Logotipo Afya
Anúncio
Ginecologia e Obstetrícia11 março 2025

Profilaxia pré-exposição ao HIV afeta o desenvolvimento infantil na gestação? 

Estudo avaliou a relação entre a exposição pré-natal à profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) e os resultados sobre a gestação e a criança
Por Renato Bergallo

A infecção pelo HIV continua sendo um grave problema de saúde pública no mundo e se torna um desafio ainda maior durante a gestação e o puerpério. Nesses períodos, o risco de aquisição do HIV duplica em comparação com outros momentos da vida, aumentando a preocupação com a transmissão vertical do vírus. A profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) baseada em tenofovir tem sido recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para gestantes em risco substancial de infecção. No entanto, ainda há incertezas sobre os impactos do uso da PrEP durante a gestação no desenvolvimento infantil a longo prazo. Um estudo recente publicado na The Lancet Global Health investigou os efeitos da exposição pré-natal à PrEP sobre desfechos neonatais, crescimento infantil e desenvolvimento socioemocional até os 36 meses de idade. 

O estudo analisado foi um estudo de coorte prospectivo, conduzido entre 2018 e 2021, com dados do PrEP Implementation for Mothers in Antenatal Care (PrIMA) Study, realizado em 20 unidades de saúde materno-infantil no Quênia. Participaram do estudo 4.063 gestantes HIV-negativas, das quais 558 (13,7%) utilizaram PrEP durante a gestação. As participantes foram acompanhadas desde a gestação até nove meses pós-parto e, em um subgrupo, até 36 meses pós-parto. A exposição à PrEP foi confirmada por meio de dosagens de tenofovir difosfato em amostras de sangue.  

Resultados  

Os desfechos analisados incluíram perda gestacional, natimortalidade, parto prematuro, peso e comprimento ao nascimento, além de marcadores de crescimento infantil (Z-escores de peso e altura) e desenvolvimento socioemocional avaliado pelo Ages and Stages Questionnaire – Social-Emotional (ASQ-SE).  

Os resultados não demonstraram diferenças significativas (p valor > 0,05) entre os grupos expostos e não expostos à PrEP em relação a aborto espontâneo (1,3% vs. 1,2%, com p=0,92), natimortalidade (3,2% vs. 3,1%, com p=0,94), parto prematuro (16,9% vs. 19,2%, com p=0,67) e baixo peso ao nascimento (<2,5 kg, com p=0,17). 

No acompanhamento até 36 meses, também não foram observadas diferenças significativas entre os grupos em relação ao crescimento infantil e às taxas de desnutrição (baixo peso, desnutrição crônica ou aguda). Os escores do ASQ-SE aos 24, 30 e 36 meses de idade não indicaram diferenças significativas entre crianças expostas e não expostas à PrEP durante a gestação (p=0,12, p=0,75 e p=0,81, respectivamente).  

Profilaxia pré-exposição ao HIV afeta o desenvolvimento infantil na gestação? 

Mensagem prática: desenvolvimento infantil e profilaxia pré-exposição ao HIV  

Esses achados são consistentes com estudos anteriores que sugerem a segurança do tenofovir disoproxil fumarato durante a gestação, inclusive em mulheres vivendo com HIV que utilizam terapia antirretroviral. Embora estudos anteriores tivessem limitações como curto período de seguimento e dependência de relatos maternos sobre adesão à PrEP, este estudo incluiu um acompanhamento mais prolongado e confirmação objetiva da exposição ao tenofovir. 

Os resultados deste estudo reforçam a segurança do uso da PrEP durante a gestação, sugerindo que a exposição pré-natal ao tenofovir não está associada a desfechos adversos neonatais, crescimento inadequado ou atraso no desenvolvimento socioemocional até os 36 meses de idade. Esses achados contribuem para a ampliação da implementação da PrEP entre gestantes em contextos de alta prevalência de HIV, reduzindo o risco de infecção sem comprometer a segurança materno-infantil. Estudos adicionais com seguimento até a idade escolar e avaliações mais detalhadas do neurodesenvolvimento podem fornecer ainda mais informações sobre os impactos de longo prazo do uso da PrEP na gestação.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Infectologia