muito tempo esteve fechada.
Alguns detalhes fazem diferença na interpretação. Primeiro, é um desenho de estudo de fase 1, com população heterogênea, muito pré-tratada, e isso normalmente não permite inferir taxa de resposta. Ver respostas confirmadas, inclusive completas pela revisão central, já é um sinal que merece continuidade o estudo da droga.
Segundo, o papel do KRAS. O estudo praticamente desenha uma regra provisória. Se há KRAS mutado, a chance de resposta como monoterapia parece baixa; se KRAS é wild-type, a chance sobe. Isso pode orientar a fase 2, e também ajuda o clínico a não criar expectativa errada quando lê “p53 reactivator” e imagina que isso se aplicaria a qualquer TP53 Y220C.
Terceiro, toxicidade. Náusea e vômito foram comuns. A anemia foi a principal toxicidade grave e a taxa de modificação de dose foi alta. Isso exige um cuidado que lembra muito o início da era dos inibidores orais de outras vias, como alguns TKIs. O remédio pode funcionar, mas o sucesso depende de suporte bem montado. Antiemese, hidratação, acompanhamento de função renal, vigilância hematológica, e ajuste precoce de dose para manter o paciente em tratamento.
Quarto, o modo de tomar o medicamento. É um exemplo de como a farmacocinética pode virar decisão clínica simples. Tomar com comida aumentou a exposição e reduziu os eventos gastrointestinais. Para quem prescreve, isso vira instrução clara, não um detalhe de bula.
Há limitações importantes, e elas precisam ser ditas sem rodeios.
A principal é o desenho. Braço único, fase 1, sem comparador. Isso impede qualquer afirmação definitiva de eficácia comparativa. Outra limitação é a heterogeneidade de tumores e de tratamentos prévios; o estudo mostra atividade atravessando tipos tumorais, mas não permite concluir qual tumor se beneficia mais, nem qual é o melhor cenário clínico para usar.
A amostra também é pequena para subgrupos e há o viés clássico de seleção, ECOG 0-1. Paciente mais frágil, com comorbidades e reserva baixa, pode ter tolerabilidade diferente.
O ctDNA foi avaliado em 41 pacientes, não em todos. E biópsias em progressão foram raras. Isso limita a compreensão de mecanismos de resistência, que será central na fase 2 e em combinações futuras.
Por fim, o efeito do KRAS é sugestivo, mas não é lei. Em fase 1, associação pode refletir biologia, mas também distribuição de tumor types e prognóstico. Precisa ser testado prospectivamente.
Mensagem Prática
Esse artigo acrescenta três coisas que podem, de fato, entrar no repertório clínico desde já.
Primeiro, ele reforça uma cultura que ainda precisa amadurecer em vários serviços. Perfil genômico não é só para achar alvo clássico. Às vezes, a mutação rara, como TP53 Y220C, é a porta de entrada para um estudo clínico com mecanismo novo. Em tumores muito pré-tratados, isso pode ser a diferença entre repetir quimioterapia com chance pequena de benefício e oferecer algo com plausibilidade real.
Segundo, ele ensina como pensar em tolerabilidade de uma droga oral nova. Se você vier a prescrever rezatapopt em contexto de estudo, ou se acompanhar paciente em protocolo, trate náusea e vômito como toxicidades centrais. Combine antiemese cedo, reforce hidratação, monitore creatinina, e acompanhe hemograma com atenção especial à anemia. E, principalmente, normalize a ideia de ajuste de dose. O estudo mostra que interrupções e reduções fazem parte do caminho, inclusive na dose escolhida para fase 2.
Terceiro, ele mostra que alvo não é só TP53 Y220C. KRAS entra como marcador prático de probabilidade de resposta, ao menos para a monoterapia. Se o tumor tem TP53 Y220C e KRAS wild-type, faz sentido ter mais expectativa de resposta; se KRAS é mutado, a expectativa deve ser calibrada, e o futuro provavelmente será combinação, não monoterapia.
No fim, o estudo não entrega um tratamento pronto para diretriz. Ele entrega um sinal claro de que um mecanismo historicamente difícil pode ser acionado de forma seletiva em humanos, com respostas objetivas e um perfil de toxicidade manejável.
Autoria

Gabriel Madeira Werberich
Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Residência de Clínica Médica pela UERJ/Hospital Universitário Pedro Ernesto(HUPE)/Policlínica Piquet Carneiro(PPC). Residência Medica em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fellowship (R4) de Oncologia Clínica no Hospital Sírio Libanês (2016). Concluiu a residência médica de Radiologia e Diagnóstico por Imagem no HUCFF-UFRJ e R4 de Radiologia do Centro de Imagem do Copa Dor, com ênfase em Ressonância Magnética de Medicina Interna, e mestrado em Medicina na UFRJ concluído em 2023. Tem experiência na área de Clínica Médica, Oncologia Clínica e Diagnóstico por Imagem em Tórax, Medicina Interna e Radiologia Oncologica. Pos-Graduação em curso de Inteligencia Artificial aplicada a Saúde.
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