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Oncologia2 março 2026

Mecanismos e tratamentos nos pacientes oncológicos com trombose venosa profunda

Entenda por que o câncer aumenta o risco de trombose e como decidir entre HBPM e DOAC no tratamento.

Trombose associada ao câncer (CAT) é aquele problema que às vezes não damos a devida importância e que pode virar um problema central. O artigo lembra um dado que todo oncologista já viu se confirmar na rotina: trombose, especialmente tromboembolismo venoso (TEV), é uma das principais causas de morte em pacientes oncológicos, atrás apenas do próprio câncer. E existe uma ironia: entre pessoas que fazem trombose, o câncer é uma das causas mais comuns de morte, mostrando como essas duas condições se alimentam.  

No consultório e no pronto atendimento isso aparece de forma muito concreta. O paciente em quimioterapia chega com falta de ar e dor torácica, que pode ser infecção, progressão, derrame pleural, mas embolia pulmonar sempre precisa estar na lista. Outro exemplo: o paciente com cateter venoso central que volta com braço inchado ou dor no pescoço. A chance de trombose de membro superior é muito maior do que na população geral. O artigo ressalta que trombose em local incomum, como membro superior, é muito mais frequente em câncer, em parte pela presença de cateter.  

E não é só TEV. O texto reforça que o câncer também se associa a trombose arterial (ATE), como infarto e AVC isquêmico, especialmente em fases de doença ativa e em certos tratamentos. Isso muda a conversa com cardiologia, neurologia e emergencistas: nem todo infarto em paciente com câncer é “só” aterosclerose clássica; às vezes é a ponta visível de um estado pró-trombótico sistêmico. 

trombose associada ao câncer

Metodologia 

Este trabalho é uma revisão narrativa publicada no Thrombosis Journal em 2025, com foco em dois grandes blocos: (1) fatores de risco e (2) mecanismos moleculares diretos e indiretos que ligam câncer a trombose, além de um panorama prático de profilaxia e tratamento (incluindo a transição histórica de heparina de baixo peso molecular para o uso crescente de DOACs em cenários selecionados).  

Por ser revisão, não é um estudo que mede um desfecho novo; ele organiza o que já existe de melhor evidência e tenta conectar fisiopatologia com decisões clínicas. O valor aqui é didático. Você termina a leitura entendendo melhor por que alguns pacientes trombosam “do nada”, por que certos tumores são particularmente trombogênicos, e por que alguns tratamentos podem propiciar o aparecimento de trombose. 

População envolvida 

Como revisão, não há uma única coorte. O artigo usa dados epidemiológicos e ensaios clínicos clássicos de trombose em câncer. Mas ele faz uma delimitação importante: CAT inclui tanto trombose venosa (TEV: TVP/TEP) quanto trombose arterial (ATE: IAM/AVC), com ênfase maior em TEV por ser mais comum.  

Ele também descreve grupos clínicos que são comuns na oncologia: 

  • Pacientes com câncer ativo, especialmente avançado/metastático. 
  • Pacientes em quimioterapia, pós-operatório oncológico e portadores de cateter venoso central. 
  • Pacientes com pior performance status e períodos de imobilidade.  

E ressalta que em parte dos casos, a trombose pode ser o primeiro sinal de um câncer oculto. O texto cita que em torno de 10% dos pacientes com TEV não provocado podem acabar tendo um câncer diagnosticado posteriormente, o que justifica uma investigação clínica direcionada (sem “caça ao tesouro” indiscriminada). 

Resultados 

a) Quanto o câncer aumenta o risco?

Pacientes com câncer têm um risco 4 a 7 vezes maior de TEV comparado a pessoas sem câncer. Ele cita dados do Reino Unido com incidência de 13,9 por 1.000 pessoas/ano e um risco substancialmente maior em relação a indivíduos sem malignidade.  

Para ATE, os dados são menos abundantes, mas a associação é consistente: um estudo citado encontrou ATE em 4,7% dos pacientes com câncer em 6 meses, versus 2,2% em indivíduos sem câncer.  

b) Fatores de risco: o tripé paciente – tumor – tratamento

 A revisão organiza o risco em três fatores, o que é extremamente útil para a prática. 

  • Fatores do paciente. Idade: idosos com câncer trombosam mais, e o artigo lembra que, em geral, a incidência de TEV sobe muito com a idade. Comorbidades como insuficiência renal, doença pulmonar e infecções agudas também elevam risco. Entram ainda trombofilias e fatores genéticos (como fator V Leiden em alguns contextos) e fatores cardiovasculares para ATE (tabagismo, hipertensão, história de doença cardiovascular).  
  • Fatores do câncer. Tipo de tumor importa. A revisão cita maior risco em câncer de pâncreas, além de pulmão, rim, estômago e outros. Estágio importa ainda mais: em um estudo populacional dinamarquês citado, o risco de trombose cresce de 2,9 no estágio I para 17,1 no estágio IV. Esse número reflete com o que vemos: quanto maior a carga tumoral e inflamação sistêmica, mais o paciente entra num estado pró-trombótico.  
  • Fatores do tratamento. Cirurgia oncológica aumenta o risco de TEV; quimioterapia é um gatilho forte (o artigo cita aumento de risco de TEV em torno de 6 a 7 vezes em alguns cenários). Drogas específicas entram no risco: cisplatina (lesão endotelial e pró-coagulação), L-asparaginase (queda de antitrombina), IMiDs (talidomida/lenalidomida/pomalidomida, especialmente com corticoide), tamoxifeno e até antiangiogênicos como bevacizumabe, mais associados a eventos arteriais em alguns estudos.  

c) Mecanismos: por que o câncer propicia o aparecimento de trombose?

