A lesão cerebral hipóxico-isquêmica é a principal causa de morbimortalidade em pacientes pós parada cardiorrespiratória e neste contexto, um prognóstico neurológico preciso é importante para evitar a retirada inadequada do tratamento de suporte de vida em pacientes que, de outra forma, podem alcançar uma recuperação neurológica significativa, e também para evitar o tratamento ineficaz quando um resultado ruim for inevitável.
Para ser confiável, o neuroprognóstico deve ser realizado, no mínimo, depois de 72 horas do retorno para monotermia e as decisões de prognóstico deverão ser baseadas em vários modos de avaliação do paciente.

A importância do exame clínico na avaliação multimodal do neuroprognóstico
Os achados do exame clínico se correlacionam com resultados ruins, mas também estão sujeitos a confusão pela hipotermia e sedativos.
A avaliação do nível de consciência, das funções de tronco cerebral, mioclonia, “status” mioclônico (a obtenção de um eletroencefalograma é importante para descartar atividade ictal subjacente), é de suma importância, e, quando alterados por mais de 72 horas do evento, sugerem prognóstico ruim.
Biomarcadores
Os níveis dos biomarcadores séricos tendem a refletir o grau da lesão cerebral após o evento cardíaco. As limitações à sua utilidade prognóstica incluem: variabilidade nos métodos de teste com base no local e no laboratório, inconsistência entre laboratórios, suscetibilidade a incertezas, devido à hemólise, e fontes extracerebrais potenciais das proteínas.
NSE e S100B são os dois marcadores mais comumente estudados. O primeiro, seus níveis elevados após 72h associados com outros testes prognósticos, sugerem diagnóstico reservado. O uso da S100B, tau e outros biomarcadores ainda é incerto.
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Exames neurofisiológicos
A eletroencefalografia é amplamente utilizada na prática clínica para avaliar a atividade cortical e diagnóstico de crises epilépticas. Seu uso como uma ferramenta neuroprognóstica é promissora, mas a literatura é limitada por vários fatores.
É razoável considerar a presença de “status epilecticus” 72h ou mais da parada cardiorrespiratória como um prognóstico ruim, assim como a presença de supressão de surtos na ausência de sedação.
Os potenciais evocados somatosensitivos (SSEP) são obtidos estimulando o nervo mediano e avaliando a presença de uma onda N20 cortical. Ondas de SSEP N20 bilateralmente ausentes foram correlacionadas com mau prognóstico, mas a confiabilidade dessa modalidade é limitada, por exigir habilidades adequadas do operador e cuidado para evitar interferência elétrica de artefatos musculares ou do ambiente da UTI. Um benefício dos SSEPs é que eles estão sujeitos a menos interferência de medicamentos do que outras modalidades, como a eletroencefalografia.
Neuroimagem
A neuroimagem pode ser útil após a parada para detectar e quantificar a lesão cerebral estrutural. Tomografia de crânio (TC) e ressonância magnética (RM) são as duas modalidades mais comuns de neuroprognóstico.
Na TC, o edema cerebral pode ser quantificado com a razão entre as densidades (medida em unidades de Hounsfield) da substância cinzenta e da substância branca. O cérebro normal tem uma razão de aproximadamente 1,3, e a redução desta razão, depois do evento associado a outros testes prognósticos, sugerem prognóstico ruim
Na ressonância magnética, a lesão citotóxica pode ser medida como difusão restrita em imagem ponderada por difusão (DWI) e pode ser quantificada pelo ADC. Extensas áreas com restrição à difusão e redução aparente no coeficiente de difusão dois a sete dias depois da parada cardíaca, associada a outros testes, também sugerem prognóstico reservado.
Como vimos, o neuroprognóstico incorpora vários testes de diagnóstico que são sintetizados em uma avaliação multimodal abrangente, pelo menos 72 horas após o retorno à normotermia e com sedação e analgesia limitadas quanto possível. Importante conscientizar da possibilidade de potenciais erros nos testes de diagnóstico individuais. O tempo sugerido para o diagnóstico multimodal é mostrado abaixo:

Referências bibliográficas:
- American Heart Association Guidelines for cardiopulmonary resuscitation and emergency cardiovascular care. Part 3: Adult Basic and Advanced life Support: American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation.142, Issue 16_Suppl_2, 20 October 2020.
Autoria

Felipe Nobrega
Editor médico na Afya, em B2B. Neurologista com residência médica e mestrado em Neurologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutorando em Neurociências pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui título de especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Atua no corpo clínico do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, no Hospital CopaStar e em consultório particular. Tem experiência em neurologia clínica, neurociências, terapia intensiva e educação médica.
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