O segundo dia do congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica trouxe novos dados relacionados ao câncer de mama, com destaque para estratégias de tratamento adjuvante, uso de testes de expressão gênica, terapia endócrina com giredestranto e descalonamento do tratamento axilar em grupos específicos de pacientes.
Entre os temas apresentados, estiveram novas possibilidades de hormonioterapia adjuvante com giredestranto, um SERD oral, além de dados sobre testes de expressão gênica para predizer benefício de quimioterapia adjuvante. Na mastologia, a manutenção do benefício do descalonamento axilar em populações selecionadas também esteve entre os pontos discutidos.

OPTIMA avaliou teste genômico em câncer de mama inicial RH+/HER2−
O estudo OPTIMA foi apresentado no contexto dos estudos históricos de expressão gênica no câncer de mama, como TAILORx, MINDACT e RxPONDER. Trata-se de um estudo internacional randomizado de fase 3, de não inferioridade, que incluiu mulheres e homens com 40 anos ou mais, portadores de câncer de mama RH+/HER2− ressecado, com até nove linfonodos acometidos.
Foram recrutados pacientes em seis países entre janeiro de 2017 e dezembro de 2025. Após a realização do teste Prosigna, baseado em uma assinatura de 50 genes, tumores com escore de risco de recorrência (ROR) superior a 60 foram classificados como alto risco, enquanto aqueles com ROR ≤60 foram considerados de baixo risco genômico.
Pacientes classificados como alto risco receberam quimioterapia seguida de terapia endócrina. Já aqueles classificados como baixo risco receberam apenas terapia endócrina.
Ao todo, 4.429 pacientes foram randomizados: 2.215 para o braço controle e 2.214 para o braço guiado pelo teste genômico. As características basais foram equilibradas entre os grupos. A idade mediana foi de 56 anos. Aproximadamente 37% das pacientes eram pré-menopáusicas e 61% eram pós-menopáusicas. Cerca de 73% apresentavam entre um e três linfonodos acometidos, enquanto 19% tinham entre quatro e nove linfonodos positivos. O tratamento neoadjuvante não era permitido. O desfecho primário foi a sobrevida livre de câncer de mama invasivo (IBCFS).
Com seguimento mediano de quatro anos, a análise demonstrou não inferioridade da estratégia guiada pelo teste genômico. A taxa estimada de IBCFS em cinco anos foi de 91,8% no braço controle e de 90,3% no braço guiado pelo teste, com hazard ratio ajustado de 1,03 (IC de 90%: 0,85–1,25).
Na subpopulação de baixo risco genômico (ROR ≤60), a taxa de IBCFS em cinco anos foi de 94,8% no grupo controle e de 93,6% no grupo guiado pelo teste, com hazard ratio de 1,06 (IC de 90%: 0,80–1,40), correspondendo a uma diferença absoluta de 1,2%.
As análises de subgrupos não demonstraram evidência de heterogeneidade relevante do efeito da quimioterapia entre pacientes pré-menopáusicas ou entre aquelas com maior acometimento linfonodal. Entre pacientes com um a três linfonodos positivos, o hazard ratio foi de 1,11 (IC 95%: 0,76–1,64). Entre aquelas com quatro a nove linfonodos comprometidos, o hazard ratio foi de 1,19 (IC 95%: 0,62–2,29), embora o número de eventos nesse grupo tenha sido limitado.
Comentários sobre o OPTIMA
A utilização de testes de expressão gênica para auxiliar decisões terapêuticas sobre quimioterapia adjuvante em pacientes com câncer de mama RH+/HER2− inicial e alto risco clínico já está contemplada na prática clínica. No entanto, as evidências têm sido mais limitadas para a população pós-menopausa e com até três linfonodos acometidos.
O OPTIMA amplia a discussão sobre o potencial de utilização dos testes genômicos em algumas populações, particularmente em pacientes pré-menopáusicas ou com maior carga linfonodal. Apesar dos resultados favoráveis, ainda há limitações relevantes: poucos eventos, 63% das pacientes com menos de cinco anos de acompanhamento, exclusão de pacientes com menos de 40 anos e ausência de dados de custo-efetividade, que ainda deverão ser apresentados futuramente.