O artigo faz uma boa ponte entre fisiopatologia e clínica. Ele divide em mecanismos diretos e indiretos. 

Diretos: a célula tumoral pode expressar fator tecidual (TF), que aciona a via extrínseca da coagulação e favorece geração de trombina. Além disso, tumores liberam micropartículas pró-coagulantes; podem expressar podoplanina que ativa plaquetas via CLEC-2; liberam agonistas como ADP e trombina que amplificam ativação plaquetária; aumentam inibidores de fibrinólise como PAI-1. A mensagem clínica é que o tumor não é um “passageiro”; ele participa ativamente da formação do trombo.  

Indiretos: o câncer altera o hospedeiro. Citocinas inflamatórias (TNF-α, IL-1β) aumentam TF e vWF no endotélio, reduzem trombomodulina e atrapalham a fibrinólise. Há maior expressão de moléculas de adesão (E-selectina, P-selectina), facilitando interação tumor-plaqueta-endotélio. Entram as NETs (armadilhas extracelulares de neutrófilos), que aumentam a estabilidade do trombo. E a hipóxia tumoral contribui para disfunção endotelial e ativação plaquetária. Clinicamente, isso explica por que o paciente com câncer avançado pode trombosar mesmo sem cateter, mesmo sem cirurgia e mesmo com plaquetas “normais”: o sistema inteiro foi deslocado para um estado pró-trombótico.  

d) Profilaxia e tratamento: do “tudo com heparina” ao decidir caso a caso

Na profilaxia, a revisão faz um ponto importante: prolongar a profilaxia além de 4 semanas nem sempre ajuda. Uma meta-análise citada (3.655 pacientes) mostrou que estender profilaxia não reduziu VTE de forma relevante, mas dobrou sangramento clinicamente importante. 

No pós-operatório oncológico, o texto relembra que TEV pode ser muito frequente (cita até 40% em algumas séries antigas) e traz evidência de que profilaxia estendida por 4 semanas com enoxaparina ou dalteparina reduziu VTE em comparação com 1 semana, sem aumento claro de sangramento nos ensaios citados. É aquela situação em que estender faz sentido, porque o risco pós-operatório em câncer é prolongado.  

No tratamento de TEV associado ao câncer, o artigo descreve a virada dos últimos anos: os DOACs (inibidores do fator Xa) passaram a competir com a heparina de baixo peso molecular. Ele cita o estudo CARAVAGGIO (apixabana vs dalteparina) com recorrência de VTE semelhante/menor e sangramento mais grave semelhante; o estudo com edoxabana com menor recorrência às custas de mais sangramento maior; e o SELECT-D (rivaroxabana) com menor recorrência, mas com sangramento clinicamente relevante igual, especialmente em tumores GI superiores.  

A leitura prática é que os DOACs são ótimos em muitos pacientes, mas o sítio do tumor e o risco de sangramento gastrointestinal mudam completamente a escolha.  

Por fim, o artigo revisita ferramentas de estratificação de risco, destacando o escore de Khorana (tipo de câncer, leucócitos, plaquetas, hemoglobina e IMC) e versões ampliadas como o Vienna (inclui D-dímero e P-selectina) e PROTECHT (inclui platina/gemcitabina).  

Mensagem Prática 

  • Pense em trombose como parte do cuidado oncológico, não como complicação rara. Dor em panturrilha, dispneia súbita, taquicardia sem explicação, edema de membro superior com cateter: no paciente com em câncer, isso tem outro peso. 

 

  • Risco é soma de fatores: paciente (idade/comorbidades), tumor (tipo/estágio) e tratamento (cirurgia, quimio, cateter, drogas específicas). Se dois ou três fatores estão presentes, o limiar para suspeitar e prevenir deve ser mais baixo.

 

  • Profilaxia precisa ser racional: estender anticoagulação “só por estender” pode aumentar sangramento sem reduzir eventos; já em pós-operatório oncológico selecionado, profilaxia estendida pode fazer diferença.

 

  • Tratamento com DOAC é uma excelente ferramenta, mas não é para todo mundo: em tumores gastrointestinais com mucosa frágil, lesão tumoral ativa ou sangramento prévio, heparina de baixo peso molecular ainda pode ser a escolha mais segura.

 

  • Estratificação de risco não é trabalho a mais no ambulatório, é triagem clínica: Khorana e hemograma antes de quimioterapia ajudam a identificar quem merece vigilância mais estreita e, em alguns casos, profilaxia.

Autoria

Foto de Gabriel Madeira Werberich

Gabriel Madeira Werberich

Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Residência de Clínica Médica pela UERJ/Hospital Universitário Pedro Ernesto(HUPE)/Policlínica Piquet Carneiro(PPC). Residência Medica em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fellowship (R4) de Oncologia Clínica no Hospital Sírio Libanês (2016). Concluiu a residência médica de Radiologia e Diagnóstico por Imagem no HUCFF-UFRJ e R4 de Radiologia do Centro de Imagem do Copa Dor, com ênfase em Ressonância Magnética de Medicina Interna, e mestrado em Medicina na UFRJ concluído em 2023. Tem experiência na área de Clínica Médica, Oncologia Clínica e Diagnóstico por Imagem em Tórax, Medicina Interna e Radiologia Oncologica. Pos-Graduação em curso de Inteligencia Artificial aplicada a Saúde.

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Referências bibliográficas

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