Logotipo Afya
Anúncio
Oncologia26 fevereiro 2026

Como manejar os efeitos adversos da imunoterapia no tratamento oncológico?

Imunoterapia com inibidores de checkpoint (anti-PD-1, anti-PD-L1 e anti-CTLA-4) mudou o prognóstico de vários tumores avançados e, cada vez mais, vem entrando em cenários neoadjuvantes e adjuvantes. Só que o custo é um tipo de toxicidade diferente do que fomos treinados a reconhecer na quimioterapia: os eventos adversos imuno-relacionados (irAEs). 

O problema é que irAE não se comporta como náusea de platina ou mucosite de 5-FU. Ele pode aparecer cedo ou tarde, pode envolver um órgão ou vários, pode melhorar e voltar quando você reduz o corticoide, e pode surgir meses depois de parar o tratamento. Na prática, isso bagunça o fluxo normal do consultório: o paciente liga por causa de “cansaço”, “diarreia leve”, “falta de ar”, “coceira”, e você precisa decidir rápido se é virose, progressão tumoral, tromboembolismo, efeito da radioterapia, ou início de irAE. 

A revisão chama atenção para um ponto bem real do dia a dia: o oncologista é quem prescreve a imunoterapia, mas muitas vezes não recebeu treinamento estruturado para lidar com o manejo do irAE. Aí acontece um cenário comum: o paciente transita por vários especialistas, cada um olhando o seu órgão, sem alguém amarrando a linha do tempo da imunoterapia, o risco de reexposição, o impacto da suspensão e a estratégia de retorno. O artigo defende que esse vácuo de liderança vira atraso diagnóstico, condutas fragmentadas e, no fim, piora qualidade de vida e continuidade do tratamento. 

Metodologia 

Não é um ensaio clínico, e sim uma revisão narrativa com busca estruturada, com foco em epidemiologia, evolução clínica, manejo e lacunas educacionais. Ela organiza a discussão em três eixos: 

  • Como os irAEs se apresentam e com que frequência (incluindo diferenças por classe de droga e combinação). 
  • Como esses eventos evoluem ao longo do tempo, trazendo conceitos que a prática está forçando a enxergar melhor: toxicidades crônicas, tardias e multissistêmicas. 
  • Como se maneja hoje (corticoide, escalonamento e segunda linha), e onde as diretrizes deixam buracos, especialmente para casos que não cabem na fase aguda 

População envolvida 

Como é uma revisão, não existe uma população única de pacientes. A revisão trabalha com dados de múltiplos tumores e grandes coortes/ensaios para extrair padrões práticos. O que importa para você, na beira do leito, é que os números apresentados refletem o mundo real da imunoterapia moderna: 

  • Monoterapia anti-PD-(L)1 em tumores comuns (pulmão, rim, bexiga, melanoma etc.). 
  • Anti-CTLA-4 (clássico: ipilimumabe), com toxicidade mais intensa. 
  • Combinações (anti-PD-1 + anti-CTLA-4), onde a toxicidade sobe de patamar e costuma vir mais cedo.  

O texto também destaca dois grupos “difíceis” e muito presentes no consultório: idosos e pacientes com doença autoimune prévia, que quase sempre são sub-representados nos ensaios e aparecem de verdade na vida real. 

Resultados 

Frequência e gravidade: a classe do remédio muda tudo 

A revisão resume bem a ideia do que todo residente aprende no dia a dia: CTLA-4 é mais tóxico do que PD-1/PD-L1, e combinação é a campeã de toxicidade. 

Anti-CTLA-4 pode ter incidência global de irAE até ~60%, com 10%–30% de eventos grau ≥3; em adjuvância em dose alta, o grau ≥3 pode passar de 50%. 

Anti-PD-1 costuma ter irAE em 5%-20%, com grau ≥3 em torno de 10%, frequentemente endocrinopatias, pneumonite, hepatite e pele. 

Combinação PD-1 + CTLA-4 tem grau ≥3 para mais de 50%, muitas vezes nas fases iniciais.  

Tempo de início: “não é só nas primeiras semanas 

O artigo reforça que irAE pode ocorrer durante ou após o tratamento. Pele e TGI tendem a aparecer mais cedo; pulmão, fígado e neuro podem surgir mais tarde e até recidivar depois de aparente melhora. Isso casa com o que todo oncologista já viu: o paciente está bem, você reduz prednisona, e na semana seguinte a diarreia volta, ou a falta de ar reaparece.  