De modo geral, o OPTIMA agrega evidências sobre a confiabilidade do teste genômico nesse cenário, independentemente do risco clínico.
lidERA BC analisou giredestranto adjuvante por status menopausal
Outro estudo de fase 3 apresentado foi o lidERA BC, que avaliou o giredestranto, um degradador seletivo do receptor de estrogênio (SERD), como tratamento adjuvante para pacientes com câncer de mama inicial RH+/HER2−.
O estudo incluiu 4.170 pacientes com doença estágio IIA a III. As participantes foram randomizadas para receber giredestranto ou terapia endócrina padrão, composta por tamoxifeno ou inibidor da aromatase, conforme indicação clínica. Mulheres pré-menopáusicas receberam obrigatoriamente supressão ovariana.
A análise principal do estudo já havia demonstrado melhora estatisticamente significativa e clinicamente relevante da sobrevida livre de doença invasiva (iDFS) com giredestranto em apresentações anteriores, com redução de 31% no risco de recorrência à distância.
Neste congresso, foi apresentada a análise por status menopausal, na qual o benefício foi consistente nos dois grupos. Entre pacientes pré-menopáusicas, o hazard ratio para iDFS foi de 0,65. Entre as pós-menopáusicas, foi de 0,74. As taxas de iDFS em três anos foram superiores com giredestranto em ambas as populações.
O perfil de segurança foi semelhante entre os diferentes grupos. A taxa de descontinuação do tratamento observada foi menor no grupo giredestranto.
Comentários sobre o lidERA BC
O giredestranto representa uma estratégia potencialmente relevante em adesão e desfechos oncológicos. Ainda assim, o tempo de acompanhamento permanece relativamente curto, com mediana de aproximadamente 32 meses.
Uma questão importante a ser respondida é como essa medicação poderá ser integrada aos padrões terapêuticos atuais, que incluem inibidores de CDK4/6. Esses dados ainda são aguardados para melhor definição do papel do giredestranto na prática clínica.
SENOMAC discutiu omissão do esvaziamento axilar
O estudo SENOMAC esteve entre os destaques da mastologia. Trata-se de um estudo prospectivo, randomizado, de não inferioridade, que incluiu pacientes com câncer de mama invasivo clínico T1 a T3, clinicamente negativas para acometimento axilar à palpação e submetidas obrigatoriamente à ultrassonografia axilar pré-operatória.
Foram elegíveis pacientes que apresentassem uma ou duas macrometástases em linfonodos sentinela. As participantes foram randomizadas para realização ou omissão do esvaziamento axilar complementar. O objetivo primário foi a sobrevida global.
Paralelamente, o estudo incorporou avaliação de desfechos relatados pelas pacientes, incluindo qualidade de vida global, sintomas do membro superior e função física do braço, avaliados no pós-operatório precoce e após um, três e cinco anos.
Entre 2015 e 2021, foram randomizadas 2.766 pacientes. A idade mediana foi de 61 anos. A maioria apresentava tumores T1 (53,6%) ou T2 (40,6%), enquanto 5,8% tinham tumores T3. A população era predominantemente composta por tumores luminais, com 87% dos casos RH+/HER2− e 77% dos tumores classificados como grau 1 ou 2.
Após seguimento de cinco anos, a sobrevida global demonstrou a não inferioridade da omissão do ALND. A taxa de sobrevida global em cinco anos foi de 94,4% no grupo sem esvaziamento axilar e de 93,4% no grupo submetido ao procedimento, com hazard ratio de 0,89 (IC 95%: 0,67–1,17; p<0,001 para não inferioridade). A sobrevida específica por câncer de mama foi de 97,9% e 97,2%, respectivamente (HR 0,75; IC 95%: 0,45–1,27).
Após cinco anos, problemas físicos graves ou muito graves no braço foram relatados por 12,6% das pacientes submetidas ao esvaziamento axilar, em comparação com 3,6% daquelas tratadas sem o procedimento.
Comentários sobre o SENOMAC
A desintensificação do tratamento axilar tem sido uma das principais tendências no manejo cirúrgico do câncer de mama nas últimas décadas. A omissão da linfadenectomia axilar pode ser considerada em cenários selecionados, desde que a paciente seja manejada em contexto adequado de radioterapia locorregional e tratamento sistêmico adjuvante.
Alguns pontos, no entanto, ainda devem ser avaliados em novos estudos, especialmente considerando que a indicação de inibidores de PARP e inibidores de ciclina, particularmente o abemaciclibe, pode depender parcialmente de uma amostra linfonodal maior do que a obtida em cirurgias menos extensas.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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