São estimados, aproximadamente, seis milhões de casos de câncer de colo uterino no mundo segundo dados recentes da Agência Internacional para Pesquisa contra o Câncer e Organização Mundial da Saúde (OMS) com previsão de três milhões de morte por esta doença.
Cerca de 1.5 bilhões de mulheres nunca realizaram um exame de rastreamento. O rastreio é fundamental para detecção precoce das lesões HPV (Papiloma vírus humano) induzidas e seu tratamento oportuno.
Apesar de países de alta renda já terem implementado programas de rastreamento, ainda se observam disparidades em subgrupos específicos da população. Assim, vários estudos têm implementado intervenções para aumentar a cobertura do rastreamento. Duas outras revisões já confirmaram que as estratégias de educação em saúde melhoram as taxas de rastreamento do câncer de colo uterino.
O uso expandido das tecnologias eletrônicas em produtos médicos, negócios e cuidados de saúde tem ampliado as aplicações da informação e serviços de saúde. Além disso, as pacientes acham que essas iniciativas do meio digital são úteis e aceitáveis.
Muitos países desenvolvidos já usam intervenções eletrônicas como estratégias educacionais para promover o rastreamento do câncer de colo uterino numa população mais abrangente. Essas estratégias podem ajudar a OMS a alcançar a meta de vacinação de 90% das meninas, rastreamento de 70% das mulheres com 30 anos e tratamento de 90% das mulheres com lesões precursoras.
Exemplos de intervenções eletrônicas em saúde incluem táticas baseadas na internet, e-mails, aplicativos de celulares, telefonemas, mensagens de texto, jogos digitais, dispositivos para monitoramento de saúde e telemedicina. Essas intervenções têm um papel significativo na melhoria das taxas de rastreamento do câncer cervical. No entanto, pesquisas para avaliar sua eficácia são necessárias para prover evidências consistentes.
Veja mais: Novas recomendações para rastreamento para o câncer de colo de útero e vacinação contra o HPV
Revisão Sistemática
Em outubro de 2024, foi publicada uma revisão sistemática e metanálise na Journal of Medical Internet Research para comparar a efetividade das intervenções eletrônicas em saúde com intervenções não eletrônicas em termos de taxas de rastreamento do câncer cervical. Para tal foram analisados ensaios clínicos randomizados.
Mulheres com 18 anos ou mais recebendo rastreio de câncer cervical foram incluídas. As intervenções eletrônicas foram comparadas a qualquer intervenção não eletrônica. As intervenções eletrônicas em saúde foram definidas como todas as estratégias orientadas à paciente incluindo, mas não limitadas, a mensagens de texto, vídeos, aplicativos, interações de voz, websites e podcasts.
O principal desfecho analisado foi a taxa de rastreamento do câncer de colo uterino. As intervenções foram conduzidas por pesquisadores universitários, iniciativas governamentais e comerciais ou por departamentos de cuidados de saúde.
Foram selecionados 14 artigos representando 23.102 pacientes. Um total de 11 estudos reportaram os resultados com análise por intenção de tratar e os resultados indicaram que as intervenções eletrônicas melhoram as taxas de rastreamento (Risco relativo 1.38 IC 95% 1.21-1.57 p<0.001). Os achados de análise por protocolo foram vistos em 12 artigos. A taxa de rastreamento do grupo intervenção foi de 44% e no grupo controle de 29%. Após remover estudos com alta chance de viés, encontrou-se um risco relativo de 1.93 (IC 95% 1.64-2.27). Os resultados foram semelhantes nas análises por intenção de tratar e por protocolo o que mostra a efetividade das intervenções em melhorar as taxas de rastreamento.
A análise de subgrupos não mostrou diferença nas taxas de rastreamento para as mulheres já com diagnóstico de HPV, porém mostrou ser mais efetiva em população de baixa e média rendas.
O presente estudo mostrou que, independentemente da intervenção, as intervenções eletrônicas podem melhorar as taxas de rastreamento. O maior benefício foi observado com uso de telefonemas (RR 1.82 IC 95% 1.40-2.38). Um porto importante é que ligações de telefone são intervenções custo efetivas. A interação direta proporciona uma resposta imediata e valida a importância dessa comunicação.
Resumo e mensagem prática
A popularidade dos dispositivos eletrônicos tem aumentado em paralelo com os avanços tecnológicos. As intervenções eletrônicas em saúde podem impactar significativamente as taxas de rastreio do câncer cervical que é um importante problema de saúde pública global com grande impacto na morbimortalidade de milhões de mulheres. Análises futuras de custo-efetividade devem ser conduzidas para melhor esclarecer a possibilidade do uso em larga escala das intervenções eletrônicas em saúde.
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