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Oncologia13 abril 2026

Atualização da ASCO sobre comunicação médico-paciente: o que mudou?

ASCO 2026 atualiza comunicação em oncologia. Veja como melhorar adesão, decisões e relação médico-paciente na prática clínica.
Por Lethícia Prado

A atualização de 2026 da diretriz da American Society of Clinical Oncology (ASCO) sobre comunicação entre médico e paciente em oncologia estabelece recomendações baseadas em revisão sistemática da literatura e consenso de especialistas com o objetivo de orientar a prática clínica ao longo de todo o cuidado oncológico.  

O documento reforça que a comunicação eficaz deve ser considerada parte integrante do tratamento, com impacto direto na compreensão da doença, adesão terapêutica, tomada de decisão compartilhada, satisfação do paciente, bem-estar da família e redução do estresse profissional.  

A diretriz atualiza a versão anterior publicada em 2017 e amplia seu escopo ao incluir novos temas, como telemedicina, comunicação interprofissional, manejo de limites na relação médico-paciente, discussão de custos, redução de estigma e estratégias para superar barreiras culturais e linguísticas. O foco central do documento é oferecer orientações práticas que possam ser aplicadas na rotina clínica, reconhecendo que a qualidade da comunicação influencia resultados clínicos tanto quanto intervenções diagnósticas e terapêuticas.  

atualização asco sobre comunicação médico-paciente

Metodologia 

A elaboração da diretriz seguiu metodologia formal da ASCO para desenvolvimento de recomendações clínicas. Foi realizada revisão sistemática da literatura incluindo estudos publicados entre 2016 e 2025, com busca em bases como PubMed e Cochrane Library, abrangendo revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados relacionados à comunicação em oncologia. Foram avaliados desfechos como satisfação do paciente, compreensão das informações, qualidade da relação médico-paciente, adesão ao tratamento e impacto sobre o bem-estar de pacientes, familiares e profissionais.  

Como a evidência disponível é heterogênea e limitada para algumas situações, muitas recomendações foram elaboradas por meio de consenso estruturado entre especialistas de diferentes áreas, incluindo oncologistas, profissionais de cuidados paliativos, enfermeiros, especialistas em comunicação e representantes de pacientes. O documento enfatiza que as recomendações devem ser usadas como guia para a prática clínica, sem substituir o julgamento profissional individual, e que sua implementação depende também de suporte institucional adequado.  

Como deve ser a comunicação do médico na oncologia? 

Um dos princípios fundamentais da diretriz é que a comunicação eficaz começa antes mesmo do encontro clínico. O profissional deve revisar previamente as informações do paciente, definir os objetivos da conversa e antecipar possíveis reações emocionais.  

Recomenda-se organizar o ambiente, garantir privacidade e tempo suficiente e identificar quem deve participar da discussão, incluindo familiares ou outros membros da rede de apoio quando apropriado. No início da consulta, o médico deve estabelecer uma agenda compartilhada, perguntando ao paciente quais são suas principais preocupações e explicando quais pontos precisam ser abordados.  

Esse processo ajuda a alinhar expectativas e aumenta a sensação de participação do paciente no cuidado. Durante a consulta, atitudes simples são consideradas fundamentais, como sentar-se, manter contato visual, ouvir sem interromper e demonstrar interesse genuíno pela experiência do paciente. Essas práticas favorecem a construção de confiança, elemento essencial para decisões terapêuticas complexas.  

A diretriz recomenda que as informações sejam transmitidas de forma clara, objetiva e adaptadas ao nível de compreensão do paciente. O uso de linguagem simples, sem jargões técnicos, é preferível, mesmo quando o paciente tem alto nível educacional. A informação deve ser oferecida em pequenas etapas, com pausas para verificar compreensão, utilizando estratégias como pedir ao paciente que explique com suas próprias palavras o que entendeu.  

O excesso de informação em uma única consulta pode dificultar a assimilação e aumentar a ansiedade, por isso é preferível dividir discussões complexas em mais de um encontro quando necessário. A documentação das conversas importantes no prontuário também é considerada parte essencial da boa comunicação, pois garante continuidade do cuidado e reduz inconsistências entre diferentes profissionais.  

