Apesar de apresentar excelente perfil em relação a eventos adversos, o uso de dolutegravir (DTG) vem sendo associado a ganho de peso, o que é uma preocupação em um cenário de alta prevalência de obesidade.
Dados brasileiros sobre as alterações de peso e de índice de massa corporal (IMC) com uso de DTG foram apresentados em sessão da 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026).
Como foi o estudo CODE?
O estudo CODE acompanha 4.525 pessoas vivendo com HIV (PVHIV) em 15 centros no Brasil, avaliando desfechos de vida real com uso de DTG.
Na análise apresentada, foram avaliadas variações significativas de peso, definidas como aumento > 10%, e de IMC aos 6 e 12 meses após início ou troca para terapia antirretroviral (TARV) baseada em DTG.
Foram analisados 4 grupos:
- Virgens de TARV iniciando DTG: n = 1.972 em 6 meses; n = 1.870 em 12 meses;
- Usuários em supressão viral trocando a TARV para DTG: n = 463 em 6 meses; n = 454 em 12 meses;
- Usuários trocando TARV devido à falha virológica: n = 192 em 6 meses; n = 181 em 12 meses;
- Grupo controle sem uso de DTG: n = 131 em 6 meses; n = 123 em 12 meses.
Quais foram os resultados em peso e IMC?
As medianas de peso no início do estudo foram semelhantes entre os grupos, variando entre 67,8 e 75,0 kg, assim como os valores de IMC, que variavam de 23,5 a 25,2 kg/m².
Na avaliação após 6 meses, as medianas de peso apresentaram as seguintes variações:
- Grupo 1: +1,9 kg (IQR = -0,5 a 5,1);
- Grupo 2: +1,0 kg (IQR = -0,7 a 2,8);
- Grupo 3: +1,6 kg (IQR = -0,3 a 5,0);
- Grupo 4: +1,1 kg (IQR = -1,0 a 4,5).
Ao final dos 12 meses de seguimento, aumento significativo de peso ocorreu em:
- 25% no Grupo 1;
- 9% no Grupo 2;
- 26% no Grupo 3;
- 15% no Grupo 4.
Os aumentos correspondentes no IMC foram, respectivamente, +1,0, +0,4, +1,2 e +0,5 kg/m².
O que os dados sugerem sobre o “retorno à saúde”?
TARV baseada em DTG esteve associada a ganhos moderados de peso em PVHIV brasileiros.
Aproximadamente 25% dos participantes que iniciaram terapia ou trocaram esquema por falha virológica apresentaram variação de pelo menos 10% do peso após 1 ano.
O grupo que trocou TARV para um esquema contendo DTG em supressão viral apresentou menor ganho ponderal, o que sugere que o fenômeno de “retorno à saúde” em PVHIV iniciando tratamento pode exercer papel importante nos resultados observados.
Análises futuras irão avaliar possíveis fatores preditores para ganho de peso, tais como sexo, idade, IMC inicial e antirretrovirais específicos compondo o esquema em conjunto com DTG.
Mensagem prática
Os dados brasileiros do estudo CODE apresentados na AIDS 2026 reforçam que o ganho ponderal associado ao dolutegravir deve ser monitorado na prática clínica, especialmente em PVHIV iniciando TARV ou trocando esquema por falha virológica.
A menor variação de peso em pacientes que trocaram para DTG já em supressão viral sugere que parte do ganho observado pode estar relacionada ao fenômeno de “retorno à saúde”, e não exclusivamente ao efeito do antirretroviral.
Ainda assim, o acompanhamento de peso, IMC e fatores cardiometabólicos deve fazer parte do seguimento de PVHIV em uso de esquemas baseados em DTG.
Autoria

Isabel Melo
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.
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