O traumatismo cranioencefálico penetrante (TCEp) é uma das apresentações mais críticas da prática neurocirúrgica e de trauma. Diferente do TCE fechado, o TCEp envolve violação da dura-máter, com risco elevado de infecção intracraniana, fístula liquórica, formação de aneurismas traumáticos e sangramento refratário. A fisiopatologia é marcada pela combinação de lesão primária direta ao parênquima cerebral com dano vascular frequente e lesão secundária mediada por hipertensão intracraniana, isquemia e edema.
Apesar da gravidade, estudos demonstram que a implementação de diretrizes específicas para TCE grave reduz a mortalidade em até 50%. O problema é que as recomendações anteriores para a forma penetrante eram fragmentadas, pouco disseminadas, baseadas predominantemente em dados de conflitos militares, sem orientação clara sobre ressuscitação, imagem vascular seriada e profilaxias. A Brain Trauma Foundation (BTF) publicou, em 2026, a segunda edição das Diretrizes para o Manejo do Traumatismo Cranioencefálico Penetrante para suprir essas lacunas.
Como foram construídas essas recomendações?
A diretriz combina revisão sistemática da literatura com consenso formal de especialistas, com metodologia semelhante à adotada pela Seattle International Severe Traumatic Brain Injury Consensus Conference (SIBICC). As buscas eletrônicas foram realizadas no MEDLINE, Embase e Cochrane CENTRAL, com corte em agosto de 2022, e estudos de conflitos militares publicados após essa data foram incorporados. No total, 6.078 referências foram triadas, 1.923 avaliadas na íntegra e 125 estudos incluídos, sendo a maioria séries de casos (85 estudos) e relatos de caso (11), sem ensaios clínicos randomizados.
O painel multiprofissional reuniu especialistas em neurocirurgia, neurologia, cirurgia de trauma, medicina de emergência, terapia intensiva, pediatria, reabilitação e paramedicina militar, além de um paciente e familiares. As recomendações foram graduadas em níveis I a IV conforme a qualidade da evidência, e nivel C para consenso de especialistas, exigindo limiar de 80% de concordância. Nenhuma recomendação de nível I foi possível, o que reflete a escassez de dados de alta qualidade nessa população específica.

O que a diretriz recomenda na prática?
Ressuscitacão e cuidado inicial
Recomenda-se seguir as diretrizes de ressuscitação pré-hospitalar da BTF desde o primeiro atendimento. Em pacientes com choque hemorrágico ou sangramento externo massivo, a prioridade deve ser o controle da hemorragia com sangue total ou equivalente. Deve-se evitar o uso de colar cervical em TCEp isolado sem evidência clínica ou tomográfica de lesão cervical, já que sua utilização pode piorar o desfecho.
Imagem vascular: CTA na admissão, DSA quando indicada
Recomenda-se solicitar angiotomografia computadorizada (AngioTC) na admissão para rastreio de lesões vasculares. A angiografia por subtração digital (DSA) deve ser realizada quando há alta suspeita clínica de lesão vascular ou quando a AngioTC não permitir excluir lesão por artefatos de fragmentos metálicos. Recomenda-se também repetir a imagem vascular entre 7 e 21 dias ou antes da alta hospitalar, pois aneurismas traumáticos intracranianos (TICAs) podem se desenvolver de forma tardia. Pacientes com TICA confirmado devem ser submetidos preferencialmente a tratamento endovascular.
Monitoramento e manejo da pressão intracraniana
Em TCEp grave, pediatrico e adulto, recomenda-se o monitoramento da pressão intracraniana (PIC) para reduzir a mortalidade. A meta de PIC deve ser abaixo de 22 mmHg, e a pressão de perfusão cerebral (PPC) deve ser mantida entre 60 e 70 mmHg em adultos, com limiares ajustados por faixa etária em crianças.
