A incorporação de recursos de inteligência artificial (IA) na medicina tem ido além do campo do diagnóstico por imagem e da análise de dados clínicos, alcançando hoje áreas historicamente pouco priorizadas, como a saúde do homem. A dificuldade de acesso e as barreiras simbólicas – como o estigma em torno da busca por autocuidado – tornam o impacto potencial da IA ainda mais significativo. Ao possibilitar maior precisão em algumas análises, triagens automatizadas, intervenções mais personalizadas e suporte educacional acessível, a IA surge como uma ferramenta capaz de ampliar o alcance e a qualidade do cuidado urológico e masculino, em áreas que incluem infertilidade, disfunção erétil, deficiência de testosterona e doenças urológicas estruturais.
Nos últimos anos, modelos de machine learning, deep learning e processamento de linguagem natural vêm sendo aplicados para otimizar a triagem diagnóstica, prever desfechos e aprimorar a relação médico-paciente. No campo da infertilidade, por exemplo, técnicas de IA têm mostrado desempenho superior aos métodos manuais tradicionais na avaliação da morfologia espermática e na seleção de embriões para fertilização in vitro. Em técnicas de microscopia digital holográfica, redes neurais hoje são capazes de alcançar sensibilidade de 97,5% e especificidade de 95,3%, superando a variabilidade humana. Esses resultados possibilitam uma padronização do processo diagnóstico e uma redução de tempo e custo da análise laboratorial, permitindo decisões mais ágeis e baseadas em evidências.
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Na disfunção erétil (DE), condição de alta prevalência e grande carga psicossocial, a IA tem papel crescente tanto no diagnóstico quanto no aconselhamento. Modelos preditivos baseados em machine learning vêm sendo capazes de estimar o risco de DE após prostatectomia ou radioterapia, integrando variáveis clínicas e genômicas. Estudos recentes relataram acurácias superiores a 80% na predição de DE pós-operatória, enquanto algoritmos aplicados à análise de ressonância magnética cerebral identificam alterações estruturais associadas a fuga venosa com sensibilidade de 93,3% e especificidade de 99%. Ao mesmo tempo, dispositivos vestíveis e sensores têxteis de microtúbulos conectados a sistemas de IA estão viabilizando monitoramento domiciliar da tumescência peniana noturna, promovendo diagnósticos quantitativos menos invasivos.
A aplicação de IA também se estende à doença de Peyronie e à deficiência de testosterona, dois temas com forte impacto na qualidade de vida masculina e que carecem de métodos diagnósticos objetivos. Para a doença de Peyronie, redes neurais aplicadas a imagens bidimensionais alcançaram precisão de até 99,4% na detecção de curvaturas penianas, reduzindo erros e padronizando o planejamento cirúrgico. Já na deficiência de testosterona, algoritmos de IA têm aprimorado questionários clínicos, como o Aging Males’ Symptoms Questionnaire, por meio de otimização genética e integração com dados laboratoriais e demográficos. Essa convergência de dados pode reduzir o subdiagnóstico que é uma tendência que ainda caracteriza a condição.
Os chamados chatbots representam outro eixo inovador. Ferramentas de linguagem natural – incluindo ChatGPT e Copilot – têm sido avaliadas como instrumentos de apoio à educação e aconselhamento em temas sensíveis, como disfunção erétil, ejaculação precoce e vasectomia. Apesar de alguns estudos apontarem limitações quanto à completude e legibilidade das respostas, a tendência é de melhoria, principalmente quando combinadas à supervisão profissional e à curadoria do conteúdo. Nesse sentido, a IA contribui para mitigar barreiras culturais, oferecendo um espaço de orientação inicial e empoderamento informativo ao paciente, sem substituir a consulta médica.
O panorama futuro delineia uma integração completa da IA ao ciclo do cuidado masculino – da triagem à reabilitação -, com potencial de reduzir desigualdades de acesso, otimizar recursos e ampliar a personalização terapêutica. Contudo, a incorporação responsável dessas tecnologias exige enfrentamento de desafios éticos e regulatórios: garantir transparência algorítmica, proteger a privacidade dos dados e evitar vieses que possam reproduzir desigualdades históricas de gênero, raça ou renda. O desenvolvimento de sistemas auditáveis e treinados em bases populacionais diversas é condição essencial para que a IA se torne, de fato, uma aliada da medicina centrada na pessoa.
O uso ético e crítico da IA não implica abdicar do julgamento clínico, mas sim potencializá-lo. O profissional médico que souber utilizar essas ferramentas de modo criterioso poderá ser capaz de oferecer cuidado mais preciso, empático e eficiente. No campo da saúde do homem – frequentemente marcado pela omissão e pelo tabu -, essa aliança entre inteligência humana e artificial pode ser um fator determinante para reaproximar o homem de seu próprio cuidado.
Autoria

Renato Bergallo
Editor-chefe de Medicina de Família e Comunidade do Whitebook ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) ⦁ Residência em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em Administração em Saúde (UERJ) ⦁ Mestre em Saúde da Família (UFF) ⦁ Doutorando em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) ⦁ Direto Médico na Conviver Health ⦁ Professor do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da UERJ
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