O quarto dia da ASCO 2026 foi marcada por apresentações relevantes para as neoplasias de pele e mucosas. Novo tratamento oral para melanoma uveal metastático e tratamentos adaptados para o carcinoma escamoso foram levantados, abordando novas estratégias terapêuticas em cenários com opções limitadas de tratamento.
Vamos falar dos principais momentos!

Melanoma Uveal
OptimUM-02 – Darovasertibe com crizotinibe com benefício no melanoma uveal metastático
O estudo OptimUM-02 avaliou darovasertibe, um inibidor oral de PKC, em combinação com crizotinibe como tratamento de primeira linha para pacientes com melanoma uveal metastático HLA-A*02:01 negativo. No estudo fase II/III, aberto e multicêntrico, 313 pacientes foram randomizados para receber darovasertibe associado a crizotinibe ou tratamento de escolha do investigador, que incluía nivolumabe associado a ipilimumabe (maioria dos casos), pembrolizumabe ou dacarbazina.
A análise primária demonstrou melhora significativa da sobrevida livre de progressão (SLP) com uma mediana de SLP de 6,9 meses com a combinação versus 3,1 meses no braço controle (HR 0,42; p<0,0001). Pela avaliação dos investigadores, a mediana de SLP foi de 7,6 versus 2,7 meses (HR 0,36; p<0,0001).
A taxa de resposta objetiva foi de 37,1% versus 5,8% segundo BICR e de 39,5% versus 1,9% pela avaliação dos investigadores. Os dados de sobrevida global ainda eram imaturos, embora tenha sido observada tendência favorável ao tratamento experimental. Em relação à segurança, eventos adversos relacionados ao tratamento ocorreram em 98,3% dos pacientes do braço experimental, sendo 40,6% de grau 3 ou 4. Diarreia, náusea, edema periférico e vômitos foram os eventos mais frequentes.
Comentários
Há uma grande escassez de tratamentos disponíveis com incremento significativo em sobrevida para o melanoma uveal metastático HLA-A*02:01 negativo, que corresponde a cerca de 75% dos pacientes com o diagnóstico. Tebentafusp é uma opção recentemente aprovada em primeira linha para a população HLA positiva.
Deste modo, os dados trazidos por OptimUM-02 são animadores, com um grupo controle adequado com a prática clínica atual. Infelizmente, o ganho demonstrado é às custas de uma taxa expressiva de eventos adversos que potencialmente limitarão a utilização para populações mais frágeis.
Apesar disso, frente à agressividade da doença e indisponibilidade de opções, darovasertibe associado a crizotinibe surge como uma opção de primeira linha, encorajando o aprofundamento das investigações da via PKC. Vamos aguardar a análise final de sobrevida global.
Carcinoma de células escamosas
RAMPART – Tratamento perioperatório no CEC de pele avançado
Outro destaque foi o estudo RAMPART, ensaio fase II multicêntrico de braço único que avaliou cemiplimabe neoadjuvante seguido de radioterapia definitiva adaptada à resposta em pacientes com carcinoma espinocelular cutâneo localmente avançado irressecável. Foram incluídos 34 pacientes entre 2022 e 2024. A taxa de sobrevida livre de eventos em 18 meses foi de 82% (IC95% 71-95%), enquanto a sobrevida livre de progressão em dois anos também foi de 82% (IC95% 60-93%). A sobrevida global em dois anos atingiu 88% (IC95% 65-96%).
Ao longo do tratamento, a taxa de resposta completa aumentou progressivamente, alcançando 38% na semana 78. Os autores destacaram a eficácia da estratégia combinando imunoterapia anti-PD-1 e radioterapia adaptada à resposta, embora reconheçam limitações relacionadas ao desenho de braço único e ao pequeno tamanho amostral.
Comentários
Os dados de RAMPART são provocativos, especialmente considerando o incremento da sobrevida livre de eventos em um tumor cutâneo cujo contexto de doença, irressecável, é altamente relacionada a recidiva nos primeiros 2 anos quando tratada exclusivamente com radioterapia.
A ausência de um grupo controle minimiza o potencial estatístico alcançado. Ao mesmo tempo, um tempo de seguimento curto dificulta afirmar se a recorrência fora adiada em detrimento de evitada.
Aguardamos novos estudos randomizados e maturação dos dados para considerar essa estratégia adequada e levantar novas possibilidades, como os tratamentos de conversão.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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