A lesão renal aguda é uma das condições mais frequentes e desafiadoras no paciente hospitalizado. Na sessão Nephrology in the Inpatient Setting: A Case-Based Approach, apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, o foco esteve nas decisões que realmente mudam conduta: quando internar, quando iniciar diálise e como manejar pacientes já em terapia dialítica domiciliar.

Por que isso importa
A LRA está associada a aumento de mortalidade, tempo de internação e risco de progressão para doença renal crônica. Ainda assim, muitas decisões seguem dependendo mais de interpretação clínica do que de valores isolados de creatinina.
LRA ou progressão de DRC: nem toda creatinina elevada é aguda
Um ponto central da sessão foi evitar o diagnóstico automático de LRA diante de creatinina elevada. Fármacos como trimetoprima, dolutegravir e cimetidina podem elevar a creatinina sem lesão renal verdadeira, por interferirem na secreção tubular.
Além disso, pequenas elevações após o início de IECA/BRA ou inibidores de SGLT2 podem ser esperadas e refletem efeito hemodinâmico protetor, não devendo ser confundidas com injúria renal.
Classificação e diagnóstico: o básico bem feito
A LRA deve ser classificada em pré-renal, intrínseca ou pós-renal, e a sessão reforçou o papel central da urinálise nessa etapa. Sedimento urinário ativo, com hemácias, cilindros e proteinúria, sugere etiologia intrínseca e pode sinalizar doenças graves, como a glomerulonefrite rapidamente progressiva.
Os critérios KDIGO seguem como padrão diagnóstico, mas o contexto clínico continua essencial para interpretação adequada.
“Tempo é rim”: não perder causas graves
Embora grande parte dos casos de LRA esteja relacionada a hipovolemia ou necrose tubular aguda, a sessão alertou para o risco de retardar o diagnóstico de condições potencialmente devastadoras, como a GNRP. Nesses casos, a presença de hematúria com cilindros hemáticos exige avaliação urgente, consideração de imunossupressão precoce e indicação oportuna de biópsia renal.
Quando iniciar diálise: menos é mais
As indicações clássicas para diálise continuam bem resumidas pelo mnemônico AEIOU: acidose, distúrbios eletrolíticos, intoxicações, sobrecarga volêmica e uremia.
A mensagem prática foi clara: iniciar diálise precocemente, sem indicação clínica objetiva, não reduz mortalidade. Em contrapartida, estratégias mais conservadoras, aguardando critérios bem definidos, podem aumentar a chance de recuperação da função renal. A sessão também lembrou que a hemodiálise não é neutra do ponto de vista fisiológico e pode reduzir a perfusão renal residual.
Paciente em diálise domiciliar: abordagem diferente
Pacientes em hemodiálise domiciliar ou diálise peritoneal frequentemente chegam ao hospital com melhor controle clínico, o que permite abordagem menos urgente em relação à necessidade de nova sessão.
Na diálise peritoneal, a atenção deve se voltar especialmente para constipação, principal causa de falha de drenagem, além de hipocalemia e uso criterioso de soluções hipertônicas.
Revisão medicamentosa é obrigatória
A internação é momento-chave para rever doses e suspender medicamentos potencialmente nocivos. A sessão destacou a importância de interromper drogas em contexto de sick day, como iSGLT2, IECA/BRA, diuréticos e AINEs, além de evitar baclofeno em DRC avançada e reavaliar o uso de quelantes de fósforo, sobretudo em pacientes em jejum.
O que muda na prática
O manejo da LRA no hospital exige menos automatismo e mais raciocínio clínico. Na prática, isso significa diferenciar elevações benignas de creatinina de verdadeira injúria renal, valorizar a urinálise como ferramenta diagnóstica central, iniciar diálise apenas quando houver indicação clínica clara e individualizar o cuidado de pacientes já em terapia dialítica.
Mais do que tratar números, o objetivo é preservar função renal e evitar intervenções que possam atrasar a recuperação.
Autoria

Ester Ribeiro
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