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Nefrologia19 abril 2026

ACP 2026: Monitoramento contínuo de glicose no manejo do diabetes

Entenda quando indicar CGM, como interpretar AGP e quais benefícios a monitorização contínua traz ao manejo do diabetes.
Por Ester Ribeiro

Na sessão apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, a Dra. Stephanie Kim, da Universidade de Washington, destacou que a familiaridade do internista com a monitorização contínua de glicose ainda é limitada, apesar do crescimento consistente das evidências que sustentam seu uso rotineiro. A principal mensagem foi clara: o CGM já deixou de ser uma tecnologia restrita a nichos e passou a ocupar papel cada vez mais relevante no cuidado ambulatorial do diabetes.

De onde viemos

A história da monitorização glicêmica começa em 1970, com o surgimento do primeiro glicosímetro de sangue, e avança para 1999, quando a FDA aprovou o primeiro monitor contínuo de glicose. Desde então, a tecnologia evoluiu de forma marcante. Enquanto o glicosímetro tradicional oferece apenas uma medida pontual, o CGM registra a glicose no fluido intersticial a cada um a cinco minutos, 24 horas por dia, gerando uma curva contínua de dados em tempo real.

Um ponto importante destacado na aula foi que as leituras do CGM não são idênticas às da glicemia capilar. Como o sensor mede glicose intersticial, existe um atraso fisiológico em relação ao sangue, algo particularmente relevante no tratamento da hipoglicemia.

Como o dispositivo funciona

O sistema é composto por três elementos: o sensor, implantado no tecido subcutâneo; o transmissor, que envia os dados sem fio; e o leitor ou smartphone, que exibe e armazena as informações. Nos modelos mais recentes, sensor e transmissor já costumam vir integrados. A tecnologia também vem se expandindo para pessoas com diabetes tipo 2 não usuárias de insulina e até para indivíduos sem diabetes.

Evidências que sustentam o uso

Os estudos IMPACT, REPLACE, DIAMOND e MOBILE mostraram benefícios do CGM no controle glicêmico e na redução de episódios de hipoglicemia. Outro ponto relevante é que, ao interromper o uso do dispositivo, os ganhos glicêmicos tendem a se perder, o que reforça a importância da continuidade.

A aula também citou estudo publicado no JAMA com 9.258 adultos com diabetes tipo 2, no qual o uso mais frequente do sensor, acima de 75% do tempo, se associou a maior redução da A1C, independentemente do esquema terapêutico. Além disso, um estudo observacional de 2024 com quase 75 mil adultos com DM2 mostrou queda sustentada de hospitalizações, visitas à emergência e valores médios de A1C ao longo de 12 meses.

Quando prescrever

As diretrizes da American Diabetes Association de 2026 recomendam CGM desde o diagnóstico do diabetes e em qualquer momento subsequente para pacientes em insulinoterapia, em uso de medicamentos não insulínicos com risco de hipoglicemia e em outras situações nas quais o dispositivo auxilie no manejo clínico. Para pacientes em uso de insulina, o benefício é maior quanto mais próximo do uso diário contínuo.

Entre as funcionalidades de maior valor prático, a palestrante destacou os alarmes de hipo e hiperglicemia, as setas de tendência, o compartilhamento em tempo real com cuidadores e o registro de refeições, atividade física e doses de insulina.

Como interpretar os dados

A interpretação deve seguir método sistemático, centrado no Relatório de Perfil Ambulatorial de Glicose (AGP). A proposta apresentada foi baseada em quatro perguntas:

  1. O tempo com CGM ativo é de pelo menos 70% ao longo de 14 dias?
  2. O paciente está atingindo as metas glicêmicas, avaliadas por glicose média, GMI e variabilidade glicêmica?
  3. Existem padrões identificáveis de hiper ou hipoglicemia?
  4. Há necessidade de ajuste terapêutico com base nesses dados e no contexto clínico?

O que o caso clínico mostrou

O caso final ilustrou bem o valor do CGM: um homem de 70 anos com DM1, A1C aparentemente controlada em 6,4%, mas com 29% do tempo acima de 180 mg/dL, 4% abaixo de 54 mg/dL e variabilidade glicêmica de 38,2%. O AGP revelou hiperglicemia pós-prandial e hipoglicemia noturna, algo invisível à A1C isolada. A mudança do esquema de NPH para glargina e lispro mostrou como o CGM pode expor padrões mascarados pelo laboratório convencional.

Questões práticas e acesso

A aula também abordou dúvidas frequentes sobre adesividade, irritação cutânea, leituras imprecisas, limitações em exames de imagem e uso hospitalar. Foi reforçado que o CGM ainda não tem aprovação da FDA para tomada de decisão terapêutica isolada durante a internação, funcionando como ferramenta adjuntiva ao lado da glicemia capilar ou laboratorial.

Por fim, a palestrante destacou que o impacto psicológico do dispositivo não deve ser negligenciado. O excesso de monitorização pode contribuir para fadiga com o aparelho e sofrimento emocional relacionado ao diabetes, o que exige abordagem individualizada.

O que muda na prática

O CGM se consolida como ferramenta poderosa para o cuidado do diabetes, com potencial de reduzir complicações e melhorar decisões clínicas. Na prática, isso exige saber quando indicar, como interpretar o AGP e reconhecer os desafios reais de adesão para que a tecnologia se traduza em benefício concreto ao paciente.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Graduada em Medicina pela PUC  de Campinas. Médica Nefrologista pelo Hospital Santa Marcelina de Itaquera. Título em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia.

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