Além dos avanços em tratamento e prevenção, a 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026) apresentou novidades em relação às pesquisas sobre cura da infecção pelo HIV.
Mais dois novos casos foram apresentados durante o congresso, os quais estão resumidos a seguir.
Paciente de Essen: HIV-1, HBV e transplante alogênico
O primeiro caso foi de um paciente com infecção por HIV-1, em supressão viral, e com coinfecção por HBV, que foi submetido a transplante alogênico de células hematopoiéticas devido à leucemia linfocítica crônica de células B.
O doador tinha compatibilidade HLA 10/10 e perfil CCR5 Δ32/Δ32.
Após o transplante e a reconstituição imune, respostas com anticorpos específicos anti-HIV-1 e respostas de células T específicas contra HIV-1 não foram detectadas.
Os níveis de DNA viral foram detectados em níveis extremamente baixos, de 7,4 cópias por milhão de células T CD4, e não foram detectados vírus com replicação competente em ensaios de crescimento viral.
Além disso, não foi encontrado DNA proviral intacto em amostras de biópsia ileal ou retal, locais clássicos de reservatório, 42 meses após o transplante.
O que aconteceu após a interrupção da TARV?
A terapia antirretroviral (TARV) foi interrompida 51 meses após o transplante alogênico.
Enquanto o RNA viral permaneceu indetectável 12 meses após a interrupção da TARV, foi observada reativação da infecção por HBV após 25 dias.
Apesar da progressão lenta, o tratamento com entecavir foi iniciado 4,8 meses após a interrupção da TARV.
Paciente do Kansas: remissão após transplante por leucemia
O segundo caso foi de um paciente de 21 anos que foi submetido a transplante alogênico de células hematopoiéticas devido a quadro de leucemia mieloide aguda indiferenciada.
Como no caso anterior, a doadora tinha compatibilidade HLA 10/10 e era homozigota para CCR5 Δ32/Δ32.
O período pós-transplante foi complicado por disfunção do enxerto e doença do enxerto contra hospedeiro estágio I do trato gastrointestinal, tratada com esteroides.
Após o transplante, a expressão de CCR5 na superfície das células sanguíneas foi indetectável.
O que os achados indicam sobre reservatório viral?
A interrupção da TARV ocorreu 51 meses após o transplante.
A carga viral plasmática permaneceu indetectável 14 meses após a interrupção da TARV.
DNA proviral intacto e vírus com replicação competente não foram detectados em avaliações seriadas após a interrupção.
Mensagem prática
Os dois casos apresentados na AIDS 2026 ampliam o conjunto de evidências sobre remissão sustentada do HIV após transplante alogênico de células hematopoiéticas com doadores CCR5 Δ32/Δ32.
Ainda assim, ambos os pacientes permanecem em acompanhamento, e mais tempo será necessário para confirmar remissão prolongada e possível cura.
Autoria

Isabel Melo
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.
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