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Neurologia26 março 2026

MOGAD Pediátrica: sinal da veia central e halo paramagnético no diagnóstico

Estudo avaliou a prevalência de sinal da veia central e as lesões com halo paramagnético em uma grande coorte de pacientes pediátricos

Na última década, o sinal da veia central (Central Vein Sign – SVCs) e as lesões com halo paramagnético (Paramagnetic Rim Lesions – LHPs) emergiram como fortes candidatos a biomarcadores de esclerose múltipla (EM), com provável incorporação definitiva aos critérios de McDonald. Mas uma pergunta crítica permanece: até que ponto esses marcadores ajudam — ou confundem — o diagnóstico diferencial com MOGAD, especialmente em crianças? 

Um grande estudo multicêntrico publicado na Neurology em 2026 enfrentou essa questão de forma direta, avaliando SVCs e LHPs em uma das maiores coortes pediátricas de MOGAD já estudadas, com análise longitudinal detalhada das lesões . 

Por que esse estudo é relevante? 

Porque na prática real: 

  • Crianças com MOGAD podem ter múltiplas lesões 
  • Algumas podem apresentar SVCs positivo 
  • E isso pode mimetizar EM pediátrica, gerando diagnósticos errados 

O estudo ajuda a separar o que é armadilha radiológica do que realmente tem valor discriminatório. 

Como o estudo foi feito? 

  • 65 crianças com MOGAD confirmado 
  • 130 ressonâncias com sequências de susceptibilidade (SBI) 
  • 520 lesões avaliadas 
  • Análise longitudinal com seguimento mediano de 18 meses 
  • Avaliação rigorosa seguindo os critérios do North American Imaging in MS Cooperative 

Lesões grandes, confluentes, muito pequenas (< 3 mm) ou com artefatos foram corretamente excluídas — algo crucial em MOGAD pediátrica. 

MOGAD Pediátrica: sinal da veia central e halo paramagnético no diagnóstico

O primeiro grande achado: LHPs simplesmente NÃO EXISTEM na MOGAD 

Esse é talvez o dado mais forte do estudo: Nenhuma lesão com halo paramagnético foi identificada. Zero. 

Mesmo após avaliar: 

  • Mais de 500 lesões 
  • Exames em 1,5T e 3T 
  • Múltiplos centros especializados 

Mensagem-chave: 

LHPs continuam sendo um marcador altamente específico de EM, inclusive na população pediátrica. 

E o SVCs? Ele aparece, mas com nuances importantes 

Frequência geral 

  • ~30% das lesões eram SVCs + 
  • 49% das crianças tinham pelo menos 1 lesão SVCs + 

Isso já derruba um mito comum:  SVCs  presente exclui MOGAD” → FALSO 

O tempo da RM muda tudo 

Um achado elegantíssimo do estudo: 

  • RM feita na fase aguda → 16% de lesões SVCs + 
  • RM feita em remissão → 33% de lesões SVCs + (p = 0,015) 

Isso acontece porque muitas lesões da MOGAD são transitórias. 

SVCs como marcador de persistência, não de diagnóstico 

Aqui está a virada conceitual: 

  • Lesões SVCs −: 
    • 77–85% desaparecem no seguimento 
  • Lesões SVCs +: 
    • Apenas ~43–55% resolvem 
    • Tendem a persistir mais no tempo 

Interpretação fisiopatológica: 

  • SVCs + → mais provável desmielinizacao perivenular verdadeira 
  • SVCs − → mais provável edema inflamatório transitório 

O SVCs, na MOGAD, prediz persistência da lesão, não necessariamente EM. 

As “regras” do SVCs também falham na MOGAD 

Mesmo critérios clássicos usados para EM: 

  • Regra dos 40% 
  • Regra dos 50% 
  • “Rule of 6” (≥6 lesões SVCs+) 

Foram preenchidos por uma minoria de pacientes com MOGAD, todos com diagnóstico confirmado após revisão independente. 

Mensagem prática: Nenhum cutoff de SVCs exclui MOGAD de forma absoluta. 

O grande diferencial continua sendo a dinâmica das lesões 

Quando olhamos o conjunto: 

Característica MOGAD EM 
LHPs s Ausentes Frequentes 
Resolução de lesões Muito comum Rara 
SVCs Variável Alto e estável 
Influência do tempo Alta Baixa 

Lesões que desaparecem são a “assinatura” da MOGAD. 

Implicações práticas para o neurologista 

  1. LHP presente → pense fortemente em EM 
  2. SVC isolado NÃO exclui MOGAD 
  3. Avalie sempre o momento da RM (agudo vs remissão) 
  4. Seguimento longitudinal é obrigatório em crianças 
  5. O diagnóstico não é uma foto — é um filme 

Conclusão 

Este estudo muda a forma de interpretar a RM na MOGAD pediátrica. 

SVCs não é um marcador binário, e sim um indicador de persistência lesional. 

As lesões com halo paramagnético (Paramagnetic Rim Lesions – LHPs) seguem como um dos marcadores mais específicos de EM, inclusive em crianças. 

Na prática, a evolução das lesões pesa mais que o número delas.

Autoria

Foto de Thiago Nascimento

Thiago Nascimento

Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.

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