A Síndrome de Miller-Fisher (SMF), considerada uma variante da Síndrome de Guillain-Barré, é classicamente definida pela tríade de ataxia, oftalmoplegia e arreflexia. No contexto desta patologia, a natureza da ataxia é um ponto fundamental para o diagnóstico diferencial e compreensão da fisiopatologia.

Natureza da ataxia: sensitiva vs. cerebelar
Diferente de outras condições neurológicas, a ataxia na síndrome de Miller-Fisher manifesta-se predominantemente como uma ataxia sensitiva. O quadro clínico é marcado por um desequilíbrio e instabilidade significativos durante a marcha e a postura.
Um diferencial importante é que, na maioria dos pacientes, não são observados os sinais de disfunção cerebelar clássica, tais como:
- Dismetria (dificuldade em controlar a distância e força dos movimentos);
- Nistagmo (movimentos oculares involuntários);
- Sintomas vestibulares (vertigem ou tontura rotatória).
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Mecanismos neurofisiológicos e propriocepção na síndrome de Miller-Fisher
Estudos de neurofisiologia e análise de oscilação corporal indicam que a origem desta ataxia é periférica. O comprometimento ocorre no sistema proprioceptivo periférico, afetando especificamente as fibras aferentes que partem dos fusos musculares.
As evidências que sustentam essa origem sensorial periférica incluem:
- Ausência do reflexo H: Um marcador de interrupção do arco reflexo sensorial-motor;
- Redução dos potenciais de ação sensorial: Demonstrando a neuropatia das fibras grossas responsáveis pela propriocepção;
- Exames de Imagem: Na vasta maioria dos casos, a ressonância magnética e outros exames de imagem não mostram alterações no cerebelo.
Possibilidade de ataxia mista e consenso clínico
Embora a base seja periférica, a literatura médica registra casos excepcionais onde pode haver um componente central associado. Relatos raros mencionam hipoperfusão cerebelar ou lesões em tratos espinocerebelares, o que caracterizaria uma ataxia mista.
Contudo, o consenso clínico atual permanece firme: a ataxia na Miller-Fisher é, em sua essência, sensitiva e de origem periférica. Não existem evidências que sustentem a ataxia cerebelar ou vestibular isolada como o padrão predominante da doença.
Implicações para o manejo clínico
A identificação correta do padrão de ataxia auxilia na estratificação do paciente e na diferenciação de outras síndromes do tronco encefálico, como a Encefalite de Bickerstaff. O foco deve estar na vigilância da progressão da fraqueza e na proteção contra quedas, dado que a perda da percepção da posição do corpo no espaço é o fator gerador da instabilidade.
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Autoria

Victor Fiorini
Médico formado pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. Residência de Clinica Médica pela UNIFESP. Residência de Neurologia Clínica pelo HCFMUSP. Professor de Neurologia na Afya Educação Médica. Professor de Urgências e Emergências do Hospital Israelita Albert Einstein. Professor de Neurologia do Curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo (2013-2024). Autor de capítulos de Livros na Área de Neurologia. Médico do Corpo Clínico dos Hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
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