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Infectologia30 julho 2026

AIDS 2026: Mortalidade por HIV no Brasil cai, mas diagnóstico tardio preocupa

Dados apresentados na IAS 2026 mostram queda da mortalidade por HIV no Brasil, mas diagnóstico tardio e desigualdades persistem.
Por Isabel Melo

A 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026) também apresentou um recorte da realidade brasileira em relação à mortalidade por HIV. A seguir, confira os principais pontos.

Queda da mortalidade por HIV no Brasil

A mortalidade por HIV no Brasil está diminuindo, com queda de 20% entre 2014 e 2024, chegando, pela primeira vez, ao patamar de menos de 10.000 mortes em 2025.

Quem tem maior risco de mortalidade por HIV?

Dentre os fatores associados à mortalidade por HIV no Brasil, destacam-se:

  • sexo feminino;
  • residir na região Norte;
  • ser negro/pardo;
  • faixas etárias mais jovens;
  • menor escolaridade;
  • ser solteiro.

Outra análise, avaliando as curvas de sobrevida entre 2015 e 2024, mostrou fatores associados a diferenças em mortalidade, com destaque para raça, escolaridade, região de residência, residência em capitais ou em outras cidades e primeira contagem de CD4.

Diagnóstico tardio ainda limita os avanços

A análise de sobrevida no primeiro ano de acompanhamento após o diagnóstico mostra tendência de melhora, com redução da mortalidade nesse período ao longo dos anos.

Apesar dos avanços, a proporção de diagnóstico tardio e contagem inicial de CD4 < 200 células/mm³ permaneceu a mesma, entre 26% e 27%, ao longo do período de 2015 a 2026.

A sobrevida no primeiro ano após o diagnóstico é significativamente menor em pessoas vivendo com HIV com CD4 inicial < 200 células/mm³, chegando a 85%, em comparação com 99% entre indivíduos com CD4 > 500 células/mm³.

Mudança no perfil das causas de óbito

Em relação às causas de óbito, houve mudança no perfil epidemiológico, com redução na proporção de infecções oportunistas e aumento na proporção de causas não transmissíveis, como neoplasias.

Estratégias para reduzir mortalidade por Aids avançada

Como ações para redução da mortalidade associada à doença avançada pelo HIV, o Ministério da Saúde desenvolveu o circuito rápido de Aids avançada.

A estratégia consiste em identificação precoce e testagens point-of-care, como LF-LAM, LF-CrAg e CD4 point-of-care, com antígeno para histoplasma disponível de forma menos centralizada. Essas ações são articuladas com recomendações de tratamento de infecções oportunistas, início de profilaxias e início ou retomada de terapia antirretroviral.

Como medidas complementares, haverá a implementação de ofertas integradas de cuidado, contemplando quatro síndromes clínicas em pessoas vivendo com HIV:

  • síndrome respiratória;
  • síndrome neurológica;
  • síndrome mucocutânea;
  • síndrome consumptiva.

Cada síndrome acionaria a possibilidade de um pacote padronizado de exames complementares mais complexos, mas já disponíveis no SUS, além de interconsulta com especialista.

Determinantes sociais também importam

Destacou-se a importância de, além do investimento em ações biomédicas, haver investimento, desenvolvimento e implementação de políticas públicas voltadas à promoção da cidadania, com o objetivo de agir sobre os determinantes sociais relacionados à mortalidade por HIV.

Como evidência, um estudo publicado no The Lancet HIV mostrou que alta cobertura do Programa Bolsa Família esteve associada a maiores reduções na incidência de Aids, nas hospitalizações por HIV/Aids e na mortalidade por Aids.

Mensagem prática

Os dados apresentados na IAS 2026 mostram avanço importante na redução da mortalidade por HIV no Brasil, mas também reforçam que o diagnóstico tardio, a baixa contagem inicial de CD4 e as desigualdades sociais e regionais ainda limitam os resultados.

Para a prática clínica e para a saúde pública, a mensagem central é que reduzir a mortalidade por HIV exige diagnóstico mais precoce, resposta rápida à Aids avançada, cuidado integrado no SUS e políticas públicas capazes de atuar sobre determinantes sociais.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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