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Oftalmologia20 outubro 2026

Estudo analisa manifestações oculares na dengue

Metanálise investiga alterações retinianas e neuro-oftalmológicas, sua frequência e a influência do tempo de evolução da infecção.

A dengue é uma doença febril aguda que pode apresentar manifestações além do quadro clínico habitual. A síndrome da dengue expandida abrange apresentações atípicas, com comprometimento de órgãos como fígado, rins, sistema nervoso e olhos. Nesse contexto, as manifestações oculares na dengue representam complicações potencialmente associadas ao comprometimento visual. 

O dano ocular decorre da quebra da barreira hemato-ocular, impulsionada pela amplificação dependente de anticorpos, deposição de imunocomplexos, ativação do complemento e liberação de mediadores inflamatórios, além de efeito citopático viral direto, promovendo extravasamento vascular, isquemia e lesão tecidual no polo posterior e no nervo óptico. Entretanto, a frequência dessas complicações permanece pouco caracterizada na literatura. 

Para investigar essa questão, Peñaherrera-Vásquez e colaboradores publicaram, em 2026, uma revisão sistemática com metanálise na revista Tropical Medicine and Health. O objetivo foi estimar a frequência das manifestações oculares associadas à dengue expandida e avaliar sua relação com o tempo de evolução da infecção. Com isso, os pesquisadores seguiram as recomendações PRISMA e registraram o protocolo no PROSPERO. A busca contemplou seis bases de dados e reuniu oito estudos transversais hospitalares, com 1.394 pacientes com confirmação laboratorial, de cinco países (Índia, Singapura, Bangladesh, Malásia e Brasil). Em todos os estudos, o exame oftalmológico foi realizado sistematicamente em todos os pacientes internados, independentemente de queixas visuais. 

Maculopatia por dengue apresenta maior frequência após a primeira semana 

A maculopatia por dengue foi identificada em cinco estudos, envolvendo 551 participantes. A frequência combinada foi de 6% (IC 95% 3–10%), com baixa heterogeneidade entre os estudos (I² = 28,9%). 

As manifestações incluíram edema macular cistoide, espessamento retiniano, foveolite, maculopatia hemorrágica e pontos amarelados sub-retinianos. 

Na análise temporal, a frequência combinada de maculopatia subiu de 5% (IC 95% 5–6%; 2 estudos, n = 240) nos pacientes avaliados antes do sétimo dia de sintomas para 10% (IC 95% 9,3–10,2%; 2 estudos, n = 193) naqueles avaliados a partir desse período. A diferença entre os subgrupos foi estatisticamente significativa (p < 0,01). 

Esse aumento a partir do sétimo dia coincide com a fase de recuperação sistêmica e com o pico de produção de anticorpos e deposição de imunocomplexos, embora a confirmação definitiva da origem imunomediada exigisse a dosagem direta de mediadores inflamatórios nos fluidos intraoculares. Ademais, como cada subgrupo temporal contou com apenas dois estudos, a comparação é considerada geradora de hipóteses, sem poder estatístico para isolar o efeito do tempo de outros fatores confundidores, como sorotipo viral ou sensibilidade diagnóstica. 

A certeza da evidência para maculopatia foi classificada como baixa pelo método GRADE. 

Qual a frequência da hemorragia retiniana na dengue expandida? 

A hemorragia retiniana de origem vasculopática, caracterizada por hemorragias em chama de vela, em ponto e mancha (dot-blot) ou pré-retinianas no polo posterior, apresentou frequência combinada de 8% (IC 95% 3–14%), considerando cinco estudos (489 participantes). A heterogeneidade foi moderada (I² = 55,9%), indicando diferenças relevantes entre os resultados dos trabalhos incluídos. 

Na análise temporal, a frequência estimada foi de 9% antes do sétimo dia e de 6% após esse período. Entretanto, a diferença entre os subgrupos não alcançou significância estatística. 

