O avanço das terapias anti-EGFR permitiu um aumento significativo da sobrevida global da população com câncer de pulmão não pequenas células (CPNPC) EGFR mutado nos últimos 15 anos. Porém, o benefício das terapias alvo está principalmente nos portadores com as mutações ditas típicas (L858R e Del19).
Pacientes portadores de mutações atípicas, responsáveis por cerca de 5 a 10% dos casos, seguem com um prognóstico mais reservado, se beneficiando menos dos TKIs em monoterapia.
Recentemente, foi publicado no Journal of Clinical Oncology dados relacionados à Coorte C do estudo CHRYSALIS-2, ao qual buscou-se avaliar os desfechos da associação de amivantanabe e lazertinibe especificamente no subgrupo atípico.

Métodos
CHRYSALIS-2 é um estudo em andamento aberto, fase 1b, multicêntrico e que avalia a combinação de amivantamabe e lazertinibe na população CPNPC com mutações EGFR. A coorte C analisada em nossa coluna é representada, até o momento da publicação, por 105 pacientes com mutações atípicas, principalmente G719X, L861X e S768X, não incluindo inserções no éxon 20. Além disso, 68% da população é asiática, com mediana de idade de 64 anos e cerca da metade era virgem de tratamento sistêmico.
Resultados
O desfecho primário é a taxa de resposta objetiva (TRO). Desfechos secundários são duração de resposta (DR), sobrevida livre de progressão (SLP) e sobrevida global (SG). A última, ainda imatura.
O estudo demonstra uma TRO de 52%, DR de 14,1 meses e SLP de 11,1 meses, com base em um seguimento mediano de 16,1 meses. Quando se analisa apenas a população virgem de tratamento, identificou-se uma TRO de 57%, DR de 20,7 meses e SLP de 19,5 meses. Os eventos adversos mais comuns são rash (67%), alterações cutâneas, reações infusionais e trombose venosa (TV; 30%). 70% da coorte necessitou de interrupção momentânea das medicações e 28% descontinuaram permanentemente.
Para refletir!
O esquema é mesmo melhor em quem nunca tratou? Se por um lado pudermos inferir que iniciar o tratamento como primeira linha parece ser mais benéfico que em linhas subsequentes pelos números apresentados, devemos ter cuidado com o viés de seleção. Afinal, não sabemos se a população já exposta a tratamento apresenta uma doença de comportamento mais agressivo, com maior volume ou se há maior necessidade de resposta. Caso lembremos se tratar de um estudo sem controle comparativo, confirmamos que não podemos fazer esta suposição.
Afatinibe, a outra opção de primeira linha: CHRYSALIS é um estudo fase 1b, sem grupo controle. Por questões estatísticas, apresenta um nível de evidência inferior. Por outro lado, o dado que justifica a incorporação de afatinibe, um TKI anti-EGFR de segunda geração, como primeira linha atual para a população EGFR atípica, advém de uma análise post hoc prospectiva com n bastante reduzido (38). Neste estudo, afatinibe demonstrou uma SLP de 10,7 meses. Devemos considerar, portanto, a limitação global de evidência ao determinar a análise de melhor opção neste momento. Afinal, é uma apresentação de doença incomum e as terapias disponíveis ganharam espaço há menos de 10 anos.
A saga contra os eventos adversos: Não de hoje sabemos que a administração venosa de amivantamabe está longe de ser isenta de problemas. Atualmente, recomenda-se um período de anticoagulação profilático de 4 meses concomitante ao início da administração do medicamento, o que parece reduzir as taxas de TV. Ao mesmo tempo, está em fabricação a formulação subcutânea do composto, a qual promete reduzir as reações cutâneas e infusionais. Vamos aguardar esses dados.
O que levar para a prática clínica?
Amivantamabe associado a lazertinibe, neste momento, assim como afatinibe, é uma combinação adequada para tratamento de primeira linha da população EGFR mutação atípica com doença avançada.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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