Imunoterapia no câncer de mama já deixou de ser curiosidade, principalmente no triplo-negativo (TNBC). Mesmo assim, na prática diária, a sensação é de que ainda estamos pescando resposta em um oceano grande, porque sabemos que alguns pacientes têm benefícios claros, mas muitos não respondem ou respondem pouco. O artigo revisa uma peça que pode ajudar a entender por que, e, mais importante, como tentar mudar esse cenário: a via cGAS-STING, um mecanismo de alarme do organismo para DNA “fora do lugar”, que conecta imunidade inata com imunidade adaptativa.
Sabemos que o DNA deveria ficar confinado no núcleo celular. Quando aparece DNA solto no citoplasma, isso é tratado como sinal de invasão ou dano grave. A cGAS funciona como o sensor que percebe esse DNA “extraviado” e aciona a STING, que dispara uma cadeia de mensagens inflamatórias, recrutando e treinando o sistema imune a reconhecer o tumor.
O problema é que esse alarme pode ajudar ou atrapalhar. Em alguns contextos, ele aumenta apresentação de antígeno, melhora infiltração de linfócitos e favorece resposta a bloqueadores de checkpoint. Em outros, vira inflamação crônica que alimenta o tumor, favorece metástase e resistência, por exemplo via IL-6/STAT3 ou aumento de PD-L1. Essa “faca de dois gumes” é o centro da discussão

Metodologia
Este trabalho é uma revisão narrativa publicada na Frontiers in Immunology, com foco em integrar biologia básica, achados pré-clínicos e sinais iniciais de estudos clínicos. Ele não traz um ensaio original, mas faz algo muito útil, que é pegar resultados consolidados de imunoterapia em câncer de mama e conecta com mecanismos do microambiente tumoral, descrevendo onde a cGAS-STING entra como alvo terapêutico e como possível marcador biológico.
O texto estrutura o raciocínio em três blocos principais: cenário clínico atual da imunoterapia no TNBC (e tentativas em HR+ e HER2+), incluindo números de estudos pivotais; explicação da via cGAS-STING, desde a ativação até as consequências imunológicas; como modular essa via com agonistas de STING, combinações racionais (com ICIs, radioterapia, inibidores da PARP) e os obstáculos práticos de levar isso ao consultório: toxicidade, entrega do fármaco no tumor e falta de biomarcadores confiáveis.
População envolvida
Como é revisão, a população é a soma das populações dos estudos discutidos. O foco clínico maior está em TNBC, tanto no cenário metastático quanto no início (neoadjuvância). Em TNBC metastático, o artigo reforça o padrão atual, que é anti-PD-1/PD-L1 com quimioterapia para tumores PD-L1 positivos (CPS ≥10), e lembra como a inconsistência entre testes e plataformas de PD-L1 atrapalha a vida real.
Também aparece a extensão da discussão para: RH+ (luminal), onde a imunogenicidade é menor e o microambiente tende a ser mais “fechado” para linfócitos, com mais fibroblastos associados ao câncer; HER2+, com interesse crescente em combinações de ADCs com imunoterapia.
Do lado da biologia, o artigo descreve o microambiente como um ecossistema com macrófagos associados ao tumor (TAMs), fibroblastos (CAFs), MDSCs, lactato e alterações metabólicas, tudo isso modulando resposta imune. A via cGAS-STING é apresentada como um ponto de controle desse ecossistema, podendo empurrar o tumor para um estado mais “inflamado” e responsivo, ou para inflamação improdutiva e pró-tumoral.
Resultados
(A) O que a prática já mostrou com imunoterapia no TNBC
A revisão relembra números que todo oncologista acaba decorando porque eles sustentam a mudança de padrão. No KEYNOTE-355, pembrolizumabe com quimioterapia em primeira linha de TNBC metastático melhora PFS com HR 0,65 e mediana de PFS 9,7 vs 5,6 meses. No IMpassion130, atezolizumabe com nab-paclitaxel mostrou ganho de OS na população PD-L1 positiva, com mediana 25,4 vs 17,9 meses e HR 0,67, mas a história ficou mais confusa depois, com o IMpassion131 negativo.
Na doença inicial, o KEYNOTE-522 é citado como divisor de águas: aumento absoluto de pCR de 13,6 pontos percentuais (aprox. 64,8% vs 51,2%) com pembrolizumabe + quimioterapia, e o detalhe clínico relevante é que o benefício apareceu mesmo sem depender de PD-L1. A revisão também chama atenção para análises por carga residual (RCB), mostrando que o impacto em EFS pode ser relevante mesmo em quem não zera a doença, o que vai de encontro com a frustração comum do consultório: “não fez pCR, mas isso significa que não adiantou?”. Nem sempre.
