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Infectologia3 agosto 2026

Mutações de resistência impactam terapia dupla em crianças com HIV?

Subestudo apresentado na AIDS 2026 avaliou mutações de resistência e supressão viral em crianças com HIV usando DTG/3TC.
Por Isabel Melo

Por que mutações arquivadas importam na terapia dupla? Com a ampliação das indicações e do uso de terapia dupla com dolutegravir/lamivudina (DTG/3TC), uma questão que ganha importância na prática clínica é o impacto de mutações de resistência arquivadas no sucesso do tratamento.

Os resultados de um subestudo que avaliou o efeito de mutações de resistência sobre a supressão viral de crianças de 2 a 14 anos com HIV-1, que trocaram sua terapia antirretroviral (TARV) para DTG/3TC em vigência de supressão viral, foram apresentados na 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026).

Alguns ensaios clínicos e estudos de vida real já demonstraram que DTG/3TC é capaz de manter supressão viral, definida como carga viral < 50 cópias/mL, mesmo na presença prévia da mutação M184V/I.

Como foi o subestudo apresentado na AIDS 2026?

O estudo D3/PENTA-21 avaliou 386 crianças entre 2 e 14 anos com supressão viral há pelo menos 6 meses, sem história de troca de TARV por falha terapêutica, virológica ou imunológica e sem evidências de resistência prévia a 3TC ou a inibidores de integrase (INI).

Os participantes foram randomizados para manter a TARV atual, baseada em DTG + 2 inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRNs), ou trocar para DTG/3TC.

Dentro do grupo de 193 crianças randomizadas para receber DTG/3TC, 82 passaram por avaliação de farmacocinética, das quais 80 tinham genótipo viral disponível. Os resultados dessas últimas 80 crianças foram apresentados.

Quais mutações foram encontradas?

A mutação de resistência a ITRN mais frequentemente encontrada foi M184V/I, presente em 16% das crianças na inclusão e na semana 48.

Também foi observada frequência relativamente elevada da mutação G140R, associada à resistência a INI.

A supressão viral foi mantida?

A maioria das crianças incluídas, ≥ 96%, manteve supressão viral na semana 48, inclusive aquelas que apresentavam mutações de resistência na inclusão.

Duas crianças, incluindo uma com M184V, apresentaram rebote viral na semana 48, sem mutações emergentes a ITRN ou INI.

Não foi possível determinar com exatidão o efeito da mutação M184V/I nos desfechos virológicos no subestudo. No entanto, dados do estudo principal sugerem associação entre M184V arquivada e rebote viral, sem diferença entre o grupo de crianças em uso de DTG/3TC e aquelas que estavam usando esquemas baseados em DTG e 2 ITRNs.

Mensagem prática

Esses resultados, embora baseados em pequeno número de participantes, apoiam a possibilidade de manter DTG/3TC como terapia de manutenção em crianças com HIV-1 e em supressão viral, sem necessidade de realização prévia de genotipagem.

Estudos maiores e com maior tempo de seguimento são necessários para confirmar os resultados.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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