Neoadjuvância com terapia alvo e novos tratamentos para o subtipo pequenas células ganharam espaço nesta segunda-feira
A período vespertino da ASCO 2026 foi povoado por novas e importantes evidências na Oncologia Torácica. Entre os destaques apresentados na ASCO 2026 esteve a apresentação do estudo LORIN, o qual propõe estratégia neoadjuvante para a população ALK mutada. No câncer de pulmão pequenas células, houve a descrição em estudo fase 1 da molécula ABBV-706, a qual demonstrou atividade promissora em uma população exposta previamente a ao menos duas linhas de tratamento.
Eis os destaques:

Estudo LORIN e a neoadjuvância na população ALK positiva
Conduzido em 3 centros chineses, LORIN foi um estudo de fase 2 que avaliou lorlatinibe neoadjuvante em pacientes com CPNPC estágio II e III ALK positivo. Foram incluídos 43 pacientes, dos quais 24 apresentavam doença inicialmente irressecável e uma parcela significativa de doença N3. O desfecho primário foi taxa de resposta e desfechos secundários foram sobrevida livre de eventos, sobrevida global e segurança.
Após 12 semanas de tratamento, observou-se taxa de resposta objetiva de 84%. Dos 43 pacientes, 32 foram submetidos à cirurgia, resultando em taxa de conversão cirúrgica de 75% entre os inicialmente considerados irressecáveis. O estudo atingiu seu desfecho primário, apresentando taxa de resposta patológica completa (pCR) de 46,9% e resposta patológica maior (MPR) de 81,3% na população por intenção de tratar.
Além disso, houve redução nodal patológica em 90% dos pacientes submetidos à cirurgia. Após seguimento mediano de 13 meses, três pacientes apresentaram recidiva sem metástases à distância. A taxa de sobrevida livre de eventos em um ano foi de 97,1%, enquanto as medianas de sobrevida livre de eventos e sobrevida global ainda não haviam sido alcançadas. O perfil de segurança foi considerado consistente com estudos prévios de lorlatinibe, sem novos sinais de toxicidade e sem impacto negativo sobre a realização da cirurgia.
Comentários
LORIN apresentou um dado muito positivo e relativamente esperado pela comunidade científica, considerando o benefício de lorlatinibe no cenário adjuvante, também atualizado neste congresso. De todo modo, é o primeiro dado mais robusto publicado sobre as estratégias neoadjuvantes na população ALK positiva. A estratégia de conversão, embora promissora, deve ser baseada em mais maturidade de dados, especialmente quanto a recidiva local e sobrevida livre de eventos após o término do período de adjuvância. Aguardamos dados de estudos fase 3 e mais tempo de seguimento que fomentem estas respostas.
- H2: ABBV-706 demonstra atividade promissora em câncer de pulmão de pequenas células recidivado ou refratário
O estudo de fase I apresentado na ASCO 2026 avaliou o ABBV-706, um anticorpo droga-conjugado (ADC) direcionado contra SEZ6, proteína frequentemente superexpressa no CPPC. O fármaco utiliza um payload inibidor de topoisomerase I e foi investigado tanto em monoterapia quanto em combinação com budigalimabe, um anticorpo anti-PD-1.
Até setembro de 2025, 124 pacientes com CPPC recidivado ou refratário haviam recebido ABBV-706 em monoterapia. A idade mediana foi de 64 anos e a maioria dos pacientes (65%) havia recebido pelo menos duas linhas prévias de tratamento, caracterizando uma população fortemente pré-tratada. Entre os participantes, 41 receberam a dose selecionada para fase III (1,8 mg/kg a cada três semanas), incluindo 17 pacientes tratados em segunda linha.
Entre os 17 pacientes tratados com ABBV-706 na dose de 1,8 mg/kg, a taxa de resposta objetiva (ORR) alcançou 82%, incluindo duas respostas completas (12%) e doze respostas parciais (71%). A duração mediana da resposta foi de 6,6 meses.
Os dados de sobrevida também chamaram atenção. Na população total tratada com ABBV-706 em monoterapia, a mediana de sobrevida global foi de 11,3 meses. Entre os pacientes tratados em segunda linha com a dose de 1,8 mg/kg, a mediana de sobrevida global atingiu 14,3 meses, com estimativa de sobrevida em 15 meses de 50%.
O estudo também explorou a combinação de ABBV-706 com budigalimabe. Onze pacientes receberam a associação em segunda linha. Nessa coorte, a taxa de resposta objetiva foi de 55%, composta exclusivamente por respostas parciais, enquanto a duração mediana da resposta foi de 6,7 meses.
Eventos adversos relacionados ao tratamento ocorreram em 91% dos pacientes, sendo mais frequentes as toxicidades gastrointestinais (64%) e hematológicas (64%). Eventos grau 3 ou superior foram observados em 46% dos casos, principalmente anemia (27%) e neutropenia (18%). Não ocorreram óbitos relacionados ao tratamento.
Comentários:
ABBV-706 apresentou dados surpreendentemente encorajadores em uma população exposta a tratamentos prévios com quimioimunoterapia e, parcialmente, a tarlatamabe. O tempo de duração de resposta positivo com casos de resposta completa geram otimismo para o câncer de pulmão pequenas células, doença grave e que felizmente tem sua história natural paulatinamente modificada nos últimos anos.
Vamos aguardar os dados com grupos controle em andamento para projetar o real benefício prático da medicação.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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