Mortalidade: rara, mas quando acontece é rápida  

Os autores lembram que fatalidade por irAE é incomum, mas real: 0,3%-2% no geral. Eles citam taxas específicas: cerca de 0,4% com PD-1 e 1,2% com combinação PD-1/PD-L1 + CTLA-4. O perfil das mortes também muda: CTLA-4 mata mais por colite (chegando a 70% dos óbitos atribuídos), enquanto PD-(L)1 se associa mais a pneumonite, hepatite e neurotoxicidade. Na combinação, aparecem colite e miocardite com destaque; e miocardite tem mortalidade altíssima (o artigo cita 39,7%).  

Na prática, isso se traduz numa regra simples: miocardite e síndrome neuro-muscular (miastenia, miosite) não dão margem para “observar mais um pouco”. Se você suspeitou, faça avaliação precoce, internação e pulso de corticoide quando indicado. 

O novo “normal”: irAE crônico, tardio e multissistêmico 

Aqui o artigo entrega o que mais interessa para quem acompanha paciente por meses: 

Multissistêmico: pode acontecer em 5%-9% com PD-(L)1 isolado e subir para 16%-40% em combinações. Isso explica aquele paciente que começa com rash, depois aparece com tireoidite, depois artralgia, e quando você está reduzindo corticoide surge colite.  

Crônico: definido como irAE que persiste por mais de 3 meses após interromper o ICI. A revisão traz um dado que assusta quando você pensa em cenário adjuvante: em uma coorte de melanoma adjuvante com anti-PD-1, 43% desenvolveram irAE crônico (a maioria leve), e em seguimento mediano de 35 meses, 65% ainda tinham o evento em curso.  

Tardio : irAE que surge >3 meses após parar imunoterapia. No CheckMate 238, os autores citam incidência de 4%-6%, com eventos grau ≥3 em 1%-2%, mais frequentemente colite, pneumonite e rash. Ou seja, mesmo depois que o paciente “recebe alta” do tratamento, ainda existe risco que precisa ser explicado e vigiado.  

Manejo: parece simples, o detalhe é difícil 

A revisão reafirma o básico, com doses claras: corticoide é primeira linha, geralmente prednisona/prednisolona 0,5-2 mg/kg, com retirada lenta ao longo de semanas. Em casos graves, hospitalização e pulso de metilprednisolona podem ser necessários. Se não melhora em 48-72 horas, entra o tratamento de segunda linha (infliximabe ou vedolizumabe para colite; micofenolato em hepatite/renal/pulmão; tocilizumabe em alguns quadros inflamatórios; IVIG/rituximabe em síndromes neurológicas/hematológicas).  

O ponto crítico do artigo é reconhecer que diretriz costuma ser boa para o agudo, mas fraca para o crônico/tardio/multissistêmico. E aí o serviço precisa ter protocolos bem estabelecidos. 

Mensagem Prática 

  1. Pense em toxicidade aguda, maslembre-seda crônica. Qualquer sintoma novo em paciente em ICI (ou que usou ICI há meses) merece essa pergunta na cabeça: “isso pode ser imune?”. Isso reduz atrasos e evita antibiótico sem alvo por “pneumonia” que era pneumonite. 
  1. Monte um fluxo do seu serviço. Por exemplo, se toxicidade grau ≥2 ou suspeita de múltiplos órgãos → aciona time multidisciplinar; grau 1 → segue com vigilância; grau 2 → segura ICI e começa corticoide; grau ≥3 → interna, dose alta, e planeja escalonamento se refratário. 
  1. Educação do paciente é parte do tratamento. Se o paciente não entende que diarreia persistente, falta de ar, icterícia, cefaleia diferente, visão turva ou palpitações podem ser urgência, ele chega tarde.
  1. Treinamento do oncologista. Treinar reconhecimento e diferencial, treinar estratégia de corticoide e escalonamento, treinar comunicação com especialidades, e treinar seguimento de longo prazo. Isso é o tipo de coisa que reduz internações, evita suspensão desnecessária e, principalmente, dá segurança para decidir quando reintroduzir imunoterapia e quando não reintroduzir.

Autoria

Foto de Gabriel Madeira Werberich

Gabriel Madeira Werberich

Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Residência de Clínica Médica pela UERJ/Hospital Universitário Pedro Ernesto(HUPE)/Policlínica Piquet Carneiro(PPC). Residência Medica em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fellowship (R4) de Oncologia Clínica no Hospital Sírio Libanês (2016). Concluiu a residência médica de Radiologia e Diagnóstico por Imagem no HUCFF-UFRJ e R4 de Radiologia do Centro de Imagem do Copa Dor, com ênfase em Ressonância Magnética de Medicina Interna, e mestrado em Medicina na UFRJ concluído em 2023. Tem experiência na área de Clínica Médica, Oncologia Clínica e Diagnóstico por Imagem em Tórax, Medicina Interna e Radiologia Oncologica. Pos-Graduação em curso de Inteligencia Artificial aplicada a Saúde.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Oncologia