Na última década, o sinal da veia central (Central Vein Sign – SVCs) e as lesões com halo paramagnético (Paramagnetic Rim Lesions – LHPs) emergiram como fortes candidatos a biomarcadores de esclerose múltipla (EM), com provável incorporação definitiva aos critérios de McDonald. Mas uma pergunta crítica permanece: até que ponto esses marcadores ajudam — ou confundem — o diagnóstico diferencial com MOGAD, especialmente em crianças?
Um grande estudo multicêntrico publicado na Neurology em 2026 enfrentou essa questão de forma direta, avaliando SVCs e LHPs em uma das maiores coortes pediátricas de MOGAD já estudadas, com análise longitudinal detalhada das lesões .
Por que esse estudo é relevante?
Porque na prática real:
- Crianças com MOGAD podem ter múltiplas lesões
- Algumas podem apresentar SVCs positivo
- E isso pode mimetizar EM pediátrica, gerando diagnósticos errados
O estudo ajuda a separar o que é armadilha radiológica do que realmente tem valor discriminatório.
Como o estudo foi feito?
- 65 crianças com MOGAD confirmado
- 130 ressonâncias com sequências de susceptibilidade (SBI)
- 520 lesões avaliadas
- Análise longitudinal com seguimento mediano de 18 meses
- Avaliação rigorosa seguindo os critérios do North American Imaging in MS Cooperative
Lesões grandes, confluentes, muito pequenas (< 3 mm) ou com artefatos foram corretamente excluídas — algo crucial em MOGAD pediátrica.

O primeiro grande achado: LHPs simplesmente NÃO EXISTEM na MOGAD
Esse é talvez o dado mais forte do estudo: Nenhuma lesão com halo paramagnético foi identificada. Zero.
Mesmo após avaliar:
- Mais de 500 lesões
- Exames em 1,5T e 3T
- Múltiplos centros especializados
Mensagem-chave:
LHPs continuam sendo um marcador altamente específico de EM, inclusive na população pediátrica.
E o SVCs? Ele aparece, mas com nuances importantes
Frequência geral
- ~30% das lesões eram SVCs +
- 49% das crianças tinham pelo menos 1 lesão SVCs +
Isso já derruba um mito comum: “SVCs presente exclui MOGAD” → FALSO
O tempo da RM muda tudo
Um achado elegantíssimo do estudo:
- RM feita na fase aguda → 16% de lesões SVCs +
- RM feita em remissão → 33% de lesões SVCs + (p = 0,015)
Isso acontece porque muitas lesões da MOGAD são transitórias.
SVCs como marcador de persistência, não de diagnóstico
Aqui está a virada conceitual:
- Lesões SVCs −:
- 77–85% desaparecem no seguimento
- Lesões SVCs +:
- Apenas ~43–55% resolvem
- Tendem a persistir mais no tempo
Interpretação fisiopatológica:
- SVCs + → mais provável desmielinizacao perivenular verdadeira
- SVCs − → mais provável edema inflamatório transitório
O SVCs, na MOGAD, prediz persistência da lesão, não necessariamente EM.
As “regras” do SVCs também falham na MOGAD
Mesmo critérios clássicos usados para EM:
- Regra dos 40%
- Regra dos 50%
- “Rule of 6” (≥6 lesões SVCs+)
Foram preenchidos por uma minoria de pacientes com MOGAD, todos com diagnóstico confirmado após revisão independente.
Mensagem prática: Nenhum cutoff de SVCs exclui MOGAD de forma absoluta.
O grande diferencial continua sendo a dinâmica das lesões
Quando olhamos o conjunto:
| Característica | MOGAD | EM |
| LHPs s | Ausentes | Frequentes |
| Resolução de lesões | Muito comum | Rara |
| SVCs | Variável | Alto e estável |
| Influência do tempo | Alta | Baixa |
Lesões que desaparecem são a “assinatura” da MOGAD.
Implicações práticas para o neurologista
- LHP presente → pense fortemente em EM
- SVC isolado NÃO exclui MOGAD
- Avalie sempre o momento da RM (agudo vs remissão)
- Seguimento longitudinal é obrigatório em crianças
- O diagnóstico não é uma foto — é um filme
Conclusão
Este estudo muda a forma de interpretar a RM na MOGAD pediátrica.
O SVCs não é um marcador binário, e sim um indicador de persistência lesional.
As lesões com halo paramagnético (Paramagnetic Rim Lesions – LHPs) seguem como um dos marcadores mais específicos de EM, inclusive em crianças.
Na prática, a evolução das lesões pesa mais que o número delas.
Autoria

Thiago Nascimento
Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.
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