A resposta empática às emoções do paciente é um dos pontos mais enfatizados na diretriz. O médico deve reconhecer sinais verbais e não verbais de sofrimento, nomear a emoção percebida e oferecer apoio antes de continuar a fornecer informações. Quando o paciente está muito ansioso ou triste, sua capacidade de compreender dados técnicos diminui, e insistir em explicações detalhadas pode ser contraproducente.  

Frases simples que demonstram compreensão e parceria, como reconhecer que a situação é difícil ou afirmar compromisso com o cuidado, podem fortalecer a relação terapêutica. A diretriz ressalta que a empatia não significa concordar com todas as expectativas do paciente, mas sim demonstrar respeito e disposição para compreender sua perspectiva.  

Comunicação do médico na telemedicina 

A comunicação por telemedicina é abordada como parte crescente do cuidado oncológico. O documento recomenda avaliar previamente se o paciente tem acesso à tecnologia adequada e escolher o formato mais apropriado para cada situação. Conversas simples, como esclarecimento de dúvidas ou revisão de exames sem gravidade, podem ser realizadas por telefone ou mensagem segura, enquanto discussões complexas devem preferencialmente ocorrer presencialmente ou por videoconferência.  

Quando for necessário comunicar más notícias à distância, recomenda-se que já exista vínculo prévio com o paciente e que o profissional planeje cuidadosamente a sequência das informações. Também é importante garantir privacidade, confirmar quem está presente durante a conversa e evitar gravações sem consentimento. A diretriz ressalta ainda que o aumento das consultas virtuais exige organização institucional para evitar sobrecarga do profissional e garantir resposta adequada às demandas dos pacientes.  

Comunicação com outros profissionais envolvidos no tratamento  

Outro tema central é a comunicação entre membros da equipe multiprofissional. O cuidado oncológico envolve diversos profissionais, e falhas na troca de informações podem comprometer segurança e qualidade do tratamento. A diretriz recomenda estabelecer sistemas estruturados de comunicação, reuniões regulares e documentação atualizada.  

Cada membro da equipe deve ter funções claramente definidas, e divergências de opinião devem ser discutidas de forma transparente, evitando mensagens contraditórias ao paciente. O documento também destaca a importância de ambiente de trabalho respeitoso, no qual todos os profissionais possam expressar opiniões sem receio. Após eventos emocionalmente difíceis, como complicações graves ou morte de pacientes, reuniões de discussão podem ajudar a equipe a lidar com o impacto emocional e melhorar processos de cuidado.  

Como falar do prognóstico e da terapêutica 

A discussão de prognóstico e objetivos de tratamento é considerada uma das tarefas mais complexas na oncologia. A diretriz recomenda avaliar previamente o que o paciente já sabe sobre sua doença, quanto deseja saber e quais são seus valores e prioridades. A informação deve ser honesta, mas apresentada de forma que mantenha esperança realista.  

Evitar tanto o pessimismo excessivo quanto promessas irreais é essencial para preservar a confiança. Sempre que houver mudança significativa na doença, como progressão tumoral, complicações ou necessidade de nova linha terapêutica, deve-se revisar objetivos de cuidado e preferências do paciente. A comunicação deve estimular a tomada de decisão compartilhada, com apresentação clara das opções disponíveis e das incertezas envolvidas.  

Ao discutir opções de tratamento, o médico deve explicar benefícios, riscos, efeitos adversos, impacto na qualidade de vida e necessidade de hospitalizações. O paciente deve ser informado sobre todas as alternativas, incluindo tratamento padrão, estudos clínicos e cuidados paliativos quando apropriado.  

A diretriz recomenda que o profissional enfatize que a decisão final pertence ao paciente, oferecendo tempo para reflexão e possibilidade de segunda opinião. A documentação dessas conversas é importante para garantir que o plano terapêutico esteja alinhado com os valores do paciente. A comunicação adequada nessa fase reduz conflitos e aumenta a satisfação com o cuidado, mesmo quando o prognóstico é reservado.  

