A ambliopia é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado pela redução da acuidade visual melhor corrigida sem patologia ocular estrutural óbvia. Historicamente associada a anormalidades corticais na via visual, a condição afeta até 5% da população, sendo a principal causa de deficiência visual monocular em jovens.
Com os avanços na tomografia de coerência óptica (OCT) e na angiografia por OCT (OCTA), a atenção científica voltou-se para a retina. Relatos de espessamento da camada de fibras nervosas da retina (CFNR) e alterações maculares levantaram a hipótese de um envolvimento retiniano primário ou secundário à privação visual.
Apesar disso, os achados na literatura permanecem inconsistentes, variando amplamente conforme o subtipo de ambliopia, idade e biometria ocular. Para esclarecer essas divergências, foi publicada uma revisão sistemática no Journal of Optometry em 2026 que buscou consolidar e avaliar criticamente as evidências sobre essas alterações estruturais e microvasculares, fornecendo diretrizes mais claras para a prática clínica.
Como a revisão avaliou alterações retinianas na ambliopia com OCT e OCTA
Desenho do estudo
Foi realizada uma revisão sistemática baseada nas diretrizes PRISMA 2020, com buscas nas bases MEDLINE, Embase, Scopus e Cochrane Library até dezembro de 2025.
Critérios de Inclusão e Exclusão
Foram incluídos estudos observacionais em humanos (transversais ou longitudinais) com pacientes diagnosticados com ambliopia unilateral ou bilateral, que compararam parâmetros de OCT/OCTA com olhos contralaterais ou controles saudáveis pareados por idade. Excluíram-se relatos de caso, estudos em animais e resumos de conferências.
Desfechos Avaliados
Os principais desfechos incluíram a espessura da CFNR, espessura macular e foveal, volume macular e parâmetros vasculares derivados da OCTA (como a densidade do plexo capilar superficial).
O que OCT e OCTA mostram na ambliopia?
Características dos estudos
Foram incluídos 30 estudos, a maioria apresentando baixo risco de viés segundo a Escala Newcastle-Ottawa. A heterogeneidade clínica exigiu uma síntese narrativa estratificada.
Alterações Estruturais por Subtipo
A ambliopia anisometrópica apresentou os achados mais consistentes, com relatos frequentes de aumento da CFNR e da espessura macular central. Em contrapartida, os achados na ambliopia estrabísmica foram marcadamente inconsistentes. Na ambliopia por alta miopia, observou-se predominantemente um afinamento retiniano e corodiano difuso, intimamente ligado ao alongamento axial.
O Viés do Comprimento Axial
Os resultados evidenciaram que o comprimento axial altera sistematicamente as medidas do OCT: olhos mais curtos (hipermétropes) simulam uma CFNR mais espessa, enquanto olhos mais longos simulam afinamento. Nos estudos que realizaram a correção de magnificação baseada no comprimento axial, as diferenças estruturais interoculares foram significativamente atenuadas ou desapareceram.
Remodelamento Vascular e Terapia
Os estudos com OCTA demonstraram consistentemente uma redução da densidade do plexo capilar superficial em olhos amblíopes não tratados. Estudos longitudinais avaliaram os efeitos da terapia convencional e revelaram que, embora a acuidade visual melhorasse de forma confiável, as mudanças estruturais no OCT foram muito modestas e não se correlacionaram fortemente com o ganho visual. Contudo, parâmetros de perfusão na OCTA mostraram indícios de normalização mais precoce.
Como interpretar as alterações de OCT e OCTA na ambliopia?
Os resultados dessa revisão demonstraram que as alterações observadas no OCT e no OCTA são altamente dependentes do subtipo de ambliopia e da biometria ocular, refutando a existência de uma “assinatura retiniana” anatômica única e isolada para a doença.
Destaca-se criticamente o papel do comprimento axial como fator de confusão metodológico. A falha em corrigir os artefatos de magnificação pode superestimar espessamentos (em anisometropias hipermetrópicas) ou afinamentos (em miopias altas), confundindo variações anatômicas fisiológicas com patologia intrínseca.
Sob a ótica da OCTA, a hipoperfusão retiniana superficial em olhos não tratados sugere uma possível poda vascular secundária à menor demanda metabólica, reforçando a ligação fisiopatológica entre o déficit funcional visual e a microvasculatura ocular.
Quais limitações afetam a interpretação dos estudos de OCT na ambliopia?
As principais limitações do estudo residem na notável heterogeneidade metodológica dos estudos primários (diferentes equipamentos, protocolos de segmentação e idade), além da ausência generalizada de correção rotineira para o comprimento axial na grande maioria das pesquisas avaliadas.
Como usar OCT e OCTA na avaliação clínica da ambliopia
O uso do OCT e da OCTA em pacientes amblíopes possui grande valor no baseline clínico, atuando fundamentalmente para descartar patologias maculares ou do nervo óptico coexistentes que possam mimetizar ou agravar a baixa acuidade visual.
No entanto, deve-se ter extrema cautela ao interpretar relatórios de espessamento da CFNR ou da mácula, compreendendo que essas medidas sofrem forte influência do comprimento axial (especialmente em hipermétropes). Até o momento, as alterações anatômicas não se provaram biomarcadores confiáveis de prognóstico funcional, embora a avaliação microvascular pela OCTA aponte um futuro promissor no monitoramento da resposta terapêutica.
Autoria

Pedro Hélio Júnior
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de Uberlandia (UFU), com residencia médica em Oftalmologia e Mestrado pela mesma instituição e fellowship em Glaucoma (pelo Glaucoma Instituto). Além da atuação na Afya, é professor de oftalmologia e coordenador da residência médica de oftalmologia do IMEPAC-HUSF (Araguari).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.