Logotipo Afya
Anúncio
Infectologia26 janeiro 2026

Clearance do anti-HBs em PVHIV vacinados

Estudo recente teve como objetivo principal descrever a queda de anti-HBs em PVHIV vacinadas. Confira a metodologia e os resultados!
Por Raissa Moraes

Algumas pessoas vivendo com HIV (PVHIV) podem apresentar maior risco de aquisição da infecção pelo vírus da hepatite B (HBV), em virtude de modos de transmissão semelhantes. A coinfecção HIV/HBV associa-se a progressão mais rápida da fibrose hepática, aumento do risco de carcinoma hepatocelular e maior mortalidade. Dessa forma, a vacinação contra o HBV é fortemente recomendada nessa população. 

A imunogenicidade da vacina contra hepatite B é menor em PVHIV quando comparada a adultos saudáveis HIV negativos. A efetividade da vacinação contra o HBV é avaliada por meio da dosagem de anticorpos contra o antígeno de superfície da hepatite B (anti-HBs). Os indivíduos são usualmente classificados como não respondedores (anti-HBs <10 UI/L), respondedores baixos (10 ≤ anti-HBs <100 UI/L), respondedores moderados (100 ≤ anti-HBs <1000 UI/L) e hiperrespondedores (anti-HBs ≥1000 UI/L). Para garantir proteção confiável em grupos de risco elevado para desfechos graves, como indivíduos imunocomprometidos, a Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL) recomenda um título de anti-HBs ≥100 UI/L como indicador de resposta vacinal ideal, quando medido entre 1 e 2 meses após a última dose da vacina. 

Em profissionais de saúde não imunocomprometidos, os níveis de anti-HBs diminuem após 10 a 31 anos, caindo abaixo do nível considerado protetor (anti-HBs <10 UI/L) em aproximadamente 25% dos casos. Em pacientes imunocomprometidos, os níveis de anti-HBs declinam mais precocemente e de forma mais acentuada. Existem poucos dados publicados sobre a queda de anti-HBs em PVHIV. 

Apesar de níveis inicialmente elevados de anti-HBs, a perda da imunidade contra a hepatite B pode tornar pacientes imunocomprometidos suscetíveis a infecção primária pelo HBV. Esse fato gera preocupação em PVHIV que permanecem sob risco de exposição ao HBV, especialmente na vigência de esquemas antirretrovirais poupadores de tenofovir atualmente utilizados em contexto de supressão viral. Esses esquemas não possuem atividade plena contra o HBV, embora a lamivudina mantenha alguma atividade antiviral contra esse vírus. Quando os níveis de anti-HBs caem abaixo de 10 UI/L, uma dose de reforço vacinal pode aumentar significativamente os títulos de anticorpos e garantir proteção contra o HBV. 

Metodologia 

Um estudo recente teve como objetivo principal descrever a queda de anti-HBs em PVHIV vacinadas. Os objetivos secundários incluíram a identificação de fatores de risco associados ao declínio do anti-HBs e a descrição da incidência de hepatite B em PVHIV que perderam os anticorpos anti-HBs. 

Foram incluídas retrospectivamente PVHIV vacinadas com níveis de anti-HBs ≥10 UI/L, provenientes do banco de dados francês Dat’AIDS. Indivíduos com hepatite B previamente curada foram excluídos. Para cada participante, todos os resultados de anti-HBs foram coletados até março de 2024. O pico de anti-HBs foi definido como o maior valor registrado, correspondendo ao ponto de entrada na análise. Os fatores associados à queda do anti-HBs abaixo de 10 UI/L foram identificados por meio de modelo de Cox multivariável. 

No total, 11.082 PVHIV preencheram os critérios de inclusão e foram analisadas. As datas de T0 variaram de outubro de 1988 a março de 2024. Dados ausentes ocorreram em 3.992/11.082 participantes, sendo o índice de massa corporal (IMC) a variável com maior taxa de ausência (23,3%). Todos os 11.082 participantes foram incluídos na análise principal dos fatores de risco por meio de imputação múltipla. Adicionalmente, realizou-se análise multivariável sem imputação em 7.090 participantes com dados completos. 

Resultado 

De forma resumida, o seguimento mediano foi de 3,8 anos, a maioria dos participantes era do sexo masculino (74,2%), com idade mediana de 38 anos. A maior parte nasceu na França (72,6%), e a coinfecção pelo HCV estava presente em 6,4%. O IMC situava-se entre 20 e 25 kg/m² em 61,9% dos participantes, e 43,0% eram tabagistas ativos. A principal via de transmissão do HIV foi homens que fazem sexo com homens (HSH)/bissexuais (55,4%). A duração mediana da infecção pelo HIV foi de 1.696 dias. A maioria encontrava-se em estágio CDC A (71,9%), com contagem mediana de linfócitos T CD4 de 577 células/mm³ no momento da inclusão e nadir mediano de CD4 de 310 células/mm³. 

Entre as 11.082 PVHIV incluídas, 4.480 apresentaram pico de anti-HBs entre 10 e 99 UI/L, 3.268 entre 100 e 499 UI/L, 1.205 entre 500 e 999 UI/L, e 2.129 ≥1000 UI/L. O seguimento mediano foi de 3,8 anos. A perda de anticorpos ao longo do tempo foi semelhante entre os três grupos com pico de anti-HBs ≥100 UI/L e significativamente mais lenta quando comparada ao grupo com anti-HBs <100 UI/L. O pico de anti-HBs foi a variável com maior impacto sobre a perda de anticorpos na análise multivariável. Em comparação aos participantes com anti-HBs <100 UI/L, valores de pico entre 100–499 UI/L, 500–999 UI/L e ≥1000 UI/L foram fatores protetores contra a perda de anti-HBs, com razões de risco de 0,26 [0,23–0,30], 0,17 [0,13–0,22] e 0,10 [0,07–0,12], respectivamente (p <0,001). 

A perda de anticorpos ocorreu de forma ligeiramente mais rápida em PVHIV com idade superior a 45 anos, IMC acima de 25 kg/m² e naquelas nascidas na África ou em países distintos da França. Fatores relacionados ao HIV exerceram impacto moderado sobre o declínio dos anticorpos. Um nadir de CD4 acima de 200 células/mm³ e duração da infecção pelo HIV ≤1 ano no momento do pico de anti-HBs mostraram-se fatores protetores. 

Considerações finais  

Este estudo apresenta algumas limitações. Trata-se de uma coorte nacional francesa, composta majoritariamente por homens nascidos na França, com infecção pelo HIV controlada. Assim, os resultados podem não ser generalizáveis a outras populações, sendo necessários mais dados, especialmente em PVHIV com imunodeficiência mais profunda. 

Em conclusão, o nível de pico de anti-HBs é o principal fator associado à persistência dos anticorpos em PVHIV. A perda de anti-HBs é lenta em indivíduos com pico acima de 100 UI/L, podendo-se reduzir a frequência de monitoramento nesses casos. Outras variáveis, como idade avançada, IMC elevado e nadir baixo de CD4, foram fatores de risco moderados para perda de anti-HBs. PVHIV com níveis de anti-HBs abaixo de 100 UI/L, especialmente aquelas com fatores de risco adicionais, devem ser monitoradas de forma mais rigorosa e consideradas para administração de dose de reforço vacinal. 

Autoria

Foto de Raissa Moraes

Raissa Moraes

Editora médica de Infectologia da Afya ⦁ Médica do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Mestrado em Pesquisa Clínica pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Infectologista pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Infectologia