A revisão distinguiu as hemorragias retinianas de origem vasculopática das manifestações hemorrágicas associadas exclusivamente à trombocitopenia, como determinadas hemorragias petequiais periféricas.  Essa diferenciação é importante porque a investigação concentrou-se nas manifestações consideradas compatíveis com a síndrome da dengue expandida, e não em todos os achados oculares da infecção. 

A certeza da evidência para hemorragia retiniana foi classificada como muito baixa, principalmente pelo risco de viés e pela inconsistência dos resultados. 

 

Saiba mais: Dengue: apresentação clínica da doença 

Avalie a neuropatia óptica com atenção ao método diagnóstico 

A neuropatia óptica apresentou grande variação de frequência entre os três estudos que avaliaram esse desfecho. As pesquisas que utilizaram campimetria computadorizada identificaram acometimento em 4,2% e 8,4% dos pacientes. Em contraste, o estudo baseado em avaliação estrutural encontrou frequência de 0,1%. Esses resultados sugerem que diferenças na sensibilidade dos métodos diagnósticos podem influenciar a identificação das alterações neuro-oftalmológicas. 

Entretanto, a heterogeneidade dos protocolos e das populações impede atribuir toda a diferença ao método utilizado. A revisão também identificou vasculite retiniana, com frequências individuais entre 0,5% e 8,4%, além de uveíte, relatada em 1% dos pacientes de um estudo.  A quantidade limitada de pesquisas não permitiu estabelecer estimativas combinadas confiáveis para essas manifestações. 

Complicações oftalmológicas da dengue variam entre estudos 

A metanálise reuniu oito estudos transversais hospitalares, totalizando 1.394 pacientes de cinco países, incluindo o Brasil. 

A avaliação metodológica utilizou o instrumento do Joanna Briggs Institute (JBI). Seis dos oito estudos apresentaram alto risco de viés no domínio relacionado ao tamanho amostral, principalmente pela ausência de cálculos formais. Além disso, dois trabalhos apresentaram viés na cobertura da amostra. Apenas dois trabalhos apresentaram baixo risco de viés simultâneo em ambos os domínios críticos. 

Outras limitações incluíram diferenças nos protocolos diagnósticos, heterogeneidade das populações e pequena representação de países da América Latina e da África. 

As análises de sensibilidade demonstraram resultados semelhantes entre diferentes modelos estatísticos, mas essa concordância não elimina as limitações dos estudos originais. 

Consequentemente, as frequências identificadas devem ser interpretadas como estimativas das complicações clinicamente detectadas nas populações hospitalares estudadas, sem extrapolação direta para todos os pacientes com dengue. 

 

Saiba mais: Dengue: aspectos clínico-laboratoriais do antígeno NS1 

Se houver suspeita de alterações visuais na dengue, considere avaliação oftalmológica 

Os resultados reforçam a relevância clínica das manifestações oculares na dengue, especialmente durante a fase de recuperação, quando determinadas alterações podem se tornar evidentes. 

Na prática assistencial, recomenda-se manter atenção às queixas visuais e considerar avaliação oftalmológica conforme os achados clínicos. 

A tomografia de coerência óptica e a campimetria computadorizada podem contribuir para a identificação de alterações maculares e neuro-oftalmológicas, embora o estudo não estabeleça protocolos universais de rastreamento. 

Para médicos que acompanham pacientes com dengue, a principal contribuição da revisão é reconhecer que complicações retinianas e do nervo óptico podem ocorrer fora das apresentações hemorrágicas clássicas. 

A investigação individualizada e a interpretação cuidadosa dos métodos diagnósticos permanecem fundamentais, considerando a baixa ou muito baixa certeza das estimativas disponíveis. 

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial, com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

Foto de Pedro Hélio Júnior

Pedro Hélio Júnior

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de Uberlandia (UFU), com residencia médica em Oftalmologia e Mestrado pela mesma instituição e fellowship em Glaucoma (pelo Glaucoma Instituto). Além da atuação na Afya, é professor de oftalmologia e coordenador da residência médica de oftalmologia do IMEPAC-HUSF (Araguari).

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