Mulher de 72 anos, hipertensa, tabagista de 60 maços/ano, foi admitida no serviço de neurologia, há 5 semanas com queixa de parestesia progressiva nas extremidades e dificuldade na marcha.
Ao exame, o estado mental e exames dos nervos cranianos sem alterações. Apresentava acometimento de sensibilidade superficial e profunda distalmente, ataxia sensitiva e nenhum déficit motor. Ela não conseguia deambular e tinha dificuldade em segurar ou manipular objetos com as mãos. Realizada investigação com punção lombar, que mostrou líquor acelular e com discreto aumento de proteína (70 mg/dL). A paciente foi tratada com imunoglobulina endovenosa (2 g/kg de dose total) e recebeu alta para reabilitação.
Nas seis semanas seguintes, houve piora da parestesia e da ataxia sensitiva. Um estudo de condução nervosa mostrou ausência de respostas sensitivas, respostas motoras e eletromiografia normais e radiografia evidenciando massa de 3 cm em lobo pulmonar inferior direito.
Um painel paraneoplástico foi solicitado, onde apresentava anticorpo anti-Hu em mais de 1: 200.000 títulos. A biópsia de sua massa pulmonar revelou carcinoma de células pequenas. Foi submetido a ressecção cirúrgica e quimioterapia, que não resultou em melhora do quadro neurológico.
A apresentação clínica mais comum de síndrome paraneoplásica anti-Hu é uma neuronopatia sensitiva. Pistas importantes para o diagnóstico foram a natureza puramente sensitiva dos déficits (em exame neurológico, estudo de condução nervosa e eletromiografia), má resposta à imunoterapia e história de tabagismo. A detecção de câncer de pulmão faz qualquer outro diagnóstico muito menos provável. Neste contexto clínico, um anticorpo Hu de alto título é útil para confirmar o diagnóstico. A resposta à imunoterapia neste distúrbio, geralmente não é boa, provavelmente devido à morte das células T dos neurônios dos gânglios da raiz dorsal.
As síndromes neurológicas paraneoplásicas são um grupo heterogêneo de distúrbios neurológicos associados ao câncer sistêmico e causados por outros mecanismos além das metástases, déficits metabólicos e nutricionais, infecções, coagulopatia ou efeitos colaterais do tratamento do câncer. Essas síndromes podem afetar qualquer parte do sistema nervoso, desde o córtex cerebral até a junção neuromuscular e o músculo (Tabela 1). Eles podem ocorrer com ou sem autoanticorpos detectáveis no soro e líquido cefalorraquidiano (LCR).
Tabela 1. Síndromes paraneoplásicas do Sistema Nervoso
| 1. Sistema Nervoso Central | 2. Sistema Nervoso Periférico | 3. Junção Neuromuscular e músculo |
| – Encefalomielite* | – Neuropatia sensório-motora crônica | – Miastenia Gravis* |
| – Mielite* | Neuropatia sensório motora aguda | – Síndrome miastênica de Lambert-Eaton* |
| – Encefalite límbica* | – Neuropatia autonômica* | – Dermatomiosite |
| – Encefalite de tronco cerebral* | – Vasculite de nervo e músculo | – Neuromiotonia* |
| – Degeneração cerebelar* | – Miopatia necrosante aguda | |
| – Opsoclonus – mioclonus – ataxia* | ||
| – Síndromes visuais: Retinopatia associada ao câncer*, Rentinopatia associada ao melanoma* e neurite óptica* | ||
| – Mielopatia necrosante | ||
| – Síndrome do neurônio motor (ex: Neuronopatia motora subaguda) | ||
| – Síndrome da pessoa rígida* | ||
| – Neuronopatia sensorial subaguda* |
* Síndromes em que anticorpos paraneoplásicos específicos foram identificados; a ausência de anticorpos não exclui uma etiologia paraneoplásica
Pacientes com suspeita de síndrome neurológica paraneoplásica devem ser pesquisados para anticorpos (vide Tabela 2). O teste isolado do soro pode ser suficiente para anticorpos paraneoplásicos “bem caracterizados” ou “clássicos”, mas não é suficiente para algumas encefalites autoimunes associadas a anticorpos contra a superfície da célula neuronal ou proteínas sinápticas. Quando houver suspeita desses distúrbios, o exame do líquor também deve ser examinado.
Algumas observações importantes:
– Níveis baixos de alguns anticorpos paraneoplásicos podem ser observados no soro de pacientes com câncer sem síndromes paraneoplásicas.