Profilaxias no cuidado crítico
Recomenda-se iniciar profilaxia antiepilética por pelo menos 7 dias em todos os pacientes com TCEp. Nenhum fármaco específico demonstrou superioridade. Antibióticos de amplo espectro devem ser administrados o mais precocemente possível: por até 5 dias em pacientes de alto risco (feridas contaminadas, trajetórias por seios aéreos, fragmentos ósseos retidos) e por até 3 dias nos de baixo risco. Deve-se incluir cobertura para anaerobiose nos pacientes de alto risco. A profilaxia mecânica para tromboembolismo venoso (TEV) e recomendada para todos os adultos; a profilaxia farmacológica pode ser iniciada em 24 a 48 horas após cirurgia ou com hemorragia estável na tomografia.
Cirurgia: quando e como operar
Pacientes com TCEp clinicamente salváveis e com indicação cirúrgica devem ser submetidos a cirurgia de forma urgente. Recomenda-se o desbridamento conservador com menor dissecção do parenquima cerebral em detrimento do desbridamento radical, que não melhora desfechos e aumenta o risco de dano adicional. Recomenda-se o reparo profilático da dura-máter para prevenir fístula liquórica e infecções profundas do sistema nervoso central. A cranioplastia pode ser realizada assim que clínica e cirurgicamente viavelmente.
O que mudou em relação à versão anterior?
A segunda edição traz mudanças relevantes em várias frentes. A AngioTC passa a ser formalmente recomendada como rastreio inicial — a versão anterior abordava apenas a DSA. A profilaxia de TEV, ausente nas recomendações anteriores, agora recebe atenção explicita com orientações sobre timing e elegibilidade. A imagem vascular seriada para detecção tardia de TICAs e formalizada pela primeira vez. A abordagem prognóstica foi reformulada: em vez de basear decisões na probabilidade de óbito estimada por escores — frequentemente contaminada por conduta niilista histórica, a diretriz introduz o Toolkit de Avaliação de Futilidade, com 100% de consenso, baseado em critérios clínicos e radiográficos objetivos para orientar a decisão de intervir ou não.
Limites da evidência e pontos de atenção
A principal limitação desta diretriz e estrutural: a ausência de ensaios clínicos randomizados nessa população resulta em 57 recomendações baseadas apenas em consenso de especialistas (nivel C). A maioria dos estudos incluídos são series de casos com alto risco de viés de seleção. Há também incerteza sobre a generalizabilidade das evidências militares para contextos civis, incluindo o brasileiro, com perfil epidemiológico distinto. A ausência de recomendações de nível I ou II para vários tópicos críticos, como escolha do antiepilético e agente farmacológico para profilaxia de TEV, reflete a necessidade urgente de estudos prospectivos dedicados ao TCEp.
O que muda para o médico?
Para o médico que atende traumatismo cranioencefálico penetrante (TCEp) no pronto-socorro, UTI ou centro cirúrgico, as mudanças práticas são diretas. Evitar colar cervical de rotina em TCEp isolado sem suspeita clínica ou tomográfica de lesão cervical. Solicite AngioTC já na admissão e programe nova imagem vascular entre 7 e 21 dias, mesmo sem achados iniciais. Inicie antibiótico e fármaco anticrise precocemente e ajuste a duração ao risco do paciente. Considere profilaxia farmacológica de TEV entre 24 e 48 horas quando houver estabilidade hemorrágica. No bloco cirúrgico, prefira desbridamento conservador e repare a dura-máter sempre que possível. Use o Toolkit de Futilidade para fundamentar decisões de não intervenção em critérios objetivos e não em estimativas prognosticas isoladas. Essas recomendações representam uma oportunidade concreta de padronizar o cuidado ao TCEp em serviços de trauma no Brasil, estimulando uma melhor estruturação de serviços de neurocirurgia, terapia neurointensiva e neurorradiologia intervencionista, com fluxos de transferência precoce para centros de referência, otimizando o cuidado.
Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao
Editor médico de Neurologia do Portal Afya. Mestrando em Neurologia pela UFF (Neuroimunologia/Neuromuscular). Fellow em Neuroimunologia na Universidade Federal de Goiás (HC-UFG).
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