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Infectologia1 agosto 2026

PrEP no Brasil: dados da AIDS 2026 mostram padrões de adesão

Dados da AIDS 2026 mostram padrões de adesão à PrEP no Brasil, com uso cíclico e descontinuação em diferentes populações.
Por Isabel Melo

A 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026) apresentou diversos dados brasileiros, principalmente em relação a medidas profiláticas.

A seguir, confira os principais destaques sobre os padrões de uso de profilaxia pré-exposição (PrEP) no país.

Como o estudo avaliou a adesão à PrEP oral?

A profilaxia pré-exposição (PrEP) para o HIV é altamente eficaz, mas sua efetividade na vida real depende da adesão.

Contudo, a maioria dos estudos avaliativos classifica períodos de descontinuação como falhas, não captando nuances, como usos cíclicos.

Um estudo retrospectivo, usando dados do Sistema Único de Saúde (SUS), avaliou os registros de dispensação de PrEP de 261.150 usuários.

Usuários com menos de 6 meses desde o início da PrEP e aqueles que faziam PrEP sob demanda foram excluídos da análise.

Quais padrões de adesão foram observados?

Os padrões de adesão foram classificados de acordo com a posse dos medicamentos:

  • sustentado: cobertura contínua, com intervalos < 30 dias;
  • cíclico: retorno após intervalo > 30 dias;
  • descontinuado: ausência de dispensação por > 180 dias.

Os padrões de adesão encontrados foram altamente heterogêneos.

Quais populações tiveram maior uso cíclico ou descontinuação?

Indivíduos identificados como travestis foram aqueles com maior prevalência de padrão cíclico, com 47,2% (aOR = 2,03; IC 95% = 1,61–2,56), em comparação com homens cisgênero.

Mulheres cisgênero mostraram maior descontinuação, com 60,4% (aOR = 4,47; IC 95% = 4,31–4,63), em comparação com homens cisgênero.

Usuários mais jovens, entre 18 e 24 anos, tiveram maior chance de padrão cíclico (aOR = 4,61; IC 95% = 1,57–1,72) e de descontinuação (aOR = 2,25; IC 95% = 2,16–2,35).

Usuários da região Nordeste tiveram menor chance de descontinuação do que os da região Sudeste (aOR = 0,76; IC 95% = 0,74–0,79).

Menor escolaridade praticamente dobrou as chances de descontinuação (aOR = 1,93; IC 95% = 1,83–2,03).

Usuários identificados como indígenas apresentaram padrão cíclico elevado (aOR = 1,38; IC 95% = 1,16–1,65).

Indivíduos não binários mostraram padrões cíclicos semelhantes aos de homens cisgênero (aOR = 1,10; IC 95% = 0,96–1,27).

O que esses dados indicam para políticas públicas?

Os padrões observados sugerem que estratégias diferentes devem ser usadas para favorecer a adesão à PrEP em diferentes populações.

A alta prevalência de padrão cíclico entre travestis sugere que esses indivíduos podem se beneficiar de modalidades de PrEP baseadas em eventos e de modelos de serviço mais flexíveis.

Já a elevada frequência de descontinuação entre jovens e mulheres cisgênero pode refletir barreiras relacionadas ao gênero ou menor percepção de risco.

Os autores concluem que políticas públicas de saúde voltadas à prevenção de HIV não devem buscar alvos uniformes de retenção, mas adotar estratégias flexíveis e capazes de agir nos determinantes relacionados à descontinuação nas populações mais vulneráveis.

Mensagem prática

Os dados brasileiros apresentados na AIDS 2026 mostram que a adesão à PrEP no Brasil não deve ser interpretada apenas como continuidade ou falha.

O uso cíclico, a descontinuação e a retomada da profilaxia variam conforme identidade de gênero, idade, escolaridade, região e pertencimento étnico-racial.

Para a prática clínica e para a saúde pública, a principal mensagem é que o acompanhamento da PrEP precisa ser individualizado, flexível e sensível às barreiras vividas por diferentes populações, especialmente travestis, mulheres cisgênero, jovens, pessoas indígenas e indivíduos com menor escolaridade.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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