– Anticorpos paraneoplásicos bem caracterizados raramente, ou nunca, ocorrem em indivíduos normais. A presença de tais anticorpos deve exigir uma pesquisa cuidadosa de uma neoplasia subjacente.
– Alguns, mas não todos, os anticorpos paraneoplásicos podem estar associados a diferentes síndromes neurológicas, e a mesma síndrome neurológica pode estar associada a diferentes anticorpos paraneoplásicos.
Tabela 2. Anticorpos paraneoplásicos bem caracterizados
| Anticorpo | Síndrome | Câncer |
| Anti-Hu (ANNA-1) | Encefalomielite incluindo encefalite cortical, límbica e do tronco cerebral; degeneração cerebelar; mielite; neuronopatia sensorial; e/ou disfunção autonômica | CPCP, outro |
| Anti-Yo (PCA-1) | Degeneração cerebelar | Ginecológica, mama |
| Anti-Ri (ANNA-2) | Degeneração cerebelar, encefalite do tronco cerebral, opsoclonia-mioclonia | Mama, ginecológica, CPCP |
| Anti-Tr (DNER) | Degeneração cerebelar | linfoma de Hodgkin |
| Anti-CV2/CRMP5 | Encefalomielite, degeneração cerebelar, coreia, neuropatia periférica | CPCP, timoma, outro |
| Proteínas anti-Ma (Ma1, Ma2) | Encefalomielite límbica, hipotalâmica, do tronco cerebral (raramente degeneração cerebelar) | Tumores de células germinativas testiculares, câncer de pulmão, outros tumores sólidos |
| Anti-VGCC | Degeneração cerebelar | CPCP |
| Antianfifisina | Síndrome da pessoa rígida, encefalomielite | Mama, câncer de pulmão |
| Anti-PCA-2 (MAP1B) | Neuropatia periférica, ataxia cerebelar, encefalopatia | CPCP |
| Antirecoverin | Retinopatia associada ao câncer | CPCP |
| Células antibipolares da retina | Retinopatia associada ao melanoma | Melanoma |
Anticorpos paraneoplásicos parcialmente caracterizados
| Anti-ANNA-3 | Neuronopatia sensorial, encefalomielite | Sem tumor ou linfoma de Hodgkin |
ANNA: anticorpo nuclear antineuronal; CPPC: câncer de pulmão de pequenas células; PCA: anticorpo para células de Purkinje; DNER: receptor relacionado ao fator de crescimento epidérmico tipo Delta/Notch; CRMP5: proteína 5 mediadora responsiva à colapsina; VGCC: canal de cálcio controlado por voltagem.
Na abordagem diagnóstica, estudos de neuroimagem, punção lombar e testes de eletrofisiológicos são úteis na caracterização da síndrome neurológica e importante ressaltar que a síndrome paraneoplásica pode preceder o diagnóstico de malignidade subjacente. Nesses casos, a síndrome clínica e a identificação de certos anticorpos paraneoplásicos podem sugerir um tumor subjacente específico e investigações diretas.
Veja outros casos clínicos:
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Referências bibliográficas:
- Mueller SH, Färber A, Prüss H, et al. Genetic predisposition in anti-LGI1 and anti-NMDA receptor encephalitis. Ann Neurol. 2018;83:863.
- Dalmau J, Geis C, Graus F. Autoantibodies to Synaptic Receptors and Neuronal Cell Surface Proteins in Autoimmune Diseases of the Central Nervous System. Physiol Rev. 2017;97:839.
- Graus F, Delattre JY, Antoine JC, et al. Critérios diagnósticos recomendados para síndromes neurológicas paraneoplásicas. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2004;75:1135.
- Vernino S, Low PA, Fealey RD, et al. Autoantibodies to ganglionic acetylcholine receptors in autoimmune autonomic neuropathies. N Engl J Med. 2000;343:847.
- Petit-Pedrol M, Sell J, Planagumà J, et al. LGI1 antibodies alter Kv1.1 and AMPA receptors changing synaptic excitability, plasticity and memory. Brain. 2018;141:3144.
- Graus F, Saiz A, Dalmau J. Antibodies and neuronal autoimmune disorders of the CNS. J Neurol. 2010;257:509.
Autoria

Felipe Nobrega
Editor médico na Afya, em B2B. Neurologista com residência médica e mestrado em Neurologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutorando em Neurociências pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui título de especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Atua no corpo clínico do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, no Hospital CopaStar e em consultório particular. Tem experiência em neurologia clínica, neurociências, terapia intensiva e educação médica.
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