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Medicina de Emergência28 julho 2023

Como cuidar de alguém com intoxicação alcoólica no plantão?

Neste período do ano é importante estar preparado para atender diversos tipos de condições, como a intoxicação alcoólica.

O etanol é um álcool solúvel em água que atravessa rapidamente a membrana celular. Sua absorção ocorre pelo trato gastrointestinal, principalmente no duodeno e restante do intestino delgado (em torno de 80%) e no estômago (em torno de 20%). Com o paciente em jejum (tempo de esvaziamento gástrico e trânsito intestinal melhorados), os níveis máximos de etanol no sangue são atingidos de 30-90 minutos após a ingestão.

Leia mais: Ácido tranexâmico ajuda no desfecho de longo prazo em pacientes com trauma?

A via primária de metabolismo do álcool ocorre principalmente no fígado, pela enzima álcool desidrogenase, que também está presente na mucosa gástrica e tem quantidade reduzida em mulheres (esse fato, combinado com o menor volume de distribuição, explica o porquê das mulheres serem mais susceptíveis à intoxicação alcoólica).

A intoxicação aguda por etanol se inicia a partir da ingestão de aproximadamente 360 mL de cerveja ou 50 mL de destilados, porém a apresentação clínica varia em função da história de abuso, superfície corporal, comorbidades e até susceptibilidade genética.

Os sinais e sintomas de intoxicação podem incluir fala arrastada, nistagmo, comportamento desinibido, incoordenação motora, marcha instável, comprometimento da memória, obnubilação e coma. Hipotensão e taquicardia podem ocorrer devido à vasodilatação periférica provocada pelo etanol ou secundária à perda volêmica. Podem ocorrer vários distúrbios metabólicos, sendo os principais: hipoglicemia, hiperlactatemia, hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia e hipofosfatemia.

A gravidade da intoxicação leva ao quadro de rebaixamento do nível de consciência, com predisposição a vômitos, broncoaspiração e hipoxemia, além de arritmias cardíacas.

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Abordagem prática da intoxicação alcoólica

Imagine-se em um plantão no box de emergência quando um grupo de pessoas que estavam em uma festa traz um amigo desacordado. A história é que ele “bebeu demais”. Por onde começar?

Usaremos uma estratégia em dois caminhos que devem ocorrer de modo paralelo: suporte clínico e informação/história.

Suporte clínico na intoxicação alcoólica

  1. Manejo de vias aéreas, oxigenação e circulação.
  2. Avaliar presença de lesões traumáticas. A resposta pupilar inadequada pode ser indício de lesão estrutural cerebral e déficit focal.
    1. Em caso de trauma ou déficit neurológico focal: solicite tomografia computadorizada de crânio e coluna cervical.
  3. Determine rapidamente a glicemia capilar do paciente e corrija-a com solução de glicose 50% (entre 30-40 mL por via endovenosa) em casos de hipoglicemia (glicemia capilar < 70 mg/dL).
  4. Hidratação com cristaloides com bolus inicial de 10-20 ml/kg, seguido por manutenção de 20-30 mL/kg/24h para pacientes desidratados. Adicione solução de glicose 50% a 200 ml à etapa de manutenção.
  5. Pacientes comatosos devem receber ao menos 100 mg de tiamina por via parenteral para prevenir/tratar encefalopatiade Wernicke.
  6. Vômitos são frequentes e podem evoluir para broncoaspiração (avalie o uso de antieméticos, manutenção do paciente em decúbito lateral direito e até necessidade de proteção de vias aéreas com intubação orotraqueal).
  7. Lavagem gástrica e carvão ativado não são úteis para manejo da intoxicação alcoólica devido à rápida absorção deste no trato gastrintestinal.
  8. Solicite exames laboratoriais em pacientes com quadro de maior gravidade (rebaixamento do nível de consciência, uso de outras drogas associadas, trauma ou déficit neurológico focal): hemograma, ureia, creatinina, gasometria arterial, sódio, potássio, magnésio, bilirrubinas totais e frações, fosfatase alcalina, gamaglutamil transferase, aspartato aminotransferase , alanina aminotransferase, proteínas totais e frações, tempo de protrombina e proteína C-reativa.

Informação/história

  1. Consulte o próprio paciente, se possível, familiares, amigos ou acompanhantes sobre como se deu a intoxicação, além de outras drogas que possam ter sido utilizadas (incluindo medicações de uso contínuo ou recente). Lembre-se de que depressores do sistema nervoso central, como heroína e benzodiazepínicos, potencializam o efeito do álcool.
  2. Consulte histórico de comorbidades do paciente, principalmente cardiopatias.

Resolvida a intercorrência clínica, com paciente assintomático, não representando um perigo para si ou para os outros e ausência de critérios de internação, o paciente pode receber alta médica. Em caso de abuso de substâncias, o paciente deverá ser encaminhado para assistência especializada.

Veja também: Albumina na Medicina Interna: eficácia versus futilidade

Um algo a mais (ou dois)…

  • Sempre que estiver frente a um caso de intoxicação aguda entre em contato com o Centro de Intoxicações de sua região, onde há equipe preparada para orientar sobre o manejo e as peculiaridades das síndromes clínicas relacionadas às drogas e substâncias.
  • A metadoxina é uma droga que está sendo estudada devido ao efeito de diminuir a meia-vida do etanol no sangue, sendo um “antídoto” para esse tipo de intoxicação. Porém, até o momento só foi utilizada em estudos, não sendo comercializada.
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