A comunicação sobre cuidados de fim de vida recebe atenção especial. O documento orienta que discussões sobre planejamento antecipado não devem ser adiadas até fases muito avançadas da doença. Sempre que a condição for incurável, recomenda-se abordar preferências sobre tratamento, diretivas antecipadas e escolha de representante para decisões médicas.  

Eventos como progressão da doença, declínio funcional ou necessidade de intervenções invasivas devem servir como oportunidade para reavaliar metas de cuidado. O médico deve explicar claramente o papel dos cuidados paliativos e do hospice, enfatizando que sua introdução não significa abandono do paciente. Conversas sobre espiritualidade, valores pessoais e qualidade de vida podem ajudar a orientar decisões mais alinhadas com as preferências individuais.  

Integrando a rede de apoio do paciente 

A participação da rede de apoio é considerada essencial para o cuidado oncológico. O médico deve perguntar ao paciente quem ele deseja envolver nas discussões e respeitar suas preferências. Familiares podem ajudar na compreensão das informações, na tomada de decisões e na adesão ao tratamento.  

Em situações complexas, reuniões familiares estruturadas podem ser úteis para esclarecer dúvidas e reduzir conflitos. Quando o paciente não tem capacidade para decidir, o representante legal deve ser orientado a tomar decisões baseadas nos valores previamente expressos pelo paciente. A comunicação clara com a família pode reduzir ansiedade e melhorar a qualidade do cuidado.  

Possíveis entraves na comunicação 

A diretriz também aborda barreiras à comunicação, como diferenças de idioma, baixa alfabetização em saúde, limitações sensoriais e desigualdades sociais. Recomenda-se utilizar intérpretes profissionais, evitar linguagem técnica, usar recursos visuais e verificar frequentemente a compreensão. O profissional deve avaliar se o paciente enfrenta dificuldades financeiras e encaminhar para suporte quando necessário, pois custos elevados podem levar à interrupção do tratamento. O documento também destaca a necessidade de reconhecer preconceitos e experiências negativas prévias no sistema de saúde, adotando abordagem respeitosa e centrada no paciente.  

Outro aspecto importante e muitas vezes negligenciado por parte dos próprios profissionais de saúde é a definição de limites na relação médico-paciente. O profissional deve manter empatia, mas estabelecer fronteiras claras quando solicitações ultrapassam o âmbito adequado do cuidado.  

Situações que geram desconforto devem ser abordadas de forma firme e respeitosa. A diretriz recomenda avaliar conflitos de interesse, evitar envolvimento pessoal inadequado e buscar apoio da equipe quando necessário. A manutenção de limites saudáveis protege tanto o paciente quanto o profissional e ajuda a prevenir desgaste emocional e burnout 

O que pode ajudar? 

O documento enfatiza que habilidades de comunicação podem e devem ser ensinadas. Programas de treinamento estruturados, com simulações, observação direta e feedback, são mais eficazes do que aulas teóricas isoladas.  

Instituições de saúde devem oferecer tempo e recursos para esse treinamento, pois melhor comunicação está associada a maior satisfação do paciente e menor exaustão profissional. A diretriz também destaca que sistemas de saúde precisam valorizar a comunicação como competência clínica essencial, e não como habilidade secundária.  

Na discussão final, a diretriz ressalta que a comunicação centrada na relação deve permanecer no centro da oncologia, mesmo diante do aumento da carga administrativa, uso de prontuários eletrônicos e expansão da telemedicina. São descritos princípios universais aplicáveis a praticamente todas as interações clínicas: preparar o ambiente, definir agenda compartilhada, construir confiança e responder com empatia às emoções.  

O documento também aponta que novas tecnologias, incluindo inteligência artificial, poderão modificar a forma como médicos e pacientes se comunicam, tornando ainda mais importante preservar a dimensão humana do cuidado.  

Mensagem final 

Em síntese, a diretriz conclui que comunicação eficaz é parte fundamental do tratamento oncológico e deve ser considerada responsabilidade tanto do profissional quanto das instituições de saúde. 

Autoria

Foto de Lethícia Prado

Lethícia Prado

Médica formada pela Universidade Federal do Ceará ⦁Residência em Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado - RJ ⦁ Residência em Oncologia Clínica pelo INCA.

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