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Nefrologia27 agosto 2026

Dapagliflozina na nefrite lúpica reduz proteinúria?

Ensaio avaliou dapagliflozina na nefrite lúpica e mostrou redução numérica de proteinúria, sem significância estatística.
Por Ester Ribeiro

O Clinical Kidney Journal publicou um ensaio clínico sobre o papel dos inibidores do cotransportador sódio-glicose 2, ou iSGLT2, além do diabetes.

Já sabemos que essa classe confere proteção renal na doença renal crônica (DRC) diabética e não diabética, mas pacientes com glomerulonefrite imunomediada ativa, incluindo a nefrite lúpica (NL), foram sistematicamente excluídos dos grandes estudos.

Este trabalho se propõe justamente a avaliar esse cenário.

Como foi conduzido o estudo?

Trata-se de um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em centro único na Universidade de Mansoura, no Egito.

Foram incluídos 79 pacientes adultos com nefrite lúpica comprovada por biópsia e taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) superior a 30 mL/min/1,73 m².

Os participantes foram randomizados para receber:

  • dapagliflozina 10 mg/dia, n = 38;
  • placebo, n = 41.

O tratamento foi mantido por 12 meses, sempre em adição à terapia imunossupressora padrão.

O desfecho renal primário foi a variação percentual da excreção urinária de proteína em 24 horas.

Entre os desfechos secundários estavam a variação da TFGe e diversos parâmetros hematológicos avaliados no início e aos 12 meses, incluindo:

  • hemoglobina;
  • eritropoetina (EPO);
  • hepcidina;
  • ferritina;
  • saturação de transferrina (TSAT).

A análise primária utilizou ANCOVA, ajustada para valores basais, idade e imunossupressão de base.

Quais foram os principais resultados?

Os achados podem ser resumidos em quatro pontos principais.

Proteinúria

A dapagliflozina associou-se a uma redução numérica da proteinúria em comparação ao placebo, porém a diferença não alcançou significância estatística.

Ao longo do seguimento, a proteinúria no grupo dapagliflozina caiu de forma constante a partir do mês 6, chegando a 0,50 g/24h no mês 12.

No grupo placebo, a proteinúria permaneceu mais elevada, em 0,61 g/24h.

As análises ajustadas e de sensibilidade confirmaram a ausência de efeito significativo do tratamento.

Função renal

Não houve diferença significativa na TFGe nem na inclinação, ou slope, da TFGe entre os grupos, em análises ajustadas ou não ajustadas.

A redução média da TFGe aos 12 meses foi semelhante entre os grupos: 8,74 versus 8,32 mL/min/1,73 m².

Parâmetros hematológicos

Não foram observadas diferenças significativas em:

  • hemoglobina;
  • prevalência de anemia;
  • ferritina;
  • TSAT;
  • EPO;
  • hepcidina;
  • plaquetas.

Houve variações numéricas, como discreto aumento da hemoglobina e redução da hepcidina, mas sem significância estatística.

Segurança

A incidência global de eventos adversos foi comparável entre os grupos:

  • 31,6% com dapagliflozina;
  • 26,8% com placebo.

Não houve eventos adversos graves.

Os eventos mais frequentes foram:

  • lesão renal aguda: 18,4% versus 7,3%;
  • infecção urinária: 18,4% versus 14,6%.

A progressão para doença renal terminal ocorreu em um paciente de cada grupo, e nenhum novo sinal de segurança foi identificado.

Houve algum subgrupo com maior sinal de benefício?

Uma análise exploratória de subgrupos sugeriu possível tendência a maior resposta antiproteinúrica entre pacientes com proteinúria basal mais elevada ou disfunção renal moderada.

No entanto, vale a ressalva feita pelos próprios autores: essas análises foram post hoc, não pré-especificadas, sem interação estatisticamente significativa, e devem ser interpretadas apenas como geradoras de hipóteses.

Por que o resultado difere dos grandes ensaios de DRC?

Este é, talvez, o ponto mais instrutivo do artigo.

Nos ensaios de referência, como CREDENCE, DAPA-CKD e EMPA-KIDNEY, os iSGLT2 demonstraram benefício renal robusto. Porém, essas populações não incluíam pacientes com nefrite lúpica ativa.

Os autores argumentam que diferenças fisiopatológicas ajudam a explicar por que os achados na nefrite lúpica não espelham necessariamente os da DRC diabética.

A nefrite lúpica é conduzida sobretudo por deposição de imunocomplexos e lesão inflamatória.

Já a doença renal diabética sofre maior influência de fatores hemodinâmicos e metabólicos, justamente aqueles em que os iSGLT2 atuam.

Assim, qualquer efeito hemodinâmico da dapagliflozina pode ter sido atenuado pela lesão imunomediada em curso e pela imunossupressão concomitante.

Quais são as limitações?

Alguns pontos pedem cautela na leitura dos resultados:

  • a amostra foi modesta, com poder estatístico limitado para detectar efeitos pequenos a moderados;
  • o seguimento de 12 meses provavelmente é insuficiente para avaliar desfechos renais de longo prazo;
  • a proteinúria é intrinsecamente variável;
  • índices de atividade lúpica, como SLEDAI e BILAG, não foram coletados sistematicamente;
  • os achados de subgrupo são apenas exploratórios;
  • o desenho unicêntrico limita a generalização.

Mensagem prática

Neste ensaio randomizado, a dapagliflozina como terapia adjuvante por 12 meses na nefrite lúpica associou-se a uma redução numérica da proteinúria, mas sem significância estatística após ajuste.

Também não houve efeito significativo sobre função renal, slope da TFGe ou parâmetros hematológicos.

O perfil de segurança de curto prazo foi aceitável, sem novos sinais relevantes, embora lesão renal aguda e infecção urinária tenham sido numericamente mais frequentes no grupo dapagliflozina.

O grande mérito do estudo é fornecer dados randomizados em uma população historicamente excluída dos grandes ensaios de iSGLT2.

Na prática, o sinal observado é interessante, mas ainda insuficiente para mudar conduta. São necessários estudos multicêntricos maiores, com poder adequado e seguimento mais longo, antes de recomendar dapagliflozina rotineiramente como adjuvante na nefrite lúpica.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Editora médica na Afya. Médica pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Camp), com residência médica em Clínica Médica e Nefrologia pelo Hospital Santa Marcelina (2016). Além da atuação na Afya, também atenda em consultório particular e clínica de diálise.

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