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Neurologia27 abril 2026

Como é a ataxia na síndrome de Miller-Fisher?

Neste artigo falaremos sobre a Síndrome de Miller-Fisher, e a natureza da ataxia relacionada, fundamental para o diagnóstico diferencial
Por Victor Fiorini

A Síndrome de Miller-Fisher (SMF), considerada uma variante da Síndrome de Guillain-Barré, é classicamente definida pela tríade de ataxia, oftalmoplegia e arreflexia. No contexto desta patologia, a natureza da ataxia é um ponto fundamental para o diagnóstico diferencial e compreensão da fisiopatologia.

Como é a ataxia na síndrome de Miller-Fisher?

Natureza da ataxia: sensitiva vs. cerebelar

Diferente de outras condições neurológicas, a ataxia na síndrome de Miller-Fisher manifesta-se predominantemente como uma ataxia sensitiva. O quadro clínico é marcado por um desequilíbrio e instabilidade significativos durante a marcha e a postura.

Um diferencial importante é que, na maioria dos pacientes, não são observados os sinais de disfunção cerebelar clássica, tais como:

  • Dismetria (dificuldade em controlar a distância e força dos movimentos);
  • Nistagmo (movimentos oculares involuntários);
  • Sintomas vestibulares (vertigem ou tontura rotatória).

Leia também: Ataxias: o que todo médico precisa saber?

Mecanismos neurofisiológicos e propriocepção na síndrome de Miller-Fisher

Estudos de neurofisiologia e análise de oscilação corporal indicam que a origem desta ataxia é periférica. O comprometimento ocorre no sistema proprioceptivo periférico, afetando especificamente as fibras aferentes que partem dos fusos musculares.

As evidências que sustentam essa origem sensorial periférica incluem:

  • Ausência do reflexo H: Um marcador de interrupção do arco reflexo sensorial-motor;
  • Redução dos potenciais de ação sensorial: Demonstrando a neuropatia das fibras grossas responsáveis pela propriocepção;
  • Exames de Imagem: Na vasta maioria dos casos, a ressonância magnética e outros exames de imagem não mostram alterações no cerebelo.

Possibilidade de ataxia mista e consenso clínico

Embora a base seja periférica, a literatura médica registra casos excepcionais onde pode haver um componente central associado. Relatos raros mencionam hipoperfusão cerebelar ou lesões em tratos espinocerebelares, o que caracterizaria uma ataxia mista.

Contudo, o consenso clínico atual permanece firme: a ataxia na Miller-Fisher é, em sua essência, sensitiva e de origem periférica. Não existem evidências que sustentem a ataxia cerebelar ou vestibular isolada como o padrão predominante da doença.

Implicações para o manejo clínico

A identificação correta do padrão de ataxia auxilia na estratificação do paciente e na diferenciação de outras síndromes do tronco encefálico, como a Encefalite de Bickerstaff. O foco deve estar na vigilância da progressão da fraqueza e na proteção contra quedas, dado que a perda da percepção da posição do corpo no espaço é o fator gerador da instabilidade.

Saiba mais: Ataxia de Friedreich: diagnóstico, abordagem multidisciplinar e desafios

Autoria

Foto de Victor Fiorini

Victor Fiorini

Médico formado pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. Residência de Clinica Médica pela UNIFESP. Residência de Neurologia Clínica pelo HCFMUSP. Professor de Neurologia na Afya Educação Médica. Professor de Urgências e Emergências do Hospital Israelita Albert Einstein. Professor de Neurologia do Curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo (2013-2024). Autor de capítulos de Livros na Área de Neurologia. Médico do Corpo Clínico dos Hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.

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Referências bibliográficas

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