Após as apresentações dos tumores com driver de genes, é o momento de discutirmos os principais dados divulgados para a população sem driver acionável. Os estudos mais importantes foram marcados por algumas controvérsias.
Vamos aos dados!

OptiTROP-Lung05: Sacituzumabe tirumotecano associado a pembrolizumabe em primeira linha para pacientes com PD-L1 positivo
O principal destaque desse bloco foi o estudo fase III OptiTROP-Lung05 publicado simultaneamente no The Lancet, que avaliou o sacituzumab tirumotecan (sac-TMT), um novo tipo de anticorpo-droga (ADC) direcionado ao TROP2, associado ao pembrolizumabe versus pembrolizumabe isolado como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) avançado PD-L1 positivo sem alterações em EGFR ou ALK.
O estudo randomizou 413 pacientes na proporção 1:1 para receber sac-TMT (4 mg/kg a cada duas semanas) associado ao pembrolizumabe ou pembrolizumabe isoladamente. O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão (SLP). Aproximadamente 60% dos pacientes apresentavam adenocarcinoma e aproximadamente 40% tinham PD-L1 ≥50%, com grupos bem equilibrados.
A mediana de SLP também não foi atingida com a combinação e foi de 5,6 meses com pembrolizumabe (HR 0,38; IC95% 0,28–0,51). O benefício foi observado em todos os principais subgrupos avaliados. Entre pacientes com PD-L1 ≥50%, o hazard ratio foi de 0,47 (IC95% 0,29–0,77).
Nos pacientes com PD-L1 entre 1% e 49%, o benefício foi ainda mais pronunciado, com HR de 0,28 (IC95% 0,19–0,41). Além disso, a taxa de resposta foi de 70,2% contra 42,0% com pembrolizumabe isolado, uma diferença absoluta de aproximadamente 28%. Os dados de sobrevida global ainda eram imaturos, mas mostravam tendência favorável. O hazard ratio para sobrevida global foi de 0,55 (IC95% 0,36–0,85). Houve maior incidência de eventos adversos grau ≥3 no braço experimental, principalmente toxicidades hematológicas relacionadas ao ADC. Os eventos mais frequentes incluíram alopecia, estomatite e citopenias.
Comentários
Uma grande polêmica desse estudo foi o comparador utilizado. Embora imunoterapia isolada seja uma estratégia aceitável para a população com PDL1 acima de 50%, quimio-imunoterapia é a estratégia de rotina para a população com PDL1 entre 1 e 49%. Embora o esquema tenha sido positivo para ambos os subgrupos, trata-se de uma análise exploratória.
Vamos acompanhar estudos posteriores que elucidem a equidade ou superioridade do esquema experimental com a rotina atual antes de encorajar sac-TMT e pembrolizumabe como estratégia de primeira linha.
Benmelstobart associado à quimioterapia e anlotinibe em CPNPC não escamoso
Outro estudo importante foi este ensaio de fase III exclusivamente chinês que avaliou a combinação de benmelstobart, anticorpo anti-PDL1, quimioterapia e anlotinibe, inibidor multialvo de angiogênese, como tratamento de primeira linha para pacientes com CPNPC não escamoso avançado sem alterações em EGFR, ALK ou ROS1.
Os pacientes receberam indução com benmelstobart, carboplatina e pemetrexede associada a anlotinibe, seguida de manutenção com benmelstobart, pemetrexede e anlotinibe. O grupo controle recebeu tislelizumabe associado à quimioterapia, tratamento de primeira linha padrão aprovado na China. O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão.
A mediana de SLP foi de 14,42 meses no grupo benmelstobart-quimioterapia-anlotinibe versus 8,34 meses no grupo tislelizumabe-quimioterapia. Isso correspondeu a um hazard ratio de 0,67 (IC95% 0,52–0,86; p=0,0017). O benefício foi observado na maioria dos subgrupos analisados, incluindo diferentes níveis de expressão de PD-L1. Os dados de Sobrevida Global estão imaturos.
O perfil de segurança foi considerado manejável. Entre os eventos adversos mais frequentes destacaram-se anemia, neutropenia, leucopenia, elevação de enzimas hepáticas, hipertensão e proteinúria.
Comentários
Mais do que eminentemente positivo, esse estudo é interessante pela demonstração de potencial eficácia de um bloqueio angiogênico, estratégia com resultados conflitantes com outras medicações na literatura. Aguardamos dados com outras populações e maturidade de sobrevida global para considerar se Benmelstobart associado à quimioterapia e ao anlotinibe são uma estratégia de primeira linha adequada.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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