(B) Onde a cGAS-STING entra: o alarme que pode ajudar ou atrapalhar
O artigo descreve a via com boa didática: cGAS reconhece DNA dupla fita no citoplasma e produz cGAMP, um mensageiro; STING (na membrana do retículo endoplasmático) liga o sinal e migra para o Golgi, recrutando TBK1, ativando IRF3 e também NF-κB, levando à produção de interferon tipo I e citocinas inflamatórias. O efeito é facilitar maturação de células dendríticas, apresentação de antígeno e entrada/ativação de CD8+. É o cenário que transforma tumor “frio” em tumor mais “visível” ao sistema imune.
Só que o texto insiste, com razão, que o resultado depende de duração e contexto. Em TNBC, instabilidade cromossômica pode ativar STING, mas parte dessa ativação desvia para eixos de sobrevivência tumoral, como IL-6/STAT3, e pode aumentar PD-L1, criando resistência adaptativa. Em termos clínicos, é como ligar o alarme do prédio e, junto, acionar um sistema automático que fecha as portas para a polícia entrar.
(C) Agonistas de STING: sinais iniciais e limites atuais
A revisão organiza os agonistas em três grupos e deixa claro por que ainda não é pronto para uso amplo:
- CDNs naturais (cGAMP e semelhantes): potentes no laboratório, mas com farmacocinética ruim e degradação fácil.
- CDNs sintéticos (ex.: ADU-S100/MIW815, MK-1454) são mais estáveis. Em estudo fase Ib, MIW815 + spartalizumabe foi tolerável, mas a atividade foi limitada, com ORR 10,4%, e eventos comuns como febre e dor no local da injeção.
- Pequenas moléculas não nucleotídicas (ex.: diABZI, MSA-2) tem a vantagem potencial de uso sistêmico ou até oral, mas ainda em fases iniciais e muito dependentes de estratégia de entrega da droga no alvo e combinação.
(D) Por que ainda é difícil: entrega, biomarcador e risco de inflamação ruim
Três obstáculos aparecem repetidamente:
- Entrega do fármaco no tumor: cGAMP é hidrofílico, entra mal na célula e pode ser degradado por ENPP1, que degrada o mensageiro antes dele funcionar.
- Biomarcadores fracos: não há um teste simples e validado para dizer “este paciente vai responder a agonista de STING”. A revisão sugere olhar a expressão de STING e ENPP1 e medidas de instabilidade cromossômica, mas isso ainda é caminho de pesquisa.
- Toxicidade e inflamação sistêmica: estimular STING pode elevar citocinas como IL-6 e gerar quadros inflamatórios relevantes. Isso, na prática, lembra o cuidado que já temos com toxicidades imunes, só que aqui você está aumentando muito a inflamação.
Mensagem Prática
- TNBC é o terreno mais fértil para imunoterapia, mas ainda não é imunoterapia para todos. Os números de PFS e pCR são bons, porém não há platô de cura em metastático para a maioria, e resistência continua sendo o grande problema.
- A via cGAS-STING é uma das pontes mais promissoras entre dano tumoral (quimio, rádio, instabilidade genômica) e ativação imune útil. Mas não basta “ativar o STING”. Em alguns cenários, a mesma via pode aumentar PD-L1, IL-6 e favorecer um microambiente que protege o tumor. Então, as combinações mais racionais são aquelas que já nascem com contrapesos, como STING agonista + anti-PD-1/PD-L1, e, em situações específicas, bloqueio de IL-6/STAT3 ou estratégias para reduzir ENPP1.
Hoje, agonista de STING é assunto de pesquisa, não de rotina. O clínico deve saber “o que é”, “por que faz sentido”, e “quais são os gargalos” para interpretar estudos que vão aparecer nos próximos anos. E, se participa de pesquisa clínica, vale ficar atento aos critérios de seleção e biomarcadores, porque a chance de sucesso vai depender menos do entusiasmo e mais de escolher o paciente certo, com o microambiente certo.
Autoria

Gabriel Madeira Werberich
Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Residência de Clínica Médica pela UERJ/Hospital Universitário Pedro Ernesto(HUPE)/Policlínica Piquet Carneiro(PPC). Residência Medica em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fellowship (R4) de Oncologia Clínica no Hospital Sírio Libanês (2016). Concluiu a residência médica de Radiologia e Diagnóstico por Imagem no HUCFF-UFRJ e R4 de Radiologia do Centro de Imagem do Copa Dor, com ênfase em Ressonância Magnética de Medicina Interna, e mestrado em Medicina na UFRJ concluído em 2023. Tem experiência na área de Clínica Médica, Oncologia Clínica e Diagnóstico por Imagem em Tórax, Medicina Interna e Radiologia Oncologica. Pos-Graduação em curso de Inteligencia Artificial aplicada a Saúde.
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