O Clinical Kidney Journal publicou um ensaio clínico sobre o papel dos inibidores do cotransportador sódio-glicose 2, ou iSGLT2, além do diabetes.
Já sabemos que essa classe confere proteção renal na doença renal crônica (DRC) diabética e não diabética, mas pacientes com glomerulonefrite imunomediada ativa, incluindo a nefrite lúpica (NL), foram sistematicamente excluídos dos grandes estudos.
Este trabalho se propõe justamente a avaliar esse cenário.
Como foi conduzido o estudo?
Trata-se de um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em centro único na Universidade de Mansoura, no Egito.
Foram incluídos 79 pacientes adultos com nefrite lúpica comprovada por biópsia e taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) superior a 30 mL/min/1,73 m².
Os participantes foram randomizados para receber:
- dapagliflozina 10 mg/dia, n = 38;
- placebo, n = 41.
O tratamento foi mantido por 12 meses, sempre em adição à terapia imunossupressora padrão.
O desfecho renal primário foi a variação percentual da excreção urinária de proteína em 24 horas.
Entre os desfechos secundários estavam a variação da TFGe e diversos parâmetros hematológicos avaliados no início e aos 12 meses, incluindo:
- hemoglobina;
- eritropoetina (EPO);
- hepcidina;
- ferritina;
- saturação de transferrina (TSAT).
A análise primária utilizou ANCOVA, ajustada para valores basais, idade e imunossupressão de base.
Quais foram os principais resultados?
Os achados podem ser resumidos em quatro pontos principais.
Proteinúria
A dapagliflozina associou-se a uma redução numérica da proteinúria em comparação ao placebo, porém a diferença não alcançou significância estatística.
Ao longo do seguimento, a proteinúria no grupo dapagliflozina caiu de forma constante a partir do mês 6, chegando a 0,50 g/24h no mês 12.
No grupo placebo, a proteinúria permaneceu mais elevada, em 0,61 g/24h.
As análises ajustadas e de sensibilidade confirmaram a ausência de efeito significativo do tratamento.
Função renal
Não houve diferença significativa na TFGe nem na inclinação, ou slope, da TFGe entre os grupos, em análises ajustadas ou não ajustadas.
A redução média da TFGe aos 12 meses foi semelhante entre os grupos: 8,74 versus 8,32 mL/min/1,73 m².
Parâmetros hematológicos
Não foram observadas diferenças significativas em:
- hemoglobina;
- prevalência de anemia;
- ferritina;
- TSAT;
- EPO;
- hepcidina;
- plaquetas.
Houve variações numéricas, como discreto aumento da hemoglobina e redução da hepcidina, mas sem significância estatística.
Segurança
A incidência global de eventos adversos foi comparável entre os grupos:
- 31,6% com dapagliflozina;
- 26,8% com placebo.
Não houve eventos adversos graves.
Os eventos mais frequentes foram:
- lesão renal aguda: 18,4% versus 7,3%;
- infecção urinária: 18,4% versus 14,6%.
A progressão para doença renal terminal ocorreu em um paciente de cada grupo, e nenhum novo sinal de segurança foi identificado.
Houve algum subgrupo com maior sinal de benefício?
Uma análise exploratória de subgrupos sugeriu possível tendência a maior resposta antiproteinúrica entre pacientes com proteinúria basal mais elevada ou disfunção renal moderada.
No entanto, vale a ressalva feita pelos próprios autores: essas análises foram post hoc, não pré-especificadas, sem interação estatisticamente significativa, e devem ser interpretadas apenas como geradoras de hipóteses.
Por que o resultado difere dos grandes ensaios de DRC?
Este é, talvez, o ponto mais instrutivo do artigo.
Nos ensaios de referência, como CREDENCE, DAPA-CKD e EMPA-KIDNEY, os iSGLT2 demonstraram benefício renal robusto. Porém, essas populações não incluíam pacientes com nefrite lúpica ativa.
Os autores argumentam que diferenças fisiopatológicas ajudam a explicar por que os achados na nefrite lúpica não espelham necessariamente os da DRC diabética.
A nefrite lúpica é conduzida sobretudo por deposição de imunocomplexos e lesão inflamatória.
Já a doença renal diabética sofre maior influência de fatores hemodinâmicos e metabólicos, justamente aqueles em que os iSGLT2 atuam.
Assim, qualquer efeito hemodinâmico da dapagliflozina pode ter sido atenuado pela lesão imunomediada em curso e pela imunossupressão concomitante.
Quais são as limitações?
Alguns pontos pedem cautela na leitura dos resultados:
- a amostra foi modesta, com poder estatístico limitado para detectar efeitos pequenos a moderados;
- o seguimento de 12 meses provavelmente é insuficiente para avaliar desfechos renais de longo prazo;
- a proteinúria é intrinsecamente variável;
- índices de atividade lúpica, como SLEDAI e BILAG, não foram coletados sistematicamente;
- os achados de subgrupo são apenas exploratórios;
- o desenho unicêntrico limita a generalização.
Mensagem prática
Neste ensaio randomizado, a dapagliflozina como terapia adjuvante por 12 meses na nefrite lúpica associou-se a uma redução numérica da proteinúria, mas sem significância estatística após ajuste.
Também não houve efeito significativo sobre função renal, slope da TFGe ou parâmetros hematológicos.
O perfil de segurança de curto prazo foi aceitável, sem novos sinais relevantes, embora lesão renal aguda e infecção urinária tenham sido numericamente mais frequentes no grupo dapagliflozina.
O grande mérito do estudo é fornecer dados randomizados em uma população historicamente excluída dos grandes ensaios de iSGLT2.
Na prática, o sinal observado é interessante, mas ainda insuficiente para mudar conduta. São necessários estudos multicêntricos maiores, com poder adequado e seguimento mais longo, antes de recomendar dapagliflozina rotineiramente como adjuvante na nefrite lúpica.
Autoria

Ester Ribeiro
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