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Medicina Física e Reabilitação25 outubro 2019

A sarcopenia deve ser lembrada na prática clínica

A sarcopenia é considerada uma doença e possui o CID-10 de insuficiência muscular. Todavia, ainda é negligenciada e subtratada.

Por Carmen Orrú

A sarcopenia é considerada uma doença e possui o CID-10 de insuficiência muscular. Todavia, ainda é negligenciada e subtratada. É um distúrbio do sistema muscular, caracterizada por alterações da arquitetura micro e macroscópica, progressivo (se não tratado) e generalizado.

Leva a distúrbios da mobilidade; aumenta o risco de quedas e fraturas; prejudica a capacidade de realizar atividades da vida diária; reduz qualidade de vida e independência pessoal.

médico atendendo paciente idoso com sarcopenia

Revisão sobre sarcopenia

Epidemiologia

A prevalência em pessoas com 60 a 70 anos é relatada em 5 a 13%, enquanto aumenta para 11 a 50% em pessoas maiores de 80 anos, a depender dos critérios utilizados para o diagnóstico. Em São Paulo, Brasil, a prevalência na população geral é de cerca de 15%.

Fisiopatologia

Com o envelhecimento, basicamente, ocorre um desbalanço entre catabolismo e anabolismo muscular, resultando em perda de massa muscular em quantidade e qualidade. Esses fatores também contribuem para o aumento da gordura visceral e diminuição da densidade mineral óssea. São eles:

  • Diminuição do tamanho e do número das fibras, principalmente fibras do tipo II;
  • Disfunção mitocondrial nos miócitos;
  • Alterações neurais e hormonais: diminuição dos níveis de testosterona e estrogênio, hormônio de crescimento e do fator de crescimento insulina-like (IGF-1);
  • Associação a doenças: insuficiência avançada de órgãos (coração, pulmão, fígado, rim, cérebro), doenças inflamatórias crônicas, malignidade ou doenças endócrinas;
  • Associada à nutrição: ingestão inadequada de calorias ou proteínas na dieta, distúrbios gastrointestinais;
  • Comportamento sedentário, atividade física reduzida ao longo da vida, Síndrome da Imobilidade;
  • Abuso de álcool e uso de tabaco.

Síndromes associadas à sarcopenia

As principais condições que podem estar associadas a sarcopenia são: desnutrição, caquexia (câncer, cardiomiopatia congestiva e doença renal em estágio terminal), síndrome de fragilidade e obesidade sarcopênica.

Critérios para o diagnóstico de sarcopenia

O consenso europeu da European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP) desenvolveu três critérios para o diagnóstico:

  1. Baixa força muscular;
  2. Baixa quantidade ou qualidade muscular;
  3. Baixo desempenho físico;

A provável sarcopenia é identificada pelo critério 1. O diagnóstico é confirmado pela documentação adicional do critério 2. E se todos os critérios 1, 2 e 3 forem cumpridos, a sarcopenia é considerada grave.

Sarcopenia ou Dinapenia? Por que os idosos perdem força?

Abordagem diagnóstica

O paciente ou a família relata sinais ou sintomas como quedas, caminhada lenta, dificuldade em subir escadas ou perda de peso. Nesses casos, é recomendado, pela EWGSOP, a realização de testes adicionais. Alguns podem ser feitos na própria consulta médica (os links que demonstram os testes estão disponibilizados no fim do texto).

1. Aplicação do questionário SARC-F (Sarcopenia Risk Screening)

É um questionário da percepção do paciente sobre suas limitações de força, capacidade de caminhar, levantar de uma cadeira, subir escadas ou quedas. Este questionário possui sensibilidade moderada e alta especificidade para prever baixa força muscular.

2. Testes clínicos de medição da sarcopenia

a. Força de preensão palmar com dinamometro de mão (Jamar dynamometer)
b. Força de preensão correlaciona-se moderadamente com a força global
c. Teste de elevação da cadeira

Avalia-se a força principalmente do quadríceps. Pede-se para o paciente se levantar e sentar de uma cadeira por cinco vezes sem usar apoio de mãos ou contar quantas vezes o paciente consegue realizar esse movimento em 30 segundos.

3. Exames subsidiários para medição da quantidade muscular

a. Ressonância Magnética (RM) ou Tomografia Computadorizada (TC) – consideradas padrões-ouro para avaliação não invasiva da quantidade de massa muscular. Tem altos custos e são utilizadas para pesquisa cientifica.
b. DXA (Absorciometria de raios X de dupla energia)
c. BIA (análise de impedância bioelétrica)

A vantagem é de ser acessível e portátil.

4. Avaliação de performance física

O desempenho físico é definido como uma função do corpo inteiro, sendo medido objetivamente através da locomoção. Este é um conceito multidimensional que não envolve apenas músculos, mas também a função nervosa central, periférica e equilíbrio. Existem muitos testes para avaliação, os mais comuns são:

  • Velocidade da marcha (caminhada de 4 metros) – considerado rápido, seguro e altamente confiável para sarcopenia; velocidade mais lenta que 0,8 metros/segundo é um indicador de sarcopenia grave, pela EWGSOP.
  • Timed-Up and Go teste (TUG) – pede-se que o paciente se levante de uma cadeira, caminhe 3 metros, vire-se, retorne e sente-se novamente. Serve como uma avaliação do equilíbrio dinâmico.

Conduta

A manutenção de um estilo de vida saudável durante toda a vida é o melhor caminho para a prevenção da sarcopenia. Quando instalada, devem ser orientados correções nutricionais juntamente com programa de exercícios físicos. O manejo deve ser preferencialmente multidisciplinar.

Atualmente, nenhuma medicação está aprovada para o tratamento.

Orientações nutricionais

A ingestão diária recomendada de proteínas em idosos sarcopênicos é de 1,2 a 1,6 grama por quilo de peso corporal, com exceção de pessoas com disfunção renal significativa. Alguns suplementos mostram melhorias da massa e função muscular, como leucina, β-hidroxi β-metilbutirato (HMB) e creatina, mas devem ser prescritos por um Nutrólogo ou Nutricionista.

Também é recomendada a correção da deficiência de vitamina D – necessária para a função muscular adequada.

A polêmica da reposição hormonal

A literatura científica de qualidade tem feito estudos com esteroides androgênios e hormônio do crescimento, contudo ainda são necessários mais estudos de segurança a longo prazo e avaliação de outros desfechos (redução do risco de quedas e de fraturas, diminuição da institucionalização e independência funcional). Na prática clínica eles são utilizados com ressalvas.

Programa de exercícios físicos

A prática de exercícios de resistência física ainda é a intervenção mais efetiva. O treinamento físico resistido e aeróbio aumenta a força e a massa muscular e melhora o acúmulo de proteínas nos músculos esqueléticos.  Também ocorrem mudanças na inervação e padrão de ativação muscular com o treinamento, melhorando o desempenho motor.

Take-home message

A sarcopenia deve ser lembrada e tratada na prática clínica, pois é fator de piora da funcionalidade nos pacientes. As intervenções focam basicamente em melhorar o estilo de vida, também usadas para tratar várias outras doenças crônicas. Os benefícios a longo prazo são o menor número de quedas e fraturas, aumento da mobilidade e independência funcional.

Testes e parâmetros de normalidade:

OUÇA TAMBÉM NOSSO PODCAST SOBRE O TEMA: Sarcopenia

Referências:

  • Cruz-Jentoft JA, et al. Sarcopenia: European consensus on definition and diagnosis: Report of the European Working Group on Sarcopenia in Older People. Age Ageing. 2010 Jul;39(4):412-23. doi: 10.1093/ageing/afq034. Epub 2010 Apr 13. doi: 10.1093/ageing/afq034.
  • Cruz-Jentoft JA, Sayer AA. Sarcopenia. Lancet 2019; 393: 2636–46. Vol 393 June 29, 2019. http://dx.doi.org/10.1016/ S0140-6736(19)31138-9.
  • Dhillon RJ, Hasni S. Pathogenesis and Management of Sarcopenia. Clin Geriatr Med. 2017 Feb;33(1):17-26. doi: 10.1016/j.cger.2016.08.002. DOI:10.1016/j.cger.2016.08.002.
  • Silva e cols. Sarcopenia Associada ao Envelhecimento: Aspectos Etiológicos e Opções Terapêuticas. Rev Bras Reumatol, v. 46, n.6, p. 391-397, nov/dez, 2006.
  • Alexandre TS, et al. Prevalence and associated factors of sarcopenia among elderly in brazil: findings from the sabe study. The Journal of Nutrition, Health&Aging. Volume 18, Number 3, 2014.
  • Naveira MA, et al. Sarcopenia: definição, aspectos epidemiológicos e fisiopatologia. Revista UNILUS Ensino e Pesquisa v. 14, n. 37, out./dez. 2017 ISSN 2318-2083.

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