A dengue pode aumentar em 17 vezes o risco de desenvolvimento da síndrome de Guillain-Barré nas seis semanas seguintes à infecção, aponta estudo da Fiocruz publicado no New England Journal of Medicine. O achado ajuda a dimensionar uma associação que já vinha sendo observada em relatos clínicos, mas ainda carecia de estimativas mais robustas em escala populacional.
A síndrome é uma polirradiculoneuropatia inflamatória aguda, potencialmente grave, que pode provocar fraqueza muscular progressiva, alterações sensitivas e, em casos mais severos, comprometimento respiratório.
Para a infectologista Isabel Melo, o principal valor prático do estudo está em aumentar a atenção clínica para uma complicação rara, mas potencialmente grave. “Os resultados dessa pesquisa têm um papel central em alertar os médicos para a possibilidade de a infecção pelo vírus da dengue ser um fator precipitante para Guillain-Barré. Esse conhecimento é importante para que os poucos casos que venham a acontecer possam ser reconhecidos e tratados de forma mais precoce”, afirma.
Veja mais: Dengue: neurologistas alertam para riscos ao sistema nervoso central
O que mostrou o estudo
A análise foi baseada em registros de 5.055 internações por síndrome de Guillain-Barré no SUS entre 2023 e 2024. Desse total, 89 internações ocorreram no período de 1 a 42 dias após infecção por dengue confirmada em laboratório. A partir desses dados, os pesquisadores estimaram que o risco da complicação neurológica foi 16,7 vezes maior nesse intervalo em comparação com períodos mais distantes da infecção.
Os dados também indicaram que a janela de maior risco se concentra no início da doença. Nas duas primeiras semanas após o início dos sintomas da dengue, a chance de síndrome de Guillain-Barré chegou a ser 30 vezes maior. Em termos absolutos, trata-se de uma complicação rara, estimada em cerca de 35 a 36 hospitalizações por milhão de casos de dengue, mas que ganha relevância em um país com circulação endêmica do vírus e histórico recente de grandes epidemias.
Por que o achado chama atenção
A relação entre dengue e manifestações neurológicas não é nova, mas o estudo reforça a necessidade de maior atenção clínica para sinais neuromusculares após a fase aguda da infecção. Formigamento em mãos e pés, fraqueza progressiva, dificuldade para andar e redução de reflexos estão entre os sintomas que podem sugerir a síndrome de Guillain-Barré. Como o quadro pode evoluir rapidamente, o reconhecimento precoce tende a ser decisivo para encaminhamento e tratamento oportunos.
Segundo a Dra. Isabel Melo, a manifestação mais típica é “o desenvolvimento de fraqueza muscular progressiva e, normalmente, ascendente, isto é, iniciada nos membros inferiores e que vai posteriormente subindo para afetar tórax e membros superiores”. Ela ressalta que, justamente por ser rara, a síndrome pode passar despercebida no início. “Manter um alto nível de suspeição é um fator essencial para que a investigação correta possa ser iniciada e o tratamento específico, instituído”, diz.
Leia também: Síndrome de Guillain-Barré: quando suspeitar e como tratar
Impacto para a prática e para a vigilância
O novo resultado não altera o manejo da maior parte dos casos de dengue, mas amplia o alerta para uma complicação rara e de alto impacto funcional. Para a prática médica, o estudo reforça a importância de acompanhar sintomas neurológicos nas semanas seguintes à infecção, especialmente em pacientes com queixas motoras ou sensitivas persistentes.
Na avaliação da infectologista, o dado ainda não justifica mudança formal nos protocolos de acompanhamento, mas deve aumentar o grau de suspeição entre os profissionais. “Mesmo com o aumento no risco relativo, a SGB ainda é uma condição rara”, afirma. Para ela, o principal ajuste, neste momento, é orientar pacientes com suspeita ou confirmação de dengue a procurar novamente atendimento se perceberem sinais neurológicos compatíveis com a síndrome.
Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.