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Medicina de EmergênciaOUT 2019

Caso clínico: mulher de 94 anos, com diarreia e hiporexia

Dona Maria tem 94 anos, é diabética e está acamada há um ano. Compareceu à emergência com relato de estar comendo menos e apresentar diarreia há 2 semanas.

Tempo de leitura: [rt_reading_time] minutos.

Dona Maria tem 94 anos, é diabética e está acamada há um ano desde que teve uma fratura no fêmur. Compareceu à emergência acompanhada do filho com relato de a mãe estar comendo menos e apresentar diarreia há duas semanas. Caracteriza a diarreia como eliminação de fezes cinco vezes ao dia em pequena quantidade e de aspecto pastoso. Tem feito uso de loperamida para tentar resolver esta questão. Nega Febre.

Filho relata que observou piora no quadro clínico depois que iniciou tratamento para depressão com amitriptilina.

Além disso, refere que tem baixa ingesta de líquidos, pois não sente sede.

Medicações em uso: metformina e amitriptilina.

Ao exame:

  • Bom estado geral, corada, orientada no tempo e no espaço, interage bem com o examinador;
  • PA: 120×60 FC:70;
  • Ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações;
  • Abdome: distendido, difusamente doloroso à palpação, algo tenso em fossa ilíaca esquerda;
  • Extremidades: pulsos periféricos palpáveis, sem sinais de edema, úlcera de pressão pequena em calcâneo direito;
  • Dorso íntegro;
  • Toque retal: fezes pastosas, sem sinais de sangramento.

A radiografia de abdome revelou a seguinte imagem:

Na radiografia, podemos observar em região pélvica uma imagem em “miolo de pão”.

Qual é o diagnóstico?

Trata-se de um caso de fecaloma, formação de fezes muito endurecidas no cólon sigmoide e reto, que não podem ser eliminadas espontaneamente. Neste caso, ocorreu a chamada “diarreia paradoxal”: a irritação da mucosa retal pela presença do fecaloma leva à produção de grande quantidade de muco pelo tecido epitelial da região, que se assemelha a fezes diarreicas, e pode ser referido pelo paciente ou familiares como tal. Por engano, eventualmente podem ser usadas drogas antidiarreicas nessa situação, o que piora o quadro.

Caso o idoso se apresente por mais de três dias sem evacuar, deve-se suspeitar da presença de fecaloma, independentemente da presença de outros sintomas.

Na avaliação clínica, é importante lembrar a regra dos quatro D’s, que contempla a maioria das causas cotidianas de constipação em pessoas de idade. São eles: Deambulação, Dieta, Doenças e Drogas.

Nossa paciente apresentava alguns fatores de risco como: imobilidade, pouca ingesta hídrica, diabetes e uso de amitriptilina. Além de ter usado loperamida para sua suposta diarreia.

O exame do abdome e a realização de toque retal são imperativos para determinar a sua presença. Eventualmente, à palpação profunda da fossa ilíaca esquerda pode-se sentir massa endurecida, moldável, ocupando a topografia do cólon sigmoide.

Dona Maria realizou clister glicerinado a 20% e necessitou da extração manual do fecaloma, recebendo alta no mesmo dia com encaminhamento para o ambulatório de geriatria. Familiares foram orientados quanto à dieta rica em fibras e uso de laxativos.

Veja mais casos:

Referência bibliográfica:

  • Curso de especialização na pessoa idosa – UNASUS – Unidade VII
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