A neutropenia permanece entre as principais toxicidades dos tratamentos oncológicos convencionais, em especial da quimioterapia. Com o objetivo de mitigar principalmente suas complicações, como a neutropenia febril, fatores estimuladores de colônia hematopoética (G-CSFs) são usados com o objetivo de reduzir duração e gravidade do quadro.
Desde a publicação das primeiras recomendações da American Society of Clinical Oncology (ASCO) em 1994, o uso desses agentes vem sendo periodicamente reavaliado à luz de novas evidências. Recentemente, foi divulgada uma nova revisão. Dentre os destaques, há a introdução de novos agentes, biossimilares e atualização das indicações de profilaxia.
Vamos aos dados!

Métodos
O guideline foi desenvolvido a partir de uma revisão da literatura sobre o tema publicada entre 2014 e 2025, conduzida por um painel multidisciplinar de especialistas convocado pela ASCO. Foram pesquisadas as bases PubMed e Cochrane Library para identificar ensaios clínicos randomizados (RCTs), revisões sistemáticas e meta-análises.
Os estudos elegíveis incluíram adultos com tumores sólidos ou neoplasias hematológicas submetidos a terapia antineoplásica sistêmica. Os principais desfechos avaliados incluíram eventos relacionados à neutropenia, eventos adversos e mobilização de células-tronco.
De 414 publicações triadas, 49 estudos preencheram os critérios de inclusão, compreendendo 33 ensaios clínicos randomizados e 16 revisões sistemáticas, que constituíram a base de evidência das recomendações atualizadas.
Principais Pontos
Profilaxia primária de neutropenia febril
O guideline recomenda profilaxia primária com G-CSF quando o risco de neutropenia induzida pelo regime quimioterápico é ≥20%, desde que não exista alternativa terapêutica com eficácia semelhante e menor risco hematológico. Em regimes com risco <20%, o uso profilático pode ser considerado em pacientes com alto risco de complicações. O julgamento de fatores que caracterizem alto risco ainda se mostrou controverso, com ausência de algoritmos específicos validados. O grupo recomenda a avaliação de fatores individuais como idade avançada, comorbidades, neutropenia prévia ou mielopatia de base.
A profilaxia antibiótica pode ser considerada como alternativa na indisponibilidade de G-CSFs; Contudo, essa estratégia é menos desejável devido ao risco de resistência antimicrobiana.
Profilaxia secundária
A profilaxia secundária com CSF é recomendada em pacientes que apresentaram neutropenia em ciclo prévio de tratamento e nos quais redução de dose ou atraso do tratamento poderia comprometer a eficácia da propedêutica. Em cenários onde a manutenção da intensidade de dose não é essencial, a redução ou atraso da quimioterapia permanece uma possibilidade.
Tratamento da neutropenia febril
O uso rotineiro de G-CSF não é recomendado em pacientes com neutropenia afebril. Da mesma forma, em pacientes com neutropenia febril, a administração rotineira de G-CSF associada à antibioticoterapia não é indicada, pois não demonstrou benefício em mortalidade, embora possa reduzir a duração da neutropenia e da hospitalização.
O uso pode ser considerado em pacientes com alto risco de evolução clínica desfavorável. Neste caso, cita-se como situações de risco sepse, neutropenia profunda e hospitalização no momento do diagnóstico da febre.
Escolha do agente e administração
Filgrastim, pegfilgrastim e eflapegrastim apresentam eficácia e segurança comparáveis, sendo a escolha baseada em fatores como custo, conveniência e disponibilidade e contexto do sistema de saúde.
Em geral, os G-CSF devem ser iniciados 24–72 horas após a quimioterapia. O guideline não cita tempo de tratamento ideal. Porém, afirma que regimes mais curtos ou doses reduzidas podem ser considerados sem comprometer a eficácia.
Autoria

Thiago Branco
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com residência médica em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro titular da Sociedade Clínica de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Torácica (GBOT). Além da atuação na Afya, também é pesquisador em Oncologia Torácica, Oncologista na empresa Américas Oncologia e no serviço público.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.