A progressão da miopia infantil representa um dos maiores desafios globais da oftalmologia atual, com estimativas apontando que quase metade da população mundial será míope até 2025. A miopia patológica e o aumento do comprimento axial elevam significativamente o risco de comorbidades oculares graves como glaucoma, catarata, descolamento de retina e maculopatia miópica.
Dentre as intervenções farmacológicas para mitigar essa progressão, o colírio de atropina em baixas concentrações (0,01%) consolidou-se na prática clínica por seu perfil de segurança e menor efeito rebote em relação a formulações mais concentradas. A medicação foi, inclusive, recentemente aprovada por órgãos regulatórios internacionais como uma das principais opções farmacológicas.
Contudo, o papel exato da atropina a 0,01% na profilaxia da fase pré-miopia ainda é alvo de debate na literatura. Com isso, foi conduzida uma metanálise e revisão sistemática, publicada em 2026 na BMC Ophthalmology, que buscou avaliar os efeitos preventivos e de controle do colírio de atropina a 0,01% em crianças com miopia e pré-miopia.

Como a meta-análise avaliou a atropina 0,01% na miopia e pré-miopia infantil
Desenho do estudo e busca
Foi realizada uma revisão sistemática e metanálise baseada nas diretrizes PRISMA, englobando 15 ensaios clínicos randomizados extraídos das bases de dados Pubmed, Web of Science, Embase e Cochrane.
Quais crianças foram incluídas na análise
Foram incluídos 2527 pacientes menores de 18 anos, divididos em 1328 no grupo de tratamento e 1199 no controle. A coorte incluiu 2153 crianças já com miopia estabelecida e 374 crianças com pré-miopia.
Como a atropina 0,01% foi comparada ao tratamento controle
O grupo experimental foi submetido ao tratamento com colírio de atropina 0,01%, enquanto o grupo controle utilizou placebo ou lentes de visão simples, com acompanhamento variando de 12 a 24 meses.
Quais parâmetros mediram a progressão da miopia
Os parâmetros primários analisados foram as variações na progressão do Equivalente Esférico (EE) e no alongamento do Comprimento Axial (AL)
Atropina 0,01% controla a progressão da miopia e da pré-miopia?
Equivalente Esférico (EE)
Aos 12 meses de seguimento, o grupo tratado com atropina 0,01% demonstrou uma progressão significativamente menor do EE tanto nos míopes quanto nos pré-míopes (p<0,05). Aos 24 meses, a eficácia na contenção da progressão refracional manteve-se estatisticamente superior para crianças já míopes. Entretanto, perdeu significância estatística no subgrupo de crianças pré-míopes.
Comprimento Axial (AL)
No que tange ao parâmetro anatômico primário, aos 12 meses houve menor alongamento do AL no grupo da atropina em ambas as condições. Contudo, na avaliação de 24 meses, a atropina a 0,01% foi capaz de controlar efetivamente o alongamento axial apenas nas crianças com miopia (Diferença Média de -0,08 mm; p<0,05). No subgrupo da pré-miopia, não houve diferença estatística na inibição do alongamento do AL quando comparado ao controle (p=0,09).
Segurança e Tolerabilidade
A terapia mostrou-se bem tolerada, sem diferenças proporcionais de eventos graves em relação ao placebo. As reações adversas limitaram-se a queixas leves, incluindo fotofobia, borramento visual e reações alérgicas locais.
Como interpretar a eficácia da atropina 0,01% na miopia e pré-miopia?
O trabalho consolida o alto nível de evidência da atropina 0,01% no controle longitudinal da miopia já instalada, ratificando a estabilização do EE e do AL ao longo de dois anos. Todavia, a ausência de impacto significativo na estabilização do EE e do AL em pacientes pré-míopes a longo prazo (24 meses) traz implicações clínicas importantes.
A literatura moderna, a exemplo do estudo LAMP2, corrobora que a concentraç!ão de 0,01% atua de maneira sub-terapêutica na prevenção da incidência de miopia, sugerindo o uso de 0,05% para pré-míopes. Ademais, estudos norte-americanos recentes (PEDIG) relataram falhas da atropina 0,01% mesmo em míopes, o que levanta uma forte hipótese farmacocinética: a variabilidade na pigmentação da íris entre diferentes etnias pode atuar como um reservatório medicamentoso, reduzindo a biodisponibilidade e a ligação da atropina aos receptores muscarínicos nas populações estudadas.
Por que a evidência sobre atropina 0,01% na pré-miopia ainda é limitada?
A principal limitação metodológica assenta-se na disparidade de definições clínicas para “pré-miopia” entre os ensaios clínicos incluídos, além do baixo número de ensaios direcionados exclusivamente a essa coorte (apenas 2 dos 15 estudos), o que fragiliza o poder estatístico nas inferências profiláticas e demanda novos trabalhos dedicados a essa subpopulação específica.
Na prática, quando considerar atropina 0,01% no controle da miopia infantil?
A prescrição de atropina a 0,01% permanece como uma intervenção de excelência para frear a progressão miópica refracional (EE) e estrutural (AL) em crianças com diagnóstico de miopia já estabelecido, aliando eficácia a um ótimo perfil de segurança.
Por outro lado, o uso desse colírio como prevenção primária na pré-miopia carece de respaldo anatômico a longo prazo para o controle do comprimento axial. Para pacientes pré-míopes, o oftalmologista deve enfatizar a modificação de hábitos (estímulo rigoroso às atividades ao ar livre e redução do uso de telas) além de instituir uma monitorização contínua por biometria óptica, considerando concentrações mais elevadas (ex: 0,05%) de acordo com as mais recentes evidências caso o alongamento do AL se mantenha acelerado.
Autoria

Pedro Hélio Júnior
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de Uberlandia (UFU), com residencia médica em Oftalmologia e Mestrado pela mesma instituição e fellowship em Glaucoma (pelo Glaucoma Instituto). Além da atuação na Afya, é professor de oftalmologia e coordenador da residência médica de oftalmologia do IMEPAC-HUSF (Araguari).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.