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Infectologia26 janeiro 2026

Dengue ou Oropouche? Diferenças clínicas em surtos simultâneos no Brasil

Estudo brasileiro compara dengue e febre do Oropouche, destacando diferenças clínicas, gravidade e padrões epidemiológicos.

O vírus do Oropouche (OROV) é um arbovírus capaz de causar em humanos uma doença semelhante a dengue, zika e Chikungunya. Antes restrita à região amazônica, recentemente ganhou atenção ao causar surtos em diferentes estados do Brasil. 

Diferente de outras arboviroses urbanas, a febre do Oropouche é transmitida pelo Culicoides paraensis. Os sintomas mais frequentemente relatados incluem febre, cefaleia, mialgia, dor orbital, náuseas e vômitos, e está associada a transmissão vertical, más formações congênitas e manifestações neurológicas e hemorrágicas. 

Nos anos de 2024 e 2025, o estado do Espírito Santo concentrou a maior epidemia de OROV no Brasil fora da região amazônica, que aconteceu ao mesmo tempo da maior epidemia de dengue nesse estado. A circulação simultânea desses vírus e a possibilidade de coinfecção cria dificuldades tanto para a vigilância quanto para o manejo dos casos. 

Um estudo de autores brasileiros comparou casos de dengue e febre do Oropouche em suas características sociodemográficas e clínicas, além de parâmetros de gravidade e desfechos de mortalidade no Espírito Santo (ES). 

oropouche

Materiais e métodos 

Trata-se de um estudo transversal, com dados secundários provenientes do sistema de vigilância do ES (eSUS-VS), que é o único sistema oficial para notificação de agravos de notificação compulsória. Desde 2024, todos os casos suspeitos de arboviroses no ES passaram a ser testados para OROV por meio de testes de PCR-RT. 

O estudo incluiu todos os casos suspeitos de arbovirose com confirmação laboratorial para OROV ou dengue notificados no eSUS-VS entre março de 2024 e maio de 2025. Casos não-autóctones foram excluídos. Casos suspeitos de arbovirose foram definidos como indivíduo com febre (tipicamente com duração de 2 a 7 dias) e pelos menos 2 dos seguintes: náuseas ou vômitos, rash, mialgia ou artralgia, cefaleia ou dor retro-orbital, petéquias ou prova do laço positiva. 

Os casos foram considerados como confirmados laboratorialmente se apresentassem PCR-RT detectável para OROV em amostras de soro coletadas até 5 dias ou em amostras de urina ou líquor coletadas até 15 dias após o início dos sintomas. Já para os casos de dengue, considerou-se como casos confirmados laboratorialmente os com detecção de RNA viral por PCR-RT, antígeno NS1 positivo em amostras de soro coletadas em até 5 dias de sintomas ou detecção de anticorpos IgM. 

Para os casos de dengue, os autores utilizaram os critérios do Ministério da Saúde para determinar a gravidade de cada episódio. Para os casos de febre do Oropouche, foram classificados como graves os casos que necessitaram de internação hospitalar, os que apresentaram sinais ou sintomas compatíveis com encefalite, manifestações hemorrágicas, disfunção hepática, disfunção renal ou os com descompensação de comorbidades prévias. 

Resultados 

Durante o período do estudo, foram identificados 12.135 casos autóctones de febre do Oropouche e 18.018 casos de dengue no ES. Os casos de Oropouche começaram a aumentar a partir da semana epidemiológica (SE) 43 de 2024, com pico na SE 2 de 2025, com 938 casos confirmados. Durante o principal período epidêmico, foram notificados mais de 6.000 casos de febre do Oropouche no estado. Já os casos de dengue se concentraram entre as SE 13 e 41 de 2024, com pico na SE 13, com mais de 2.000 casos. Após esse período, houve um declínio gradual e estabilização em níveis baixos a partir da SE 31. 

As doenças apresentaram padrões diferentes de distribuição espacial. Casos de febre de Oropouche apresentaram maior incidência em estados localizados mais no interior do estado, particularmente em áreas rurais e periurbanas, formando clusters fora da região metropolitana. Os casos de dengue, por sua vez, apresentaram um padrão mais difuso de distribuição, com maior incidência em centros urbanos e no corredor metropolitano. 

A média de idade foi similar entre os casos de dengue e de febre do Oropouche, de 42 e 40 anos, respectivamente, porém a distribuição de idade foi diferente. Enquanto os casos de Oropouche foram mais frequentes na faixa etária de 20 – 39 (34,5%) e 40 – 59 anos (34,8%), os casos de dengue foram mais heterogêneos, com maior proporção na faixa de 20 – 39 anos. 

Casos de Oropouche foram mais comuns entre homens e gestantes e os casos de dengue, entre mulheres. Em relação à raça, a maioria dos casos de Oropouche relatados foram em indivíduos brancos (56,3%), diferente dos casos de dengue, em que indivíduos não-brancos foram os mais acometidos (59,6%). Como dito anteriormente, casos de dengue foram predominantemente urbanos (84,2%) e os de Oropouche, rurais e periurbanos (52,1%). 

Em ambas as doenças, os principais sinais e sintomas foram febre, cefaleia e mialgia, mas suas proporções foram maiores nos casos de febre do Oropouche: 84,5% vs. 787%, 83,9% vs. 72,1% e 76,5% vs. 67,5%, respectivamente. Náuseas, dor retro-orbital e dor nas costas também foram mais comuns nos casos de Oropouche. Rash e petéquias foram mais frequentes nos casos de dengue. 

Indivíduos com dengue apresentaram maior frequência de manifestações graves (3,5% vs. 0,2%). Embora as duas doenças tenham apresentado taxas de letalidade baixas, os óbitos relacionados a dengue foram mais frequentes (20/18.018; 0,1%) do que os relacionados a Oropouche (2/12.135; 0,02%). Após análise ajustada, casos de dengue tinham maior chance de apresentar manifestações graves (OR = 15,35; IC 95% = 10,60 – 22,23) e de óbito relacionado à doença (OR = 2,09; IC 95% = 1,10 – 3,98). 

Mensagens práticas 

  • Febre, cefaleia e mialgia foram os sintomas mais frequentes em casos de dengue e de febre do Oropouche, embora tenham sido mais comuns em casos de Oropouche. 
  • Os casos de Oropouche predominaram entre adultos jovens, homens e moradores de áreas rurais e periurbanas. Os municípios com maior número de casos apresentavam extensas plantações de banana e café. Já os casos de dengue foram mais frequentes em mulheres e em áreas urbanas. 
  • Ocorrência de manifestações graves e de óbitos relacionados à doença foram mais frequentes nos casos de dengue, mas casos graves de Oropouche foram relatados, especialmente em idosos e em pessoas com comorbidades. 

Autoria

Foto de Isabel Cristina Melo Mendes

Isabel Cristina Melo Mendes